Gilka Machado

Gilka Machado Blog Biografias Vida e Arte 01

Gilka da Costa de Melo Machado *Rio de Janeiro, RJ – 1893 d.C + Rio de Janeiro, RJ – 1980 d.C

Gilka Machado sempre esteve muito à frente de seu tempo. Ousou em uma época na qual as mulheres estavam confinadas à uma vida domésticas e recatada, escrever poesias usando uma linguagem abertamente erótica na literatura feminina. Além de poeta Gilka Machado foi uma ativista engajada na defesa dos direitos das mulheres, em um Brasil rigidamente machista. Liderou destemidamente movimentos pelo direito dos voto às mulheres, quando o adjetivo feminista não era sequer sussurrado nos salões da sociedade carioca. Gilka Machado casou com um artista: o poeta, jornalista e crítico de arte Rodolfo Machado, em 1910, que morreria dali a 13 anos, deixando a esposa com dois filhos, Eros Volúsia e Hélios. Desde criança Gilka Machado fazia versos, e com 13 anos ganhou um concurso pelo jornal A Imprensa, arrebatando os 3 primeiros prêmios, com poemas assinados com seu próprio nome e com pseudônimos. Seu primeiro livro de poesia, “Cristais Partidos”, foi publicado em 1915 quando Gilka tinha somente 15 anos de idade. Em 1916 foi publicada sua conferência “A Revelação dos Perfumes”, no Rio de Janeiro.  Ao longo da década de 1920, publicou  “Estados d’Alma” (1917), “Mulher Nua”(1922), “Meu Glorioso Pecado” (1928), “Amores Que Mentiram, Que Passaram”(1928), e “Carne e Alma”, em 1931.Gilka Machado Blog Biografias Vida e Arte Livro Estados da Alma Em 1932, foi publicada em Cochabamba, Bolívia, a antologia “Sonetos y Poemas de Gilka Machado”, com prefácio Antonio Capdeville. No ano seguinte, a escritora foi eleita “a maior poetisa do Brasil”, por concurso da revista “O Malho”, do Rio de Janeiro. “Sublimação” foi publicada em 1938, “Meu Rosto” em 1947, “Velha Poesia” em 1968 e suas “Poesias Completas” editadas em 1978.Gilka Machado Blog Biografias Vida e Arte  03 Em 1979, foi agraciada com o prêmio Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras. Nesse mesmo ano a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro prestou homenagem à mulher brasileira na pessoa da poeta. Gilka Machado tinha sangue de artista nas veias: a mãe, Thereza Christina Moniz da Costa, era atriz de teatro e de rádio-teatro, e a filha, Eros Volúsia, foi bailarina consagrada e pesquisadora das danças nativas brasileiras. Além disso, sua família incluía poetas e músicos famosos. No início da década de 1930 sua popularidade aumentou ao ter poemas traduzidos para o espanhol, tanto em antologia quanto em volume com poemas só seus. E no ano seguinte sua popularidade foi testada: ganhou, com grande margem de votos, um concurso promovido pela revista O Malho, quando então foi aclamada como a maior poetisa brasileira, selecionada entre 200 intelectuais. Em seguida viajou para a Argentina, onde foi recebida com carinho pelo público leitor. Fez outras viagens ao longo da década de 1940, para os Estados Unidos e para a Europa, além das que fez pelo interior do Brasil. Seus poemas foram também republicados em outros volumes: os dois primeiros livros, em “Poesias”, de 1918; e alguns, escolhidos, em “Carne e Alma”, de 1931, em “Meu Rosto”, de 1947, e em “Velha Poesia”, de 1965, antes que as “Poesias Completas”ganhassem duas edições: em 1978 e em 1991. Poderia ter sido a primeira mulher a fazer parte da Academia Brasileira de Letras quando, após mudança do estatuto que proibia o ingresso de mulheres, lhe teria sido possível candidatar-se, atendendo a convite que lhe foi dirigido por Jorge Amado e apoiado por outros acadêmicos. Mas recusou o convite. Gilka Machado Blog Biografias Vida e Arte Livro Poesias CompletasRecebeu, contudo, da Academia Brasileira de Letras, em 1979, o Prêmio Machado de Assis, pela publicação do volume de suas “Poesias Completas”. Encerrou sua carreira com o poema “Meu Menino”, escrito por ocasião da morte do filho Hélios, ocorrida em 1976. Como se pode perceber a partir dos títulos de seus livros, sua poesia se detém nas experiências de uma intimidade sensível, que manifesta, explicitamente, suas sensações, emoções e desejos eróticos. Aliás, lembre-se que em 1916 fez conferência sobre “A Revelação dos Perfumes”… Para expressar tais sensações, usou nos poemas um vocabulário inusitado: empregou, por exemplo, a palavra”cio”. E mostrou a mulher esvaída em sensualidade, numa poesia que se constrói tanto segundo a rigidez formal de tradição parnasiana quanto dando vazão às ondas de languidez que atravessam o seu verso à moda simbolista. Daí uma reação dupla por parte do público, pois causa tanto a admiração, por parte de uns, em que se incluem as mulheres que encontram aí uma porta-voz na representação de experiências da intimidade, até então proibida, quanto a rejeição severa por parte de uma crítica moralista conservadora. Para os que a defenderam, como Henrique Pongetti, Humberto de Campos, Agrippino Grieco, foi preciso separar a Gilka Machado dos domínios da arte (a poeta) da Gilka Machado dos domínios da vida (mãe virtuosa), com o intuito de inocentá-la de uma sensualidade pecadora. Mas foi justamente por essa força reivindicadora patente na mistura bem dosada de rigor formal e sensualidade ousada, que sua poesia ganhou força e até hoje permanece, enquanto marco na história de resistência à situação de alienação da mulher. Firmou-se, assim, como precursora na luta pelos direitos de acesso à representação do prazer erótico na poesia feminina brasileira. Publicou vários livros de poesia, como “Mulher Nua” e”Sublimação”. Em 1979, recebeu o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras.


