Lorde Acton – Historiador

John Emerich Edward Dalberg-Acton
* Nápoles, Itália – 1834 d.C
+ Tegernsee, Alemanha – 1902 d.C

Forças Constantes e Imutáveis Através da História

“O uso da história não traz surpresas. Ele (o historiador) já viu tudo. Sabe que forças constantes e imutáveis irão resistir à verdade e ao propósito superior. Qual a fraqueza, divisão, excesso que irá prejudicar a causa superior. A esplêndida plausibilidade do erro, o inebriante poder de atração do pecado. E por força de que adaptação a motivações inferiores as boas causas são bem sucedidas […] A história não é uma teia tecida por mãos inocentes. Entre todas as causas que degradam e desmoralizam os homens, o poder é o mais constante e ativo.”
Lord Acton, in ‘Lectures on Modern History’

John Emerich Edward Dalberg-Acton, primeiro Barão Acton, foi um historiador britânico famoso pela frase “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Ele é conhecido como Lord Acton por ter sido o primeiro Barão de Acton.
Eminente historiador liberal inglês do século 19, elegeu como os principais inimigos da individualidade e das minorias, o Estado e as multidões. Sua obra concentrou-se basicamente num conjunto de ensaios onde defendeu o principio de que a História deveria ser entendida na perspectiva da liberdade, dela progredir ou regredir. Celebrizou-se igualmente por sua frases, quase todas elas repudiando a concentração do poder, adversário da liberdade, tornando-o um precursor do pensamento neoliberal dos dias de hoje.

Foi Diretor da revista católica “The Rambler” desde 1859, opôs-se ao Syllabus em 1864 e à promulgação do dogma da infalibilidade papal em 1870, embora tenha acabado por aceitá-lo ao ser promulgado por Pio IX. Como professor regius da Universidade de Cambridge (1895), preparou a famosa “História Moderna de Cambridge”.

Pensamento
No pensamento de Lord Acton, o processo histórico desenvolve-se orientado pela liberdade humana, no sentido de uma liberdade cada vez maior. A defesa desta última é um imperativo moral: se o poder político se arroga o direito de comandar os atos dos homens, ele os priva de sua responsabilidade.

Acton considera que a noção de liberdade é mais uma contribuição cristã do que greco-romana, pois o cristianismo teria revelado esse conceito em sua plenitude ao mostrar sua indissociabilidade da idéia de responsabilidade. Intimamente associada à responsabilidade, a liberdade é uma condição necessária para atingir fins espirituais elevados. Lord Acton afirma, dessa forma, que “a liberdade não é um meio para atingir um fim político mais elevado. Ela é o fim político mais elevado. Não é para realizar uma boa administração pública que a liberdade é necessária, mas sim para assegurar a busca dos fins mais elevados da sociedade civil e da vida privada”.

No que concerne à teoria política pura, Lord Acton concebeu uma distinção importante entre duas questões essenciais: “Quem detém o poder político?” e “quais são os poderes do estado?” A primeira refere-se à oposição entre democracia e regime autoritário, ao passo que a segunda objetiva distinguir entre o liberalismo e o que se chamará mais tarde totalitarismo.

Poucos reconheceram os perigos do poder político com tanta clareza como Lord Acton. Ele entendia que os governantes colocam seus interesses acima de tudo e farão praticamente tudo para se manter no poder. Mentem rotineiramente. Difamam seus adversários. Se apropriam do patrimônio privado. Destroem propriedades. Às vezes assassinam pessoas, e até marcam multidões para ser assassinadas. Em seus ensaios e palestras, Acton desafiava a tendência coletivista de sua época ao declarar que o poder político era uma fonte de maldade, não de redenção. Ele considerava o socialismo “o pior inimigo que a liberdade já teve de enfrentar”.

Acton falava com autoridade e eloqüência quando afirmava que a liberdade individual é o padrão moral pelo qual os governos devem ser julgados.

Ele acreditava “que a liberdade é o ápice… Ela é quase, se não completamente, a marca, o prêmio e a motivação da caminhada para frente e para cima da raça… Um povo avesso à instituição da propriedade privada está desprovido do primeiro elemento da liberdade… A Liberdade não é um meio para um objetivo político maior. Ela é em si mesma o maior dos objetivos políticos.”

Apesar de Acton ter ficado cada vez mais solitário, ele era admirado por seu conhecimento extraordinário de História. Ele transmitia ao mundo anglófono o rigor de estudar História baseando-se ao máximo em fontes originais, prática introduzida pelos historiadores alemães do século XIX.

(…) Infelizmente, faltava a Acton a concentração necessária para realizar um grande projeto. Em seus volumosos documentos não se encontra nem mesmo um esboço da história da liberdade. Ele nunca a iniciou. Tudo que ele deixou foram umas 500 caixas pretas e cadernos, em geral cheios de extratos desorganizados de seus vários trabalhos. Grande parte de seu trabalho é sobre idéias abstratas, ao invés de acontecimentos históricos. O falecido historiador E. L. Woodward destacou que a história da liberdade de Acton foi provavelmente “o maior livro jamais escrito”.

