Fernando Pessoa – Poeta

Fernando Antonio Nogueira Pessoa
* Lisboa, Portugal – 13 de Junho de 1888 d.C
+ Lisboa, Portugal – 30 de Novembro de 1935 d.C
Poeta, artista múltiplo, expressou em sua obra as angústias e contradições do homem moderno

Se depois de eu morrer,
quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas
– a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro; Poemas Inconjuntos; Escrito entre 1913-15; Publicado em Atena nº 5, Fevereiro de 1925

É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa, e o seu valor é comparado ao de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou-o, ao lado de Pablo Neruda, o mais representativo poeta do século XX. Por ter vivido a maior parte de sua juventude na África do Sul, a língua inglesa também possui destaque em sua vida, com Pessoa traduzindo, escrevendo, trabalhando e estudando no idioma.

Teve uma vida discreta, em que atuou no jornalismo, na publicidade, no comércio e, principalmente, na literatura, onde se desdobrou em várias outras personalidades conhecidas como heterônimos. A figura enigmática em que se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além do fato de ser o maior autor da heteronímia.

A figura enigmática em que se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além do fato de ser o maior autor da heteronímia.
Largo de São Carlos. Às três horas e vinte minutos da tarde de 13 de Junho de 1888 nascia em Lisboa, capital portuguesa, Fernando Pessoa. O parto ocorreu no quarto andar esquerdo do nº 4 do Largo de São Carlos, em frente da ópera de Lisboa (Teatro de São Carlos). O seu pai era funcionário público do Ministério da Justiça e crítico musical do “Diário de Notícias”, Joaquim de Seabra Pessoa (38), natural de Lisboa; e a sua mãe D. Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa (26), natural da Ilha Terceira (Açores).

Viviam com eles a avô Dionísia, doente mental e duas criadas velhas, Joana e Emília.
É batizado em 21 de Julho na Igreja dos Mártires, no Chiado. Os padrinhos são a sua Tia Anica (D. Ana Luísa Pinheiro Nogueira, sua tia materna) e o General Chaby. A razão por detrás do nome Fernando Antônio encontra-se relacionada com Santo Antônio: a sua família reclamava uma ligação genealógica com Fernando de Bulhões, nome de batismo de Santo Antônio, cujo dia tradicionalmente consagrado em Lisboa é 13 de Junho, dia em que Fernando Pessoa nasceu.


Ainda bebê com mãe Maria Magdalena

A Mãe Maria Magdalena
Maria Magdalena Pinheiro Nogueira (1962-1925) era filha do conselheiro Luís Antônio Nogueira, açoriano, conhecido jurisconsulto, que foi diretor-geral do Ministério do Reino e conviveu com várias figuras célebres da época, como Manuel de Arriaga ou o poeta Tomás Ribeiro e de Madalena Xavier Pinheiro, também açoriana.
Maria Magdalena teve uma educação esmeradíssima, falando francês, inglês e alemão, gostava muito de ler e até de fazer versos. Aprendeu o inglês com o preceptor dos infantes D. Carlos e D. Afonso, o que é significativo do nível social da família.

O Pai Joaquim Seabra Pessoa

O Pai Joaquim Seabra Pessoa
Joaquim de Seabra Pessoa (1850-1893), era filho do general Joaquim Antônio de Araújo Pessoa, que se ilustrou nas Guerras Liberais, tendo sido distinguido, entre outras condecorações, com a Torre e Espada e de Dionísia Perestrelo de Seabra.
Funcionário do Ministério da Justiça tinha alguma vocação literária e artística, sendo em especial um apaixonado melômano. Era crítico musical do jornal “Diário de Notícias”, tendo publicado um trabalho sobre o Navio Fantasma, de Wagner.

