Michelangelo – Escultor – Pintor – Arquiteto

Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni
* Caprese, Itália – 06 de Março de 1475
+ Roma, Itália – 18 de fevereiro de 1564

RETRATO DE MICHELANGELO
Óleo de Marcello Venusti – 1504 d.C
Galeria Uffizi – Florença – Itália
Índice

Vídeos:
♦ Agonia e Êxtase I
♦ Agonia e Êxtase II
♦ David – Estudo Analítico
♦ David – Estudo Analítico em 3D

Fotos:
♦ Vista de Florença Atual
♦ Florença na Época de Michelangelo
♦ A Capela Sistina – Vista Externa

Textos:
♦ Michelangelo
♦ Sinopse do Filme Agonia e Êxtase
Florença e o Mecenato
♦ A Pietá
♦ O Davi
♦ A Sagrada Família
♦ O Túmulo do Papa Júlio II
♦ O Moisés
♦ Michelangelo Parte para Roma
♦ A Capela Sistina
♦ A Barca de Caronte
♦ Tumba da Família Médici
♦ Personalidade
♦ Certidão de nascimento de Michelangelo
♦ O Poeta Michelangelo
♦ Correspondências
♦ Últimos dias: Solidão e Produção

Obras:
♦ O Combate dos Centauros
Baco
♦ Estudo para a Pietá: Desenho
♦ A Pietá
♦ A Pietá – Detalhe – Cabeça de Cristo
♦ A Pietá – Detalhe – Cabeça de Maria
♦ A Pietá – Maria – Faixa com o nome de Michelangelo - Detalhe
♦ A Pietá – Mão de Cristo – Detalhe
♦ Davi
♦ Davi – Cabeça – Detalhe
♦ Davi – Costas – Detalhe
♦ Davi – Busto
♦ Davi – Mão – Detalhe
♦ Davi – Mão Esquerda e Cabeça – Detalhe
♦ Davi – Torso
♦ A Sagrada Família
♦ O Papa Julio II Pintura de Rafael Sanzio
♦ Túmulo do Papa Júlio II
♦ Túmulo do Papa Júlio II – Lea
♦ Túmulo do Papa Júlio II – Rachel
♦ Túmulo do Papa Julio II – Moisés
♦ Túmulo do Papa Julio II – Moisés – Rachel e Lea
♦ Túmulo do Papa Julio II – Moisés – Detalhe da Cabeça
♦ Túmulo do Papa Julio II – Moisés – Detalhe da Cabeça – Perfil
♦ Túmulo do Papa Julio II – Moisés – Detalhe Mão Direita e Barba
♦ Escravo Moribundo – Louvre
♦ Capela Sistina – Vista Interna
♦ Capela Sistina – Teto – Detalhe 01
♦ Capela Sistina – Teto – Detalhe 02
♦ Capela Sistina – Parede Lateral – Detalhe
♦ Capela Sistina – Teto – Criação do Homem – Detalhe
♦ Capela Sistina – Teto – Deus – Detalhe
♦ Capela Sistina – Juízo Universal
♦ Capela Sistina – Juízo Universal - Cristo - Detalhe
♦ Capela Sistina: Juízo Universal – Salvação
♦ A Capela Sistina – Juízo Universal – Ressurreição dos Mortos – Detalhe
♦ A Capela Sistina – Juízo Universal – A Barca de Caronte – Detalhe
♦ Capela Sistina: Juízo Universal – A Barca de Caronte
♦ Capela Sistina: Adão e Eva
♦ Capela Sistina: Criação do Dia e da Noite
♦ Capela Sistina: Criação do Dia e da Noite – Detalhe
♦ Capela Sistina: Profeta Zacharias
♦ Capela Sistina: Estudo para Sybila
♦ Capela Sistina: Sybila da Eritéia
♦ Capela Sistina: Sybila da Líbia
♦ Capela Sistina: Sybila de Delfos
♦ Tumba dos Médici
♦ Tumba dos Médici: Aurora – Detalhe
♦ Tumba de Juliano de Médice: Detalhe
♦ Madona Médice
♦ Juliano de Médice
♦ Vitória Collona
♦ Escravo: Louvre
♦ Cristo: Igreja Sta. Maria Minerva
♦ Estudo Para Vittoria Colonna
♦ Fall Of Phaenton: Desenho Londres
♦ Estudo Para Cabeça de Mulher
♦ Pietá Rodanini
♦ Escravo no Banho
♦ A Madona da Escada: Relevo
♦ Crucifixo
♦ Obra Inacabada
♦ Menino Agachado
♦ Estudo Para Cabeça de Homem
♦ Túmulo de Michelangelo


Florença – Em destaque a cúpula da catedral
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Michelangelo
Foi um dos cinco filhos de Ludovico de Lionardo Buonarroti Simoni e de Francesca, que morreu quando Michelangelo tinha seis anos.

Michelangelo foi entregue aos cuidados de uma ama-de-leite cujo marido era cortador de mármore na aldeia de Settignano.

Mais tarde, brincando, Michelangelo atribuirá a este fato sua vocação de escultor.

Brincadeira ou não, o certo é que na escola enchia os cadernos de exercícios com desenhos, totalmente desinteressados das lições sobre outras matérias.

Por isso, mais de uma vez foi espancado pelo pai e pelos irmãs de seu pai, a quem parecia vergonhoso ter um artista na família, justamente uma família de velha e aristocrática linhagem florentina, mencionada nas crônicas locais desde o século XII.

E o orgulho familiar jamais abandonará Michelangelo.

Ele preferirá a qualquer titulo, mesmo o mais honroso, a simplicidade altiva de seu nome: “Não sou o escultor Michelangelo. Sou Michelangelo Buonarroti”.

Aos 13 anos, sua obstinação vence a do pai: ingressa como aprendiz, no estúdio de Domenico Ghirlandaio, já então considerado mestre da pintura de Florença.