Livros

• Cristais Partidos (1915) • A Revelação dos Perfumes (1916) • Estados de Alma (1917) • Poesias, 1915/1917 (1918) • Mulher Nua (1922) • O Grande Amor (1928) • Meu Glorioso Pecado (1928) • Carne e Alma (1931) • Sonetos y Poemas de Gilka Machado (1932 – na Bolívia) • Sublimação (1938) • Meu Rosto (1947) • Velha Poesia (1968) • Poesias Completas (1978) • A maior poetisa do Brasil (1933- Revista O Malho – Rio de Janeiro) • Prêmio Machado de Assis (1979 – Academia Brasileira de Letras)


Poesias

Symbolos Eu e tu, ante a noute e o amplo desdobramento do mar fero, a, estourar de encontro á rocha nua. Um symbolo descubro aqui, neste momento; esta rocha e este mar… a minha vide e a tua… O mar vem… o mar vae…. nelle ha o gesto violento de quem maltrata e, após, se arrepende e recúa… Como eu comprehendo bem da rocha o sentimento! são bem eguaes, por certo, a minha magua, e a sua! Symbolisa este quadro a nossa propria vida: tu és esse mar bravio, inconstante e inclemente, com carinhos de amante e furias de demente; eu sou a dôr parada, a dôr empedernida, eu sou aquella rocha encravada na areia, alheia ao mar que a punge, ao mar que a afaga alheia… In Estados da alma: poesias. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunaes, 1917. (conservando a ortografia original…) Poema Chuva de cinzas A uma lavadeira Ao vento Símbolos O retrato fiel Frustração Esboço Teus lábios inquietos pelo meu corpo acendiam astros… e no corpo da mata os pirilampos de quando em quando, insinuavam fosforecentes carícias… e o corpo do silêncio estremecia, chocalhava, com os guizos do cri-cri osculante dos grilos que imitavam a música de tua boca… e no corpo da noite as estrelas cantavam com a voz trêmula e rútila de teus beijos… (in Sublimação, 1928) Reflexão Há certas almas como as borboletas, cuja fragilidade de asas não resiste ao mais leve contato, que deixam ficar pedaços pelos dedos que as tocam. Em seu vôo de ideal, deslumbram olhos, atraem as vistas: perseguem-nas, alcançam-nas, detem-nas, mas, quase sempre, por saciedade ou piedade, libertam-nas outra vez. Ela, porém, não voam como dantes, ficam vazias de si mesmas, cheias de desalento… Almas e borboletas, não fosse a tentação das cousas rasas; – o amor de néctar, – o néctar do amor, e pairaríamos nos cimos seduzindo do alto, admirando de longe!… (in Sublimação, 1928) O retrato fiel Não creias nos meus retratos, nenhum deles me revela, ai, não me julgues assim! Minha cara verdadeira fugiu às penas do corpo, ficou isenta da vida. Toda minha faceirice e minha vaidade toda estão na sonora face; naquela que não foi vista e que paira, levitando, em meio a um mundo de cegos. Os meus retratos são vários e neles não terás nunca o meu rosto de poesia. Não olhes os meus retratos, nem me suponhas em mim. Chuva de cinzas na estática mudez da Terra triste e viúva; e, da tarde ao cair, sinto, minha alma, agora, embuça-se na cisma e no torpor se enluva. Hora crepuscular, hora de névoas, hora em que de bem ignoto o humano ser enviúva; e, enquanto em cinza todo o espaço se colora, o tédio, em nós, é como uma cinérea chuva. Hora crepuscular – concepção e agonia, hora em que tudo sente uma incerteza imensa, sem saber se desponta ou se fenece o dia; hora em que a alma, a pensar na inconstância da sorte, fica dentro de nós oscilando, suspensa entre o ser e o não ser, entre a existência e a morte. (Velha Poesia, Ed.Baptista de Souza, Rio, 18965, pag.15) Aos heróis do futebol brasileiro Eu vos saúdo heróis do dia que vos fizestes compreender numa linguagem muda, escrevendo com os pés magnéticos e alados uma