Vida pessoal
O avô de Lord Acton, quem, em 1791, sucedeu no baronato e nas propriedades da família, em Shropshire, as quais eram previamente comandadas pelo ramo inglês da família Acton, representou um ramo novo que havia primeiro se transferido para a França e depois para a Itália. Todavia, com a extinção do ramo mais antigo, o almirante veio a se tornar o chefe da família. Seu filho mais velho, Richard, casou-se com Marie Louise Cilene, a filha e herdeira de Emirec Josef Wolfgang Heribert (primeiro duque de Dalberg) um nobre francês naturalizado duma antiga linhagem alemã, que serviu ao exército de Napoleão e representou Luis XVIII no Congresso de Viena em 1814. Depois da morte de Richard Acton em 1837, ela se tornou a esposa de George Leveson-Gower (segundo conde de Granville), em 1840.

Da rejeição à consagração
“E, lembre-se, quando se tem uma concentração de poder em poucas mãos, freqüentemente homens com mentalidade de gangsters detêm o controle. A história provou isso. Todo o poder corrompe: o poder absoluto corrompe absolutamente.”
Lord Acton, em carta ao Bispo M.Creighton, 1887.

O jovem John Emerich Edward Dalberg, o futuro historiador Lord Acton, teve sua matrícula rejeitada em Cambridge em 1850 por ser católico (ser da “Velha Fé”, como denominavam o catolicismo na Inglaterra daquela época, era, quase sempre, condenar-se ao ostracismo ou à marginalidade). Situação que o obrigou a uma vida diferente dos demais letrados da aristocracia inglesa, indo estudar na Bavária, terra dos seus antepassados pelo lado materno.

Deve, pois, ter saboreado bem o momento quando, quase quarenta anos depois, agraciaram-lhe com um doutorado e, em seguida, deram-lhe a cadeira de História Moderna naquela mesma universidade que antes o rejeitara.
Ter sido tratado como se fosse um estranho no seu próprio meio, de sentir-se um outsider entre a elite imperial britânica, vocacionou-o para desprezar o nacionalismo, a desconfiar das autoridades estatais e a temer a presença das massas.

Tanto é assim que sua tão comentada definição de liberdade, constante no seu The History of Freedom in Antiquity, como sendo o direito à certeza de estar-se protegido em relação as suas crenças, mesmo que elas desagradem às autoridades, as maiorias, os costumes e as opiniões dos outros, tornou-se até hoje um lema das minorias.

Lord Acton, ao longo da sua vida, converteu-se num militante dos direitos do individualismo, sonhando algum dia poder escrever uma “História da Liberdade” voltada para denunciar a concentração do poder como o seu inimigo mortal. Ocorre que o que ele concebia como “minoria” estava bem longe do que hoje se entende por tal.

A defesa da minoria
Para Lord Acton, minoria era a ínfima parcela da sociedade composta por gente sofisticada e culta, a levedura da nata, extremamente consciente da sua proeminência social e da sua exuberância intelectual e financeira, que tinha ojeriza a qualquer controle estatal sobre suas vidas, costumes ou patrimônio. Se bem que entendesse a democracia, que avançava célere no século 19, como legítima expressão do repúdio à monarquia dinástica e à tirania, temia que a maré montante da massas viesse a afogar os direitos de exclusividade de alguns poucos eleitos.
O momento pior de Lord Acton deu-se quando lamentou a derrota do Sul escravista na Guerra de Secessão de 1861-5. Mesmo concorde de que a manutenção da escravidão era algo que feria sua visão da história – pautada pela slow evolution, a evolução vagarosa – como marcha da liberdade, ele posicionou-se a favor dos estados confederados terem todo o direito de separam-se da União.

Imaginou, erroneamente, que o Sul, por si mesmo, lenta e gradualmente, encontraria um caminho para a emancipação dos seus negros, sem que fosse preciso ser “estimulado” pelos canhões do General Grant e pela cavalaria do General Sherman. No seu raciocínio, quanto mais poder o estado centralizado e unificado acumulasse – o que se dera com a vitória da União em 1865 -, pior seriam as condições para a expansão do individualismo. Deu-se ao revés. Nunca as liberdades nos Estados Unidos prosperaram tanto quando desde aquele momento, ampliando ainda mais os direitos individuais (as Emendas Constitucionais triplicaram: saltaram de 12 para 27).

Uma revolução permanente
A concepção de história dele centrou-se na importância das idéias e o papel revolucionário que elas tinham nos tempos modernos – foi ele quem cunhou a expressão “revolução permanente”. Bem ao contrário da escola alemã, especialmente a hegeliana que via o estado como a única garantia da liberdade, Lord Acton pregava, para que ela fosse conquistada, a luta contra o estado e contra as maiorias. Via o pensamento alemão, em geral, atrelado a uma celebração da Idade Média, como hostil ao otimismo do Iluminismo, com sua fé infalibilidade da consciência, a metafísica da lei natural, e a confiança na mecânica newtoniana.

Lord Acton, porém, apesar de alinhar-se a muitos do propósitos do Iluminismo, continuou sendo um católico. Discordava do costume, tão comum entre os historiadores, de enxergarem o passado pelas idéias do presente, assegurando, tal como Ranke, a quem ele admirava, que “cada período da história deve ser visto sobre sua própria luz natural” (History of Progress in Britain). A ênfase dele nas história das idéias é porque, dentro da tradição idealista, as acreditava responsável pelos acontecimentos, na medida em que, especialmente nos Tempos Modernos, elas encontravam maior e mais rápida difusão.

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração, Tecnologia da Informação e bacharelando em Direito. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, USA. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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