Mas o aprendizado é breve – cerca de um ano -, pois Michelangelo irrita-se com o ritmo do ensino, que lhe parece moroso, e além disso considera a pintura uma arte limitada: o que busca é uma expressão mais ampla e monumental.

Diz-se também que o motivo da saída do jovem foi outro: seus primeiros trabalhos revelaram-se tão bons que o professor, enciumado, preferiu afastar o aluno.

Entretanto, nenhuma prova confirma essa versão.

Sinopse do Filme Agonia e Êxtase

baseia-se no romance de Irving Stone sobre os bastidores da pintura da Capela Sistina, na relação entre Michelângelo e o papa Júlio II, e busca lançar aproximar um dos mais famosos gênios da arte do espectador, com seus conflitos e defeitos.

Com isso privilegia os conflitos na relação entre Michelângelo e Júlio II, mas para satisfazer ao grande público, tentam mostrar um romance do pintor com a Condessa de Médici, que acaba não saindo do lugar. Infelizmente terminamos o filme sem conhecer mais do processo criativo do pintor, nem as razões interiores dos seus conflitos. O artista é mostrado como um homem perturbado por sua obsessão com a arte e a perfeição, mas conhecemos pouco do homem depois do filme.

Importante nesta pesquisa constatar que Michelângelo foi o primeiro artista ocidental a reivindicar consistentemente sua independência criativa, e o prestígio de que desfrutou em vida.

Documentário sobre o filme Agonia e Êxtase – Parte I

Documentário sobre o filme Agonia e Êxtase – Parte II

Florença e o Mecenato

Deixando Ghirlandaio, Michelangelo entra para a escola de escultura que o mecenas Lourenço, o Magnífico – riquíssimo banqueiro e protetor das artes em Florença mantinha nos jardins de São Marcos.

Lourenço interessa-se pelo novo estudante: aloja-o no palácio, faz com que sente a mesa de seus filhos.

Michelangelo está em pleno ambiente físico e cultural do Renascimento italiano.

A atmosfera, poética e erudita, evoca a magnificência da Grécia Antiga, seu ideal de beleza – baseado no equilíbrio das formas -, sua concepção de mundo – a filosofia de Platão.

Michelangelo adere plenamente a esse mundo.

Ao produzir O Combate dos Centauros, baixo-relevo de tema mitológico, sente-se não um artista italiano inspirado nos padrões clássicos helênicos, mas um escultor grego de verdade.

O Combate dos Centauros – Relevo – Mármore – Detalhe

Em seu primeiro trabalho na pedra, com seus frisos de adolescentes atléticos, reinam a força e a beleza impassíveis, como divindades do Olimpo.

Na Igreja del Carmine, Michelangelo copia os afrescos de Masaccio.

Nos jardins de Lourenço, participa de requintadas palestras sobre filosofia e estética.

Mas seu temperamento irônico, sua impaciência com a mediocridade e com a lentidão dos colegas lhe valem o primeiro – e irreparável – choque com a hostilidade dos invejosos.

Ao ridicularizar o trabalho de um companheiro, Torrigiano dei Torrigiani, vaidoso e agressivo, este desfechou-lhe um golpe tão violento no rosto que Michelangelo ficou com o nariz desfigurado.

Mancha que nunca mais se apagará da sua sensibilidade e da sua retina, a pequena deformação lhe parecerá daí por diante um estigma – o de um mundo que o escorraça por não aceitar a grandeza do seu gênio – e também uma mutilação ainda mais dolorosa para quem, como ele, era um sofisticado esteta, que considerava a beleza do corpo uma legitima encarnação divina na forma passageira do ser humano.

Em 1490, Michelangelo tem 15 anos.

É o ano em que, o monge Savonarola começa a inflamada pregação mística que o levará ao governo de Florença.

O anúncio de que a ira de Deus em breve desceria sobre a cidade atemoriza o jovem artista: sonhos e terrores apocalípticos povoam suas noites.

Lourenço, o Magnífico, morre em 1492.

Michelangelo deixa o palácio.

A revolução estoura em 1494.

Michelangelo, um mês antes, fugira para Veneza.

Longe do caos em que se convertera a aristocrática cidade dos Médici, Michelangelo se acalma.

Passa o inverno em Bolonha, esquece Savonarola e suas profecias, redescobre a beleza do mundo.

Lê Petrarca, Boccaccio e Dante.

Na primavera do ano seguinte, passa novamente por Florença.

Esculpe o Cupido Adormecido – obra “pagã” num ambiente tomado de fervor religioso, vai a Roma, onde esculpe Baco e Adônis Morrendo.

Baco – Mármore – 1495 – Museu Nacional Bargello

Sua primeira obra importante foi o Baco, fortemente inspirada em modelos helenistas.

A solução formal é criativa, uma figura desequilibrada e sensual que anula a solenidade clássica e a transforma numa figura quase burlesca, em uma contínua interpenetração de curvas e superfícies polidas que captam habilmente a luz.

O contraste é provido pela pequena figura do fauno atrás dele, que serve como suporte estrutural e ao mesmo tempo é tratado com outras texturas e construído a partir de blocos básicos bem distintos.

A Pietá
Enquanto isso, em Florença, Savonarola faz queimar livros e quadros “as vaidades e os anátemas”.
Logo, porém, a situação se inverte.
Os partidários do monge começam a ser perseguidos.
Entre eles, está um irmão de Michelangelo, Leonardo, que também se fizera monge durante os sermões de Savonarola.
Michelangelo não volta. Em 1498, Savonarola é queimado.
Michelangelo se cala. Nenhuma de suas cartas faz menção a esses fatos.
Com apenas vinte e três anos, esculpe A Pietá, onde uma melancolia indescritível envolve as figuras belas e clássicas.