A sua infância e adolescência foram marcadas por fatos que o influenciariam posteriormente. Às cinco horas da manhã de 24 de Julho de 1893, o seu pai morre com 43 anos vítima de tuberculose. A morte é reportada no Diário de Notícias do dia. Joaquim de Seabra Pessoa deixou-o com apenas cinco anos, a mãe e o seu irmão Jorge que viria a falecer no outro ano sem chegar a completar um ano. A mãe então se vê obrigada a leiloar parte da mobília e mudam-se para uma casa mais modesta, o terceiro andar do n.º 104 da Rua de São Marçal.

É também nesse período que surge o seu primeiro heterônimo, Chevalier de Pas, fato relatado pelo próprio Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, numa carta de 1935 em que fala extensamente sobre a origem dos heterônimos.
Ainda no mesmo ano cria seu primeiro poema, um verso curto com a infantil epígrafe de À Minha Querida Mamã. Sua mãe casa-se pela segunda vez em 1895 por procuração, na Igreja de São Mamede em Lisboa, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban (África do Sul), o qual havia conhecido um ano antes. Em África, Pessoa viria a demonstrar possuir desde cedo habilidades para a literatura.

Juventude em Durban

Fernando Pessoa os 10 anos em Durban, África do Sul
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Em razão do casamento, muda-se com a mãe e um tio-avô, Manuel Gualdino da Cunha, para Durban, onde passa a maior parte da sua juventude. Viajam no navio Funchal até a Madeira e depois no paquete Inglês Hawarden Castle até ao Cabo da Boa Esperança. Tendo que dividir a atenção da mãe com os filhos do casamento e com o padrasto, Pessoa isola-se, o que lhe propiciava momentos de reflexão. Em Durban recebe uma educação britânica, o que lhe proporciona um profundo contato com a língua inglesa. Os seus primeiros textos e estudos são feitos em inglês.

Faz o curso primário na escola de freiras irlandesas da West Street, onde realiza a sua primeira comunhão e percorre em três anos o equivalente a cinco. Em 1899 ingressa na Durban High School, onde permanecerá durante três anos e será um dos primeiros alunos da turma, no mesmo ano cria o pseudônimo Alexander Search, no qual envia cartas a si mesmo utilizando esse nome.

No ano de 1901 é aprovado com distinção no seu primeiro exame da Cape Scholl High Examination, escreve os primeiros poemas em inglês. Na mesma época morre sua irmã Madalena Henriqueta, de dois anos.

Em 1903 frequentou o curso noturno da Comercial School, ao mesmo tempo em que, durante o dia, se preparava nas disciplinas humanísticas para o exame de admissão à Universidade.

Com data de Julho de 1903, Fernando Pessoa projeta lançar um periódico mensal intitulado “O Palrador”. Num caderno escolar encontra-se um esboço da sua primeira página, com grande profusão de diretores, todos eles avatares do próprio Pessoa. O Diretor Literário é Pedro da Silva Salles, o Artístico é Alberto Ruy da Costa e assim por diante, havendo o Redator, o Secretário de Redação, o Administrador e os Diretores Charadístico, Humorístico, das História Curtas, da Seção de Esportes, das Seções Restantes e das Caricaturas!

Num caderno registrou, dia a dia, entre Abril e Novembro, os livros que ia lendo de autores tais como Thakeray, Júlio Verne, Chesterton, Lombroso, Grasset, Guerra Junqueiro, Albino Forjaz de Sampaio, Byron, Keats, Weber, Espronceda, Molière, Voltaire, Tolstoi, Schopenhauer, Foitillée, Shakespeare, Aristóteles, Cousin, Funck-Brentano, Ribot e Silva Passos, entre outros.

A 6 de Agosto anotou que não leu nenhum livro nesse dia: “demasiado ocupado a pensar”. Projetos de obras. Queria fundar uma revista.

Escreveu vários poemas, em inglês, como Song of the obscure, inspirado por Milton e The Atheist, talvez influenciado pela Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro.
Em Novembro fez o exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança (“Matriculation Examination”). Obteve uma classificação relativamente baixa, mas foi-lhe conferido, entre 899 candidatos, o prestigioso prêmio “Queen Victoria Memorial Prize” pelo melhor ensaio de estilo inglês.