epopéia internacional! As almas dos brasileiros distantes vencem os espaços, misturam-se com as vossas, caminham nos vossos passos para o arremesso da pelota para o chute decisivo da glória da Pátria. Que obra de arte ou de ciência, de sentimento ou de imaginação teve a penetração dos gols de Leônidas que, transpondo balizas e antipatias, souberam se insinuar no coração do Mundo! Que obra de arte ou de ciência conteve a idéia e a emotividade de vossos improvisos em vôos e saltos, ó bailarinos espontâneos ó poetas repentistas que sorrindo oferecestes vosso sangue à sede de glória de um povo novo? Ha milhões de pensamentos impulsionando vossos movimentos. Na esportiva expressão que qualquer raça entende longe de nossa decantada natureza os Leônidas e os Domingos fixaram na retina do estrangeiro a milagrosa realidade que é o homem do Brasil. Eia atletas franzinos gigantes débeis que com astúcia e audácia, tenacidade e energia transfigurai-vos, traçando aos olhos surpresos da Europa um debuxo maravilhoso do nosso desconhecido país. Publicado no livro Sublimação (1938). In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991 Emotividade da cor A Dolores Marques Caplonch e a Miguel Caplonch Sete cores — sete notas erradias, sete notas da música do olhar, sete notas de etéreas melodias, de sons encantadores que se compõem entre si, formando outras tantas cores, do cinzento que cisma ao jade que sorri. Há momentos em que a cor nos modifica os sentimentos, ora fazendo bem, ora fazendo mal; em tons calmos ou violentos, a cor é sempre comunicativa, amortece, reaviva, tal a sua expressão emocional. Lançai olhares investigadores para a mancha dos poentes: há cores que são ecos de outras cores, cores sem vibrações, cores esfalecentes, melodias que o olhar somente escuta, na quietude absoluta, ao Sol se pôr… Quem há que inda não tenha percebido o subjetivo ruído da harmonia da cor? (…) — A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar. Cor é soluço, cor é gargalhada, cor é lamento, é suspiro, e grito de alma desesperada! Muitas vezes a cor ao som prefiro porque a minha emoção é igual à sua: — parada, estatelada dizendo tudo, sem que diga nada, no prazer ou na dor. Olhar a cor é ouvi-la, numa expressão tranquila, falar de todas as sensações caladas, dos corações; no entanto, a cor tem brados, mas brados estrangulados, mágoas contidas, mudo querer, ânsia, fervor, emotividade de desconhecidas vidas, que se ficaram na vontade, que não conseguiram ser… Cores são vagas, sugestivas toadas… Cores são emoções paralisadas… (…) Publicado no livro Estados de alma (1917). In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141- Encantamento A Francisco Alves Canta, que tua voz ardente e moça faz com que eu sinta a meiguice das palavras que a vida não me disse. Para te ouvir melhor abro as janelas e fico a sós com tua voz sonhando que a noite está cantando pelos lábios de fogo das estrelas. Canta, boca febril que não conheço, que nunca me falaste e que me dizes tudo!… Ave estranha de garras de veludo, entoa para mim uma canção sem fim! Canta, que ao teu canto vejo em tudo quietude atroz de insatisfeito desejo Canta, — em cada ouvido há um beijo para tua linda voz. (…) Publicado no livro Sublimação (1938). In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 335.

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração, Tecnologia da Informação e bacharelando em Direito. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, USA. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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