A Pietà, que tem sido louvada desde a origem pelo seu finíssimo acabamento de superfície e pela sua brilhante composição em pirâmide, uma forma de grande estabilidade e perfeita para veicular o pathosmelancólico, resignado e meditativo da cena. O Cristo aparece no regaço de sua mãe, com uma face tranquila sem sinal de sofrimento, como se dormisse; suas chagas mal são perceptíveis, o que enfatiza a beleza do seu corpo.

A Virgem é uma jovem, e mais parece uma irmã de Cristo e não sua mãe, o que foi criticado pelos seus contemporâneos. Sua resposta foi de que suacastidade tão perfeita teria preservado sua beleza e juventude. A composição é interessante também porque a figura da Virgem, se estivesse de pé, seria bem maior do que a de seu filho, um recurso técnico-ilusionístico que não é notado sem uma medição, mas provê com o seu corpo e o largo manto cheio de dobras um amplo receptáculo para o descanso do mártir, e empresta ao conjunto uma impressão de tranquilidade. O sucesso da obra foi enorme, e foi a única que Michelangelo assinou.

Estudo para a Pietá – Desenho – 1498

A Pieta (em português Piedade) de Michelangelo é talvez a Pietá mais conhecida e uma das mais famosas esculturas feitas pelo artista. Representa Jesus morto nos braços da Virgem Maria. A fita que atravessa o peito da Virgem Maria traz a assinatura do autor, única que se conhece: MICHAEL ANGELUS. BONAROTUS. FLORENT. FACIEBA(T), ou seja, «Miguel Angelo Buonarotus de Florença fez.»

Fica na basílica de São Pedro, na primeira capela da alameda do lado direito. Desde que a estátua foi atacada em 1972, está protegida por um vidro a prova de bala. Tem 174 centímetros por 195 centímetros e é feita em mármore.

Em 21 de setembro de 1498 o cardeal francês Jean Bilhères de Lagraulas encomendou a Miguel Ângelo uma imagem da Virgem para a Capela dos Reis de França, para a antiga basílica de São Pedro.

Juntando capacidades criadoras geniais a uma técnica perfeita, o artista toscano criou então a sua mais acabada e famosa escultura: a Pietá. O tema vem da Europa do Norte, a dor de Maria sobre o corpo morto do filho, mas Michelangelo abandonou o realismo cruel típico do gênero em favor de uma visão idealizada.

Iniciara-se como artista ainda durante o Quatrocento, em Florença, onde trabalhou para os Médicis, mas a Pietá foi a sua primeira grande obra escultórica. Trata-se de um trabalho de admirável perfeição, organizado segundo um esquema em forma de pirâmide, um formato muito utilizado pelos pintores e escultores renascentistas.

“Depois de fazer muitos desenhos detalhados, Michelangelo estava pronto para passar para uma figura tridimensional em argila. Aqui, sua expressão era livre, pois o material podia ser alterado para modelar a forma. Em seguida, ele recorria à cera, pois havia uma semelhança de textura e translucidez entre a cera e o mármore. Mas esses modelos nunca adquiriam contornos fixos em sua mente, permanecendo sempre como meros pontos de partida. A verdadeira pulsão criadora tinha que ocorrer no próprio mármore.”
A história da Pietà de Michelangelo, Irving Stone, 1964 Fonte: SCHUMAN, K. e PAXTON, R. O Método Michelangelo. Best Seller: RJ, 2007.

Nesta obra delicada o artista encontrou a solução ideal para um problema que preocupara os escultores do Primeiro Renascimento: a colocação do Corpo de Jesus Cristo morto no regaço de Maria. Para isso alterou deliberadamente as proporções: o Cristo é menor que a Virgem, que é para dar a impressão de não esmagar a Mãe e mostrar que é seu Filho, para não “sair” do esquema triangular. A Virgem Maria foi representada muito jovem e com uma nobre resignação: a expressão dolorosa do rosto é idealizada, contrastando com a angústia que tradicionalmente os artistas lhe imprimiam. Torna-se assim evidente a influência do “pathos” dos clássicos gregos. E o autor imaginou a juventude de Maria, objeções que erguem contra ele seus críticos, como sua expressão de sua pureza incorruptível.

O requinte e esmero da modelação e o tratamento da superfície do mármore, polido como um marfim, deram-lhe a reputação de uma das mais belas esculturas de todos os tempos. Importante como o autor conseguiu harmonizar a figura horizontal do Cristo, estendido sobre os joelhos da mãe, como que inserido entre suas amplas vestes, com a figura « vertical» de Maria.

“Quando um amigo perguntou a Michelangelo sobre o que ele achava de alguém que havia imitado em mármore algumas das mais famosas imagens antigas, vangloriando-se de ter em muito superado os originais, ele respondeu-lhe: – Aquele que vai atrás dos outros nunca poderá passar à sua frente, e aquele que não é capaz de trabalhar bem por si só não pode fazer bom uso do trabalho dos outros.”
Giorgio Vasari in Vida de Michelangelo

Michelangelo tinha 23 anos. Em função da pouca idade, muitos não acreditaram que fosse o autor. Assim, por isso teria inscrito o nome na faixa que atravessa o peito de Maria.

A Pietá – Mármore – 1498 – 174 cm × 195 cm 
Basílica de São Pedro – Vaticano – Itália
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A Pietá – Detalhe – Cabeça de Cristo

A Pietá – Detalhe – Cabeça de Maria

A Pietá – Maria – Faixa com o nome de Michelangelo – Detalhe
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Pietá – Mão de Cristo – Detalhe

O Davi

Em 1501, Michelangelo está finalmente em Florença. Nesse mesmo ano, surgirá de suas mãos a primeira obra madura.
Um gigantesco bloco de mármore jazia abandonado havia 40 anos no local pertencente a catedral da cidade.
Tinha sido entregue ao escultor Duccio, que nele deveria talhar a figura de um profeta.
Duccio, porém, faleceu repentinamente e o mármore ficou a espera de outro autor.