Para preparar o exame, estudou Shakespeare, que colocará acima de todos, Milton, Addison e Steele, bem como numerosos poetas ingleses
Inventou o charadista A. A. Crosse, em nome do qual chegou a concorrer a concursos de charadas em jornais londrinos.

Sua mãe e o seu novo marido, o cônsul João Miguel Rosa

A 12 de Maio escreveu o seu primeiro poema inglês conhecido: Separated From Thee, treasure of my heart, elegia romântica sobre o tema da ausência da mulher amada.
Em Junho foi aprovado com distinção no seu primeiro exame, o “Cape School Higher Certificate Examination”.
Em 1 de Agosto partiu com a família para Portugal para um ano de férias. No mesmo barco, o navio alemão “König”, seguia o corpo da irmã falecida.

Mantém contato com a literatura inglesa através de autores como Shakespeare, Edgar Allan Poe, John Milton, Lord Byron, John Keats, Percy Shelley, Alfred Tennyson, entre outros. O inglês teve grande destaque na sua vida, trabalhando com o idioma quando, mais tarde, se torna correspondente comercial em Lisboa, além de utilizar o idioma em alguns dos seus textos e traduzir trabalhos de poetas ingleses, como O Corvo e Annabel Lee de Edgar Allan Poe.

Com exceção de Mensagem, os únicos livros publicados em vida são os das coletâneas dos seus poemas ingleses: Antinous e 35 Sonnets e English Poems I – II e III, escritos entre 1918 e 1921.

Em Lisboa mora com a família em Pedrouços e depois na Avenida de D. Carlos I, n.º. 109, 3º. Esquerdo. Na capital portuguesa nasce João Maria, quarto filho do segundo casamento da mãe de Pessoa. Viaja com o padrasto, a mãe e os irmãos à Ilha Terceira, nos Açores, onde vive a família materna. Também partem para Tavira onde para visitar os parentes paternos. Nessa época escreve a poesia Quando ela passa.

Fernando Pessoa permanece em Lisboa enquanto todos regressam para Durban: a mãe, o padrasto, os irmãos e a criada Paciência que viera com eles. Volta sozinho para a África no vapor Herzog. Na mesma época, tenta escrever romances em inglês e matricula-se na Comercial School. Lá estuda à noite enquanto de dia se ocupa com disciplinas humanísticas. Em 1903, candidata-se à Universidade do Cabo da Boa Esperança.

Um ano depois novamente ingressa na Durban High School onde frequenta o equivalente a um primeiro ano universitário, Aprofunda a sua cultura, lendo clássicos ingleses e latinos; escreve poesia e prosa em inglês e surgem os heterônimos Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher; nasce z sua irmã Maria Clara e publica o jornal do liceu um ensaio crítico intitulado Macaulay. Por fim, encerra os seus bem sucedidos estudos na África do Sul após realizar na Universidade o “Intermediate Examination in Arts”, adquirindo bons resultados.

Assinatura de Fernando Pessoa

Volta para Portugal

Deixando a família em Durban, regressou definitivamente à capital portuguesa, sozinho, em 1905. Passa a viver com a avó Dionísia e as duas tias na Rua da Bela Vista 17. A mãe e o padrasto também retornam a Lisboa, durante um período de férias de um ano em que Pessoa volta a morar com eles. Continua a produção de poemas em inglês e em 1906 matricula-se no Curso Superior de Letras (atual Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), que abandona sem sequer completar o primeiro ano. É nesta época que entra em contato com importantes escritores de literatura da língua portuguesa. Interessa-se pela obra de Cesário Verde e pelos sermões do Padre Antônio Vieira.

Fernando Pessoa aos vinte anos em Lisboa

Em Agosto de 1907, morre a sua avó Dionísia, deixando-lhe uma pequena herança. Com esse dinheiro, monta uma pequena tipografia, que rapidamente faliu, na Rua da Conceição da Glória, 38-4. º, sob o nome de “Empresa Íbis – Tipografia Editora – Oficinas a Vapor”. A partir de 1908, dedica-se à tradução de correspondência comercial, um trabalho que poderíamos chamar de “correspondente estrangeiro”. Nessa profissão trabalha a vida toda, tendo uma modesta vida pública.

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Entrada da Repartição, A Junta, onde trabalhava em Lisboa

Ainda em 1911 a convite de um editor inglês, Mr. Killoge, que se propõe publicar uma antologia dos grandes autores universais em língua portuguesa, Fernando Pessoa passa grande parte deste ano a traduzir poetas e prosadores ingleses para a nossa língua. O editor convida-o a ir com ele a Inglaterra, para ajudá-lo na preparação da edição.

Inicia a sua atividade de ensaísta e crítico literário com a publicação, em 1912, na revista “Águia”, do artigo “A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada”, a que se seguiriam outros.

Levando uma vida relativamente apagada, movimentando-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista A Águia, da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela crença no surgimento de um grande poeta nacional, o “super-Camões” (ele próprio?).

Data de 1913 a publicação de “Impressões do Crepúsculo” (poema tomado como exemplo de uma nova corrente, o paulismo, designação advinda da primeira palavra do poema) e de 1914 o aparecimento dos seus três principais heterônimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem destes.
Colecionou e traduziu, em 1914,para inglês, a convite de um editor de Londres, 300 provérbios portugueses.

Publicou na revista “A Renascença”, de Lisboa, número único, Pauis e Ô Sino da Minha Aldeia, sob o título único de Impressões do Crepúsculo. Começava a desenvolver-se o “paulismo”. Escreveu um pequeno texto sobre a quadra popular (ele e outros como Mário de Sá-Carneiro, João de Barros, Augusto Gil, Afonso Lopes Vieira ou João Lúcio), para o Missal de Trovas, de Antônio Ferro e do seu futuro cunhado Augusto Cunha.

Ainda em 1914, em maio, Fernando Pessoa mudou-se, com a tia Anica e a sua família, para a Rua Pascoal de Melo e escreveu fragmentos da Teoria da República Aristocrática.
Em Março escreveu a Ode Triunfal, atribuída a Álvaro de Campos, que publicou como data de Junho. Em seguida escreveu Opiário, poesia, igualmente de Álvaro de Campos.

Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu dileto amigo, com o qual trocou intensa correspondência e cujas crises acompanhou de perto), Luís de Montalvor e outros poetas e artistas plásticos com os quais formou o grupo “Orpheu”, lançou a revista Orpheu, marco do modernismo português, onde publicou, no primeiro número, Opiário e Ode Triunfal, de Campos, e O Marinheiro, de Pessoa ortônimo, e, no segundo, Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa ortônimo, e a Ode Marítima, de Campos.

Ainda em 1915, em Janeiro, escreveu a primeira versão do poema erótico Antinous, em inglês, e, em português, Ela canta, Pobre ceifeira…, onde exprime a dor de não poder fazer coincidir a felicidade da inocência e a consciência de si mesmo. Publicou, também, Antinous (1918), 35 Sonnets (1918), e três séries de English Poems (publicados, em 1921, na editora Olisipo, fundada por si).


Vídeo – Poema em linha reta – voz de Paulo Autran

Esse primeiro número de “Orpheu”, órgão do que se chamará depois o Modernismo, que irá abalar a sensibilidade de seu tempo. Acolhido com irritação e troça pela crítica e pelo público, que trazia entre outras coisas O Marinheiro de Pessoa, Opiário e Ode Triunfal de Campos. Os diretores eram Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho. Outros colaboradores: Mário de Sá-Carneiro, Alfredo Pedro Guisado, José de Almada Negreiros, Armando Côrtes-Rodrigues e também Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho. Por blague o editor foi Antônio Ferro, um dos mais novos do grupo. Não o podia ser legalmente, visto não ter ainda atingido a maioridade (tinha 19 anos, a maioridade nesse tempo era aos 21 anos).