Michelangelo decidiu trabalhá-lo.

Mandou erguer uma cerca em torno e o escavou sozinho, sem permitir visitas. Quando foi inaugurado causou uma sensação entre os florentinos. Inteiramente nu, é uma imagem de triunfo, na tradição dos nus heróicos do classicismo, mas por pudor foi-lhe aplicada uma guirlanda de bronze sobre o sexo. Apesar do seu tamanho descomunal, o David é ainda um adolescente, e foi representado nos momentos preparatórios do combate com Golias. Sua expressão é tensa, sua mão direita se crispa sobre a coxa, mas não há ação, tudo se resume na concentração da energia antecipando o momento mortal. É tanto um símbolo do civismo republicano de Florença, como foi reconhecido de imediato, como da condição gloriosa do homem no pensamento renascentista.

“O bloco de mármore tinha 5,5 metros de altura e nele, infelizmente, um certo mestre Simone da Fiesole começara a esculpir um gigante, e trabalhara tão mal que cavara um buraco entre as pernas e a coisa toda ficou desfigurada, inutilizada. Michelangelo decidiu pedi-lo a Soderini e aos diretores, que lhe entregaram o bloco imprestável. Michelangelo fez então um modelo de cera, conferindo-lhe, para ser instalado no palácio, as formas de um jovem Davi com um estilingue na mão, tendo em mente que, assim como ele defendera seu povo e o governava com justiça, aqueles que agora governavam a cidade pudessem defendê-la com bravura e também governá-la com justiça.”
Giorgio Vasari in Vida de Michelangelo, 1568.

O resultado foi o colossal Davi, símbolo de sua luta contra o Destino, como Davi ante Golias.

Uma comissão de artistas, entre os quais estavam nada menos que Leonardo da Vinci, Botticelli, Filippino Lippi e Perugino, interroga Michelangelo sobre o lugar onde deveria ficar a estátua que deslumbra a todos que a contemplam.
A resposta do mestre é segura: na praça central de Florença, defronte ao Palácio da Senhoria. E para esse local a obra foi transportada.
Entretanto, o povo da cidade, chocado com a nudez da figura, lapidou a estátua, em nome da moral.

O Davi – 1501/1504 – Mármore – 5,17m de altura
Galleria dell’Accademia, Florença
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A obra permaneceu em frente ao Palazzo Vecchio, na Piazza della Signoria, até 1873, quando foi transferida para a Galleria dell’Accademia, em Florença, onde pode ser admirada atualmente.

Michelangelo é considerado nesta obra uma espécie de inovador, pois retrata a personagem não após a batalha contra Golias (como Donatello e Verrochio antes dele fizeram), mas no momento imediatamente anterior a ela, quando David está apenas se preparando para enfrentar uma força que todos julgavam ser impossível de derrotar. Michelangelo neste trabalho usou o realismo do corpo nu e o predomínio das linhas curvas.

A escultura de 5,16 metros e 5,5 toneladas foi esculpida num único bloco de mármore.

Davi – Detalhe da Cabeça

Davi – Costas

Davi – Busto

Davi – Mão – Detalhe

Davi – Mão esquerda e cabeça – detalhe

Davi – Torso ↑

David – Vídeo – Estudo Analítico – Em alemão e inglês 

David – Estudo Analítico em 3D – Universidade de Stanford -EUA 

A Sagrada Familia

Da mesma época data a primeira pintura, que se conhece, de Michelangelo.

Trata-se de um tondo – pintura circular – cujas formas e cores fariam com que, posteriormente, os críticos o definissem como obra precursora da escola “maneirista”.

Pode-se ver que, mesmo com o pincel, Michelangelo não deixa de ser escultor.

Ou, como ele próprio dizia: “Uma pintura é tanto melhor quanto mais se aproxime do relevo”.
Seu tratamento de espaços e volumes é claramente escultórico, com linhas exatas a delimitar as formas, e sua iconografia foi interpretada por Charles de Tolnay como um sumário da evolução da fé.

O grupo é organizado a partir da forma da pirâmide combinada à espiral, a figura serpentinata que se tornou tão cara aos maneiristas.

A Sagrada Família – Pintura
Tondo Doni, c. 1504. Galleria degli Uffizi

O Túmulo do Papa Júlio II

Em março de 1505, Michelangelo é chamado a Roma pelo Papa Júlio II.

Começa então o período heróico de sua vida.

A idéia de Júlio II era a de mandar construir para si uma tumba monumental que recordasse a magnificência da Roma Antiga com seus mausoléus suntuosos e solenes.

A tumba de Júlio II deveria ter sido sua maior obra de escultura, uma grande estrutura livre dentro da Basílica de São Pedro no estilo de um mausoléu, com 10 x 15m de área e adornado com 40 estátuas em tamanho natural representando profetas e personificações das artes liberais, com uma grande estátua de Júlio de 3m de altura coroando o conjunto.

Michelangelo deveria receber pela obra um salário anual de 1 200 ducados – dez vezes mais do que outro artista receberia – e mais um pagamento final de 10 mil ducados, uma quantia bastante expressiva. O mármore foi trazido de Carrara e ocupou noventa carros. Para que o mausoléu pudesse ser instalado na Basílica, esta teve de ser reformada, destruindo-se a veneranda construção anterior erguida por Constantino I entre 326 e 333 d.C., ampliando-se sua planta consideravelmente, e desviando a maior parte dos recursos de Júlio para lá.