Em 30 de Março de 1920, a bordo do navio Lourenço Marques, sua mãe e seus irmãos regressam definitivamente a Portugal.
Nessa época, Pessoa participava frequentemente, com o nome de A. A. Crosse, nos concursos charadísticos do “Times”. Escreveu uma série de epitáfios em inglês.

Com Moitinho de Almeida, “O Patrão Vasques” (último à direita)

A 15 de Outubro, com violenta crise de depressão, decide ir tratar-se numa clínica psiquiátrica, mas acaba por desistir.

Escreveu a série de poemas ingleses intitulada Inscriptions.


Ophélia

Carta de Fernando Pessoa a Ophelia – 01 de janeiro de 1920

“Ophéliazinha:
Para me mostrar o seu desprezo, ou pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da serie de “razões” tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-m’o. Assim, entendo da mesma maneira, mas doe-me mais.

Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Opheliazinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação – creio eu – de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.

Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as cousas, nem trata os outros como réus que é preciso “entalar”.

Porque não é franca comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal – nem a si, nem a ninguém-, e quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lh’a venham acrescentar creando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.

Reconheço que tudo isto é cômico, e que a parte mais cômica d’isto tudo sou eu.

Eu-proprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra cousa que não fosse não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim…

Ahi fica o “documento escrito” que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugenio Silva.”

A 29 de Novembro envia a Ophelia uma carta de rompimento:
“O amor passou… O meu destino pertence à outra Lei, cuja existência a Ophelinha ignora, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam…”



Vídeo – Todas as cartas de amor são ridículas – Voz de Maria Bethania

¹Ophélia – O mistério duma pessoa
por Maria da Graça Queiroz (veja depoimento no fim do texto)

Pessoa mudou frequentemente de habitação: um quarto alugado na Rua Antero de Quental, outro na Rua Almirante Barroso, outro enfim na Rua Cidade da Horta.
Publicou na revista “Exílio” (Abril) o poema Hora Absurda.

Pessoa alugou um quarto na Rua D. Estefânia, n.º 127, r/c Dt.º (quarto alugado em casa de uma engomadeira).
De 4 a 21 de Abril colaborou no quotidiano “O Jornal” de Boavida Portugal, na rubrica Crônica da Vida que Passa, com seis crônicas. Em Maio publicou, no panfleto clandestino de João Camoesas, “Eh Real!”, o artigo O Preconceito da Ordem.

Em 1934, concorreu com Mensagem a um prêmio da Secretaria de Propaganda Nacional, que conquistou na categoria B, devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas Exílio (1916), Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926, de que foi co-diretor e onde publicou O Banqueiro Anarquista, conto de raciocínio e dedução, e o poema Mar Português), Athena (1924-1925, igualmente como co-diretor e onde foram publicadas algumas odes de Ricardo Reis e excertos de poemas de Alberto Caeiro) e Presença.

Na Rua Augusta, com Utra Machado

A sua obra, que permaneceu majoritariamente inédita, foi difundida e valorizada pelo grupo da Presença. A partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos heterônimos e de Pessoa ortônimo. Foram ainda sucessivamente editados escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia, política e páginas íntimas.

Entre estes, contam-se a organização dos volumes poéticos de Poesias (de Fernando Pessoa), Poemas Dramáticos (de Fernando Pessoa), Poemas (de Alberto Caeiro), Poesias (de Álvaro de Campos), Odes (de Ricardo Reis), Poesias Inéditas (de Fernando Pessoa, dois volumes), Quadras ao Gosto Popular (de Fernando Pessoa), e os textos de prosa de Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos Filosóficos, Sobre Portugal – Introdução ao Problema Nacional, Da República (1910-1935) e Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Do seu vasto espólio foram também retirados o Livro do Desassossego por Bernardo Soares e uma série de outros textos.