Desta forma, as obras da tumba se paralisaram, Michelangelo teve de pagar o transporte do mármore por conta própria, reclamou com o papa e foi expulso do Vaticano. Ultrajado, partiu para Florença. O papa mandou cavaleiros em sua perseguição mas só o alcançaram perto de Florença. A despeito das ameaças, recusou-se a voltar e enviou ao papa uma carta protestando contra os maus tratos.

Alguns meses depois ocorreu a reconciliação em Roma, e Júlio solicitou que ele esculpisse uma enorme estátua sua em bronze para a cidade de Bolonha, e para lá foi enviado, morando em alojamento precário, tendo de dividir a cama com mais dois ajudantes, que além disso ele considerava incompetentes. A primeira fundição da estátua falhou, e teve de ser refundida, agora com sucesso. Tinha 4m de altura e pesava 4,5 toneladas, uma das maiores obras em bronze desde a Antiguidade, sendo instalada em 1508. Quando Bolonha readquiriu sua independência a estátua foi destruída.

O Papa Julio II
Rafael Sanzio – Retrato de Júlio II, 1511–1512
National Gallery, Londres
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Michelangelo aceita a incumbência com entusiasmo e durante oito meses fica em Carrara, meditando sobre o esquema da obra e selecionando os mármores que nela seriam empregados.

Enormes blocos de pedra começam a chegar a Roma e se acumulam na Praça de São Pedro, no Vaticano.

O assombro do povo mistura-se a vaidade do papa e a inveja de outros artistas.

O Túmulo do Papa Júlio II
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No primeiro nível, ao centro, vê-se a estátua de Moisés de Michelangelo. Sobre os pedestais, ladeando as esculturas da parte inferior, vêem-se quatro ornamentos que terão grande importância para que Michael desvende “o maior segredo de todos os tempos”

O Túmulo do Papa Júlio II – Lea

O Túmulo do Papa Júlio II – Rachel

Vivendo em retiro, dedica-se a recobrar as forças minadas pelo prolongado trabalho; a vista fora especialmente afetada.

Mas o repouso é breve: sempre inquieto, Michelangelo volta a entregar-se ao projeto que jamais deixara de amar: o túmulo monumental de Júlio II.

Morto o papa em fevereiro de 1513, no mês seguinte o artista assina um contrato comprometendo-se a executar a obra em sete anos.

Dela fariam parte 32 grandes estátuas.

Uma logo fica pronta.

O Moisés
Considerada a sua mais perfeita obra de escultura, e a mais instigante.

Moisés é uma das principais obras do artista renascentista Michelangelo. Conta-se que após terminar de esculpir a estátua de Moisés, Michelangelo passou por um momento de alucinação diante da beleza da escultura.

Diz a lenda que por parecer tão real esta escultura, Michelangelo ao terminar de esculpi-la bateu com um martelo na estátua e começou a gritar: Porque não falas? (Perché non parli ?)

Moisés – 1515 – Mármore – 2,35m
A escultura está na igreja de San Pietro in Vincoli, Roma.
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A postura do legislador hebreu retratada por Michelangelo instiga tanto que levanta suposições em estudiosos de artes e até mesmo no pai da psicanálise Sigmund Freud despertou inquietante atenção.

Túmulo do Papa Julio II – Detalhe – Moisés, Rachel e Lea
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Freud dizia que sempre que ia para Roma visitava a escultura do profeta. Houve um tempo em que ele ia ver a imagem todos os dias a fim de analisá-la.
Para Michelangelo o processo escultórico era uma sucessiva remoção do supérfluo para expor a ideia – o concetto – projetada na matéria. Em um de seus poemas comparou o processo com o ato de Deus tirando o homem do barro. Às vezes fazia modelos em argila ou cera como estudos preliminares. Suas influências imediatas foram a escultura romana, Giovanni Pisano, Niccolò dell’Arca, Jacopo della Quercia, Donatello e também Leonardo da Vinci, mas desde o início eximiu-se de uma fidelidade estrita a esses modelos, buscando uma abordagem individual, o que é visível já na Centauromaquia que criou para Lorenzo de’ Medici, uma das composições mais avançadas tecnicamente de sua época. Ali o mito é apenas um pretexto, conforme analisou Argan, para uma pesquisa em torno do movimento puro.

O Moisés – Detalhe da Cabeça

Ao observar atentamente a estátua, pode-se verificar que Moisés possui um par de chifres acima os seus olhos, nascendo por baixo dos seus cabelos. Uma explicação para o sucedido poderá ser a tradução errada de karan em vez de keren que significa raios (de luz) em vez de cornos, feita por São Jerônimo para o latim.

Segundo Ernest Fischer, no seu livro “A necessidade da arte” (capítulo II), esta obra não só personificava o ideal do homem doRenascimento (“a corporificação em pedra de uma nova personalidade consciente de si mesma”), como também se apresentava como um repto para que a sociedade de então encarnasse esse ideal – no fundo, o mesmo desejo de Moisés, ao trazer as tábuas da lei que deveriam reformar a sociedade do seu tempo.

O Moisés – Detalhe da Cabeça – Perfil

O Moisés – Detalhe Mão Direita e Barba 

Após o Moisés segue-se outra, O Escravo, que se acha no Museu do Louvre, doada ao soberano Francisco I pelo florentino Roberto Strozzi, exilado na França, que por sua vez a recebera diretamente do mestre em 1546.

Escravo Moribundo – Mármore – 1513 – Museu do Louvre – Paris 
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Bramante de Urbino, arquiteto de Júlio II, que fora freqüentes vezes criticado com palavras sarcásticas por Michelangelo, consegue persuadir o papa a desistir do projeto e o substitua por outro: a reconstrução da Praça de São Pedro.

Em janeiro de 1506, Sua Santidade aceita os conselhos de Bramante.

Sem sequer consultar Michelangelo, decide suspender tudo: o artista está humilhado e cheio de dividas.

Michelangelo Parte de Roma

No dia seguinte, Bramante, vitorioso, começa a edificação da praça.

No entanto, Júlio II quer o mestre de volta. Este recusa, mas finalmente, encontra-se com o papa em Bolonha.

Uma nova incumbência aguarda Michelangelo: executar uma colossal estátua de bronze para ser erguida em Bolonha.

São inúteis os protestos do artista de que nada entende da fundição desse metal. Que aprenda, responde-lhe o caprichoso papa.

Durante 15 meses, Michelangelo vive mil acidentes na criação da obra.

Escreve ao irmão:

“Mal tenho tempo de comer. Dia e noite, só penso no trabalho. Já passei por tais sofrimentos e ainda passo por outros que, acredito, se tivesse de fazer a estátua mais uma vez, minha vida não seria suficiente: é trabalho para um gigante”.

O resultado não compensou.

A estátua de Júlio II, erguida em fevereiro de 1508 diante da lgreja de São Petrônio, teria apenas quatro anos de vida.

Em dezembro de 1511, foi destruída por uma facção política inimiga do papa e seus escombros vendidos a um certo Alfonso d’Este, que deles fez um canhão.

De regresso a Roma, Michelangelo deve responder a novo capricho de Júlio II para decorar a Capela Sistina.

O fato de o mestre ser antes de tudo um escultor não familiarizado com as técnicas do afresco não entrava nas cogitações do papa.

Todas as tentativas de fugir a encomenda são inúteis.

O Santo Padre insiste – segundo alguns críticos, manejado habilmente por Bramante que, dessa forma, desejaria arruinar para sempre a carreira de Michelangelo – e o artista cede mais uma vez.

A incumbência – insólita e extravagante – é aceita.

A Capela Sistina

A Capela Sistina deve seu nome ao Papa Sisto IV Della Rovere e foi inaugurada em 15 de agosto de 1483.
O interior da capela consiste numa longa e única nave, cujas dimensões, 13,41m x 40,23m, correspondem as dimensões do Templo de Jerusalém.

A divisão entre o presbitério e o corpo da capela, além das pinturas originais, são aspectos que atestam o desejo do Papa de criar uma versão renascentista das grandes basílicas romanas, sem entretanto deixar de lado a ligação da Igreja Católica com as tradições paleocristãs e medievais.

Capela Sistina – Visão Interna

Capela Sistina – Vista Externa
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Em 10 de maio de 1508, Michelangelo começa o gigantesco trabalho de decoração da Capela, que lhe fora imposto pelo Papa Julio II, sobrinho de Sisto IV. A primeira atitude do artista é recusar o andaime construído especialmente para a obra por Bramante.
Determina que se faça outro, segundo suas próprias idéias.
Em segundo lugar, manda embora os pintores que lhe haviam sido dados como ajudantes e instrutores na técnica do afresco.
Terceiro, resolve pintar não só a cúpula da capela, mas também suas paredes.

Capela Sistina – Teto – Detalhe 01
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Capela Sistina – Teto – Detalhe 02

O teto da Capela Sistina é um espaço de grande significado simbólico no Vaticano por ser onde se realizam as eleições papais. A Capela já era decorada com uma série de afrescos importantes nas paredes, e a tarefa de Michelangelo foi a de decorar o teto, pintado apenas de um azul pontilhado de estrelas.

Ainda sob o papado de Sisto IV, começaram as decorações das paredes. Pedro Perugino, Cosimo Roselli, Sandro Botticelli, Domenico Ghirlandaio, professor de Michelangelo, e Luca Signorelli pintaram quadros da vida de Moisés e de Jesus Cristo, além de uma série de Papas entre as janelas, seis no alto de cada parede lateral.

Afrescos

Afrescos inspirados em cenas do Velho e do Novo Testamento decoram as paredes laterais, assim como o teto.

A Entrega das Chaves a São Pedro – Perugino

Precisamente, na parede esquerda, a partir do altar, estão as cenas do Velho Testamento a representar:

1 – Moisés a caminho do Egito e a circuncisão de seus filhos, obra de Pinturicchio;

2 – Cenas da Vida de Moisés, de Botticelli;

3 – Passagem do Mar Vermelho, de Cosimo Rosselli;

4 – Moisés no Monte Sinai e a Adoração do Bezerro de Ouro, de Rosselli;

5 – A Punição de Korah, Natan e Abiram, de Botticelli;

6 – A Morte de Moisés, de Lucas Signorelli.

Na parte direita, também a partir do altar, as cenas do Novo Testamento:

1 – O Batismo de Jesus, de Pinturicchio;

2 – Tentação de Cristo e a Purificação do Leproso, de Botticelli;

3 – Vocação dos Apóstolos, de Ghirlandaio;

4 – Sermão da Montanha, de Rosselli,

5 – A Entrega das Chaves a São Pedro, de Perugino;

6 – A Última Ceia, de Rosselli.

Entre as janelas, seis de cada lado, figuram 24 retratos de papas, pintados por Botticelli, Ghirlandaio e Fra Diamante.

Rafael realizou uma série de tapeçarias que, em ocasiões especiais, vestem as paredes.

Capela Sistina – Parede Lateral – Detalhe ↑
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Michelangelo pintou a parte superior da parede onde ficam os janelões 

A ideia inicial de Júlio II era de apenas doze grandes figuras dos Apóstolos, mas Michelangelo concebeu um conjunto de sete Apóstolos e mais as cinco sibilas da mitologia grecorromana, uma escolha bastante incomum mas não inteiramente inédita para um teto de capela.

Acrescentou ainda quarenta ancestrais de Cristo, uma longa série de cenas do Genesis, vários nus e outras figuras acessórias, compondo um grupo de trezentas figuras dividido em três grupos: a Criação da Terra por Deus, a Criação da Humanidade e sua queda e, por fim, a Humanidade representada por Noé.