“A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. Asneira? Impossível? Sei lá! Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada. E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. Não se zanguem com ela. São tolerantes com ela. O que era eu um vaso vazio? Olham os cacos absurdamente conscientes, Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. Olham e sorriem. Sorriem tolerantes à criada involuntária. Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros. A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? Um caco. E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.” Álvaro de Campos

(…) “Quantas vezes, sob o peso de um tédio que parece ser loucura, ou de uma angústia que parece passar além dela, paro, hesitante, antes que me revolte, hesito, parando, antes que me divinize. Dor de não saber o que é o mistério do mundo, dor de nos não amarem, dor de serem injustos conosco, dor de pesar a vida sobre nós, sufocando e prendendo, dor de dentes, dor de sapatos apertados – quem pode dizer qual é a maior em si mesmo, quanto mais nos outros, ou na generalidade dos que existem? (…) Escrevo isto sob a opressão de um tédio que parece não caber em mim, ou precisar de mais que da minha alma para ter onde estar; de uma opressão de todos e de tudo que me estrangula e desvaira; de um sentimento físico da incompreensão alheia que me perturba e esmaga. Mas ergo a cabeça para o céu azul alheio, exponho a face ao vento inconscientemente fresco, baixo as pálpebras depois de ter visto, esqueço a face depois de ter sentido. Não fico melhor, mas fico diferente. Ver-me liberta-me de mim. Quase sorrio, não porque me compreenda, mas porque, tendo-me tornado outro, me deixei de poder compreender. No alto do céu, como um nada visível, uma nuvem pequeníssima é um esquecimento branco do universo inteiro.” Fernando Pessoa sob pseudônimo de Bernardo Soares, em o Livro Do Desassossego.

“Não sei quem sou, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou váriamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros). Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpétuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho. Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. Como o panteísta se sente árvore e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada, por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.”

“Eu amo tudo o que foi, Tudo o que já não é, A dor que já me não dói, A antiga e errônea fé, O ontem que dor deixou, O que deixou alegria Só porque foi, e voou E hoje é já outro dia.”

Pessoa é internado no dia 29 de Novembro de 1935, no Hospital de São Luís dos Franceses, com diagnóstico de “cólica hepática” (provavelmente uma colangite aguda causada por cálculo biliar), falecendo de suas complicações, possivelmente associada a uma cirrose hepática provocada pelo óbvio excesso de álcool ao longo da sua vida (a título de curiosidade acredita-se que era muito fiel à aguardente “Águia Real”).

No dia 30 de Novembro morre aos 47 anos. Nos últimos momentos da sua vida pede os óculos e clama pelos seus heterônimos. A sua última frase é escrita no idioma no qual foi educado, o inglês: I know not what tomorrow will bring (“Eu não sei o que o amanhã trará”). Morreu às 20 horas e 30 minutos. Presentes o Dr. Jaime Neves e os amigos Francisco Gouveia e Vítor da Silva Carvalho.

Foi sepultado a 2 de Dezembro, pelas 11 horas, no Cemitério dos Prazeres, no jazigo da sua avô, D. Dionísia Seabra Pessoa (Rua 1, Dt. ª, n.º 4371), na presença de umas cinquenta pessoas. O elogio fúnebre foi lido pelo seu amigo Luís de Montalvor, companheiro dos tempos do Orpheu. O jornal Diário de Notícias de 03.12.1935, consagrou duas colunas ao acontecimento.

Em 1985, ano do cinquentenário da sua morte, mas no dia do seu nascimento, 13 de Junho, o corpo foi trasladado do Cemitério dos Prazeres para o claustro do Mosteiro dos Jerônimos, onde estão os túmulos de outras glórias nacionais, entre elas: Vasco da Gama e Luís de Camões

Cronografia resumida
13 de junho de 1888 – Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde.
1896 – Parte para Durban, na África do Sul.
1905 – Regressa a Lisboa
1906 – Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa
1907 – Abandona o curso.
1914 – Surge o mestre Alberto Caeiro. Fernando Pessoa passa a escrever poemas dos três heterônimos.
1915 – Primeiro número da Revista “Orfeu”. Pessoa “mata” Alberto Caeiro.
1916 – Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.
1924 – Surge a Revista “Atena”, dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz.
1926 – Fernando Pessoa requer patente de invenção de um Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Classificações, Consultável em Qualquer Língua. Dirige, com seu cunhado, a Revista de Comércio e Contabilidade.
1927 – Passa a colaborar com a Revista “Presença”.
1934 – Aparece “Mensagem”, seu único livro publicado.
30 de novembro de 1935 – Morre em Lisboa, aos 47 anos.