Capela Sistina – Teto – Criação do Homem – Detalhe

As figuras exibem uma força e majestade sem precedentes na pintura ocidental. Todo o tom da obra é monumental, é grandiloquente sem ser puramente retórico, mas possuindo alta poesia, inaugurando uma forma inteiramente nova de representar o trágico, o heróico e o sublime, e também o movimento e o corpo humano.

Capela Sistina – Teto – Deus – Detalhe
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Sua interpretação temática tem sido objeto de intenso debate desde o momento de sua apresentação pública, e muitos a tem comparado com um grande panorama da evolução humana dentro de um escopo cósmico, num entendimento do Antigo Testamento como uma preparação para a vinda de Cristo, ou como uma interpretação neoplatônica dos eventos bíblicos sob uma óptica de relacionamento Deus-Homem particularmente dramática.

Michelangelo anos mais tarde disse que a concepção da iconografia se devia a ele, mas para quem não tinha uma grande erudição nem sabia latim, a complexidade simbólica das cenas parece estar além de sua capacidade de conceituação. Hartt disse que tem sido sugerido que ele teve um conselheiro teológico na elaboração do programa temático do teto na pessoa de Marco Vigerio della Rovere, um franciscano parente do papa. As cenas são compostas sem relação espacial umas com as outras ou com as figuras laterais, e o painel não pode ser observado a partir de um único ponto de vista.

É a fase do Michelangelo herói.

Tal como Prometeu, rouba ao Olimpo o fogo de sua genial inspiração, embora os abutres das vicissitudes humanas não deixem de acossá-lo.

O trabalho avança muito lentamente. Por mais de um ano, o papa não lhe paga um centavo sequer.

Sua família o atormenta com constantes pedidos de dinheiro. A substância frágil das paredes faz logo derreter as primeiras figuras que esboçara. Impaciente com a demora da obra, o papa constantemente vem perturbar-lhe a concentração para saber se o projeto frutificava.

O diálogo é sempre o mesmo:
- Quando estará pronta a minha capela?
- Quando eu puder!

Irritado, Júlio II faz toda a sorte de ameaças. Chega a agredir o artista a golpes de bengala, que tenta fugir de Roma. O papa pede desculpas e faz com que lhe seja entregue – por fim – a soma de 500 ducados.

O artista retoma a tarefa.

No dia de finados de 1512, Michelangelo retira os andaimes que encobriam a perspectiva total da obra e admite que o papa entre na capela.

A decoração estava pronta.

A data dedicada aos mortos convinha bem a inauguração dessa pintura terrível, plena do Espírito do Deus que cria e que mata.

Capela Sistina – O Juízo Universal

De 1536 a 1541, Michelangelo pinta os afrescos do Juízo Universal na Capela Sistina.

Nada melhor que suas próprias idéias sobre pintura para definir essa obra e o homem que a criou:

“A boa pintura aproxima-se de Deus e une-se a Ele… Não é mais do que uma cópia das suas perfeições, uma sombra do seu pincel, sua música, sua melodia… Por isso não basta que o pintor seja um grande e hábil mestre de seu oficio. Penso ser mais importante a pureza e a santidade de sua vida, tanto quanto possível, a fim de que o Espírito Santo guie seus pensamentos…”

O Juízo Final, pintado na grande parede atrás do altar da Capela Sistina, pode ser citado como uma das obras primas da pintura universal.

O Juízo Final, obra de Michelangelo, foi planejado para ocupar a grande parede atrás do altar, na verdade um lugar de grande destaque, como que num permanente aviso, mostrando a fragilidade da vida e do universo.

O foco principal da imensa composição é a figura de Cristo, que aparece no alto, no centro da parede, com um amplo espaço aberto abaixo.

Capela Sistina – Juízo Universal – Afresco* – 1508
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* Técnica de pintura mural, executada sobre uma base de gesso ou nata de cal ainda úmida – por isso o nome derivado da expressão italiana fresco, de mesmo significado no português – na qual o artista deve aplicar pigmentos puros diluídos somente em água. Dessa forma, as cores penetram no revestimento e, ao secarem, passam a integrar a superfície em que foram aplicadas. O suporte pode ser parede, muro ou teto e a durabilidade do trabalho é maior em regiões secas, pois a umidade pode provocar rachaduras na parede e danificar a pintura. O termo também é usado para designar a pintura feita dessa maneira, normalmente em igrejas e edifícios públicos, e ocupando grandes extensões.

Capela Sistina – Juízo Universal – Detalhe – Cristo – Afresco – 1508
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Sob o poder biblicamente intimidante de seu gesto, parece levantar-se um turbilhão que envolve por inteiro a cena celestial – santos e virgens, profetas, mártires, apóstolos.

Podem ser identificados: São João Batista, na pele de camelo; São Pedro, com as chaves; Santo André, com uma cruz; São Lourenço, com a grelha; São Bartolomeu, segurando sua própria pele flácida na qual o artista pintou seu angustiante auto-retrato; São Simão, com a serra; São Basílio, com o pente para tratar a lã; Santa Catarina, com a roda; São Sebastião, com as flechas.

O grande turbilhão poupa apenas a Virgem Maria, pintada em sua tristeza, e se estende para o alto e termina por circundar as cenas nas meias-luas – a “Exaltação da Cruz” e “Os instrumentos da Paixão”.

Mais uma vez o gesto de Cristo representa a força gravitacional de um segundo turbilhão que se move violentamente para cima e para baixo criando um mar celestial no qual anjos e almas danadas, demônios e ressuscitados, parecem flutuar e se agitar.

Colhidos no movimento estão também os eleitos – que sobem aos céus, do lado esquerdo – e as almas danadas – caindo do lado direito enquanto lutam em vão contra os anjos vingadores.

Capela Sistina – Juízo Final – A Salvação – Detalhe – Afresco – 1508

O “Juízo Universal”, por causa dos nus, quase foi destruído pela Inquisição. Os hipócritas da época decidiram chamar um pintor secundário, Daniel de Volterra, que teve a coragem de profanar uma obra prima. Volterra colocou roupas nos nus da pintura de Michelangelo e merecidamente, foi ridicularizado. Esta triste figura, junto com seus auxiliares, ficou conhecido na história como “Os Tapa Traseiros”.

Em baixo, fora do turbilhão, há duas cenas separadas.

No lado esquerdo a ressurreição dos mortos, que dolorosa e tortuosamente voltam à vida.

Capela Sistina – Juízo Universal – Ressurreição dos Mortos – Detalhe – Afresco – 1508
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No lado direito, Caronte e seu barco infernal resumem, no violento gesto do barqueiro e no anônimo amontoado de cadáveres, todo o desespero do inferno.

Capela Sistina – Juízo Universal – A Barca de Caronte * – Detalhe – Afresco – 1508
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*A Barca de Caronte

Os gregos e romanos da antiguidade acreditavam que essa era uma barca pequena na qual as almas faziam a travessia do Aqueronte, um rio de águas turbilhonantes que delimitava a região infernal. O nome desse rio veio de um dos filhos do Sol e da Terra, que por ter fornecido água aos titãs, inimigos de Zeus (Júpiter), foi por ele transformado em rio infernal. As suas águas negras e salobras corriam sob a terra em grande parte do seu percurso, donde o nome de rio do inferno, que também lhe davam.

Caronte era um barqueiro velho e esquálido, mas forte e vigoroso, que tinha como função atravessar as almas dos mortos para o outro lado do rio. Porém, só transportava as dos que tinham tido seus corpos devidamente sepultados e cobrava pela travessia, daí o costume de se colocar uma moeda na boca dos defuntos. Segundo o mitólogo Thomas Bulfinch, ele “recebia em seu barco pessoas de todas as espécies, heróis magnânimos, jovens e virgens, tão numerosos quanto as folhas do outono ou os bandos de ave que voam para o sul quando se aproxima o inverno. Todos se aglomeravam querendo passar, ansiosos por chegarem à margem oposta, mas o severo barqueiro somente levava aqueles que escolhia, empurrando o restante para trás”.

Segundo a lenda, o barqueiro concordava apenas com o embarque das almas para as quais os vivos haviam celebrado as devidas cerimônias fúnebres, enquanto as demais, cujos corpos não haviam sido convenientemente sepultados, não podiam atravessar o rio, pois estavam condenadas a vagar pela margem do Aqueronte durante cem anos, para cima e para baixo, até que depois de decorrido esse tempo elas final-mente pudessem ser levadas.
Por: Fernando Kitzinger Dannemann
Fonte: Recanto das letras.uol.com.br

 

Sobre

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração, Tecnologia da Informação e bacharelando em Direito. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, USA. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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10 comentários sobre “Michelangelo – Escultor – Pintor – Arquiteto
  1. Lúcia Cal disse:

    A Capela Sistina é simplesmente um deslumbre… desnecessário tentar descrevê-la. A imortalidade de Michelangelo, a vida e a morte, Deus e a criação do mundo. Tudo, absolutamente, lindo, misterioso, imortal… Por mais que você olhe e admire, fica sempre um assombro: o talento de Michelangelo e o mistério “através” das pinturas. Assombroso, encantador, misterioso… tudo ainda é pouco para expressar a grandiosidade da obra.

  2. Freitas disse:

    Gosto muito dos trabalhos de Michelangelo, em especial as esculturas e pinturas.

  3. karoline disse:

    Michelangelo passa uma perfeiçao tao grande no seu trabalho,ele foi um pintor fenomenal. Realmente nao tenho palavras para descrever essas obras de arte.

  4. Prezado, eu sou escultor e Professor de arte, eu admiro muito o trabalho de Michelangelo naquela época ter tanta perfeição e anatomia perfeita.

    Ah gostaria de saber que vossa senhoria sabe qual é o nome da escola e o lugar na Italia, adoraria estudar o mámore, eu tenho o domino no Barro e o Bronze.

    Pessoal me fala que fica em Carrara – Italia mais não consegui achar.

  5. Leonardo disse:

    Eu adoro os trabalhos de Miguel Angelus (michelangelo) ele tinha um objetivo muito grande a P E R F E I Ç A O eu adoro todos trabalhos dele e eu sei que ele foi um cara intando para noa observadores

  6. Shelda Thanielly disse:

    Michelangelo é simplesmente PERFEITO!!! amo muito os trabalhos dele, as pinturas, as esculturas.. Ele faz tudo com tanta perfeição que até assusta… Ele deixa transparecer suspense, curiosidade, amor, emoção, e tudo de mais interessante que há, em suas esculturas e pinturas!!! Esse cara tem o meu respeito pelo resto da vida!!! admiro-o!!! ^^´

  7. milena disse:

    gostei muito do seu trabalho muito bom mesmo mi ajudo muito com o seu trabalho tao lindonao tlho nem mais palavra para falar sobre seu trabalho seu

  8. joao disse:

    ele muito inteligente,quem viu esta mensagen virise e pule de alegria por que entroukkkkkkkkkkkkkkkk

  9. Kilvia Passos disse:

    Estou estudando sua vida entre Roma e Florença hà dois anos, e percebi que nao sò um artista,poeta ou escultor,mas tambem uma grande alma, a interferencia divina em um artista, um ser perseverante e diante de tantas humilhaçoes, nunca soube-se que ele falou mal de alguem a nao ser expresar seus sentimentos e desabafos em diversos còdigos deixados em sua arte. Saudaçoes

  10. rai disse:

    meu DEUS perfeiçao era o sobre nome deste homem
    lindas obras

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