Fernando Pessoas e estilos
Pessoa não apenas dominou como atualizou e desenvolveu todas as técnicas e vertentes da expressão poética disponíveis em Portugal no começo do século XX. De um lado, como alguém capaz de se assenhorear, em termos práticos, desses meios que uma sociedade culturalmente rica e tradicionalmente literária tinha acumulado; de outro, por sua formação inglesa de linhagem racionalista (e de muitos pontos de contato com o americano Poe), como alguém igualmente capaz de sacudir e galvanizar aquela realidade cultural e seu legado, em que a poesia se cristalizara, se transformara em ornamento social e de diletantismo estéril em torno das saudades não resolvidas, da exaltação patriótica ou pitoresca.

Observa-se na obra de Fernando Pessoa uma nova dinâmica do trabalho literário, mediante uma concepção e utilização crítica da poesia. Pessoa é acima de tudo um demolidor, um desmistificador (mesmo, se necessário, quando se faz passar pelo oposto, por quem mistifica) e, psicologicamente, como disse Jorge de Sena, um “indisciplinador de almas”. Racionalista implacável, é também um mágico, mas um mágico de humor ácido e cruel que tirasse brilhantemente da cartola o coelho mais belo e em seguida o dissecasse severamente diante do público perplexo.

Embora se declarasse influenciado pelo saudosismo e pelos futuristas, por Camilo Pessanha, Cesário Verde e muitos outros, estas e outras fontes são integralmente reprocessadas por sua consciência, por seu poderoso arsenal de recursos estilísticos e pelas metas que muito ambiciosamente perseguiu.

Os Heterônimos
Personalidade dissociável, mas que ao mesmo tempo se integra no imaginário e na arte, recorreu desde cedo ao estratagema dos heterônimos. Ainda nos tempos de colégio criou pelo menos três. Um deles, Alexander Search, é excelente poeta em inglês. De alguns heterônimos elaborou com minúcia os respectivos dados biográficos, idéias e convicções. Dentre uma dezena de pessoas além do próprio (ou ortônimo), três ficaram célebres como poetas e um, o Bernardo Soares do Livro do desassossego, escreveu prosa dispersa e ascética. Os quatro grandes poetas são, portanto, Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

A questão humana dos heterônimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este lhes criou uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu “real” de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterônimos na existência literária do poeta.

“Não me indigno, porque a indignação é para os fortes;
não me resigno, porque a resignação é para os nobres;
não me calo, porque o silêncio é para os grandes.
E eu não sou forte, nem nobre, nem grande.”
Fernando Pessoa sob pseudônimo de Bernardo Soares, em o Livro Do Desassossego

Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polêmicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterônimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irônica pela inteligência.

Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

“…Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, caráter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida-real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.”
Trecho da carta que enviou ao amigo Casais Monteiro

Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a gênese dos seus heterônimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortônimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a “novidade um pouco estranha ao caráter geral da obra”). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, “escrevendo mal o português”, órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, “o único poeta da natureza”, procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.

Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflete-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer em nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil apôs a implantação da República. Pagão intelectual, lúcido e consciente, refletia uma moral estoico-epicurista, misto de altivez resignada e gozo dos prazeres que o não comprometessem na sua liberdade interior, e que é a resposta possível do homem à dureza ou ao desprezo dos deuses e à efemeridade da vida.

Álvaro de Campos, nascido em Tavira em 1890, era um homem viajado. Depois de uma educação vulgar de liceu formou-se em engenharia mecânica e naval na Escócia e, numas férias, fez uma viagem ao Oriente, de que resultou o poema Opiário. Viveu depois em Lisboa, sem exercer a sua profissão. Dedicou-se à literatura, intervindo em polêmicas literárias e políticas. É da sua autoria o Ultimatum, publicado no Portugal Futurista, manifesto contra os literatos instalados da época. Apesar dos pontos de contacto entre ambos, travou com Pessoa ortônimo uma polêmica aberta. Protótipo do vanguardismo modernista, é o cantor da energia bruta e da velocidade, da vertigem agressiva do progresso, de que a Ode Triunfal é um dos melhores exemplos, evoluindo depois no sentido de um tédio, de um desencanto e de um cansaço da vida, progressivos e auto-irônicos.

De entre outros, de menor expressão, destaca-se ainda o semi-heterônimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros que sempre viveu sozinho em Lisboa e revela, no seu Livro do Desassossego, uma lucidez extrema na análise e na capacidade de exploração da alma humana.

Quanto a Fernando Pessoa ortônimo, segue, formalmente, os modelos da poesia tradicional portuguesa, em textos de grande suavidade rítmica e musical. Poeta introvertido e meditativo, anti-sentimental, reflete inquietações e estranhezas que questionam os limites da realidade da sua existência e do mundo. O poema Mensagem, exaltação sebastiânica que se cruza com certo desalento, numa expectativa ansiosa de ressurgimento nacional, revela uma faceta esotérica e mística do poeta, manifestada também nas suas incursões pelas ciências ocultas e pelo rosa-crucianismo.

Figura cimeira da literatura portuguesa e da poesia européia do século XX, se o seu virtuosismo é, sobretudo inicialmente, uma forma de abalar a sociedade e a literatura burguesas decrépitas (nomeadamente através dos seus “ismos”: paulismo, interseccionismo, sensacionismo), ele fundamenta a resposta revolucionária à concepção romântica, sentimentalmente metafísica, da literatura. O apagamento da sua vida pessoal não obviou ao exercício ativo da crítica e da polêmica em vida, e sobretudo a uma grande influência na literatura portuguesa do século XX.

Legado e Obra poética
Pode-se dizer que a vida do poeta foi dedicada a criar e que, de tanto criar, criou outras vidas através de seus heterônimos, o que foi sua principal característica e motivo de interesse por sua pessoa, aparentemente tão pacata. Alguns críticos questionam se Pessoa realmente teria transparecido seu verdadeiro eu, ou se tudo não tivesse passado de mais um produto de sua vasta criação.

Ao tratar de temas subjetivos e usar a heteronímia, Pessoa torna-se enigmático ao extremo. Esse fato é o que move grande parte das buscas para estudar sua obra. O poeta e crítico brasileiro Frederico Barbosa declara que Fernando Pessoa foi “o enigma em pessoa”. Escreveu desde sempre, com seu primeiro poema aos sete anos e pondo-se a escrever até mesmo no leito de morte. Importava-se com a intelectualidade do homem, e pode-se dizer que sua vida foi uma constante divulgação da língua portuguesa, visto que, nas próprias palavras do poeta, ditas pelo heterônimo Bernardo Soares, “minha pátria é a língua portuguesa”.

Ou então, através de um poema:
“Tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar
quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da
civilização e o alargamento da consciência da humanidade”

Analogamente a Pompeu que disse que “navegar é preciso; viver não é preciso”, Pessoa diz, no poema Navegar é Preciso, que “viver não é necessário; o que é necessário é criar”. Outra interpretação comum deste poema diz respeito ao fato de que a navegação foi resultado de uma atitude racionalista do mundo ocidental (a navegação exigiria precisão) enquanto a vida poderia dispensar tal precisão.

Exceto por Mensagem e os poemas em inglês, a obra de Pessoa sô foi editada em livro apôs sua morte, quando também se tornou muito conhecida. Além de Mensagem, as obras em que Fernando Pessoa aparece ele próprio como autor são os poemas reunidos no chamado Cancioneiro, os Poemas dramáticos (1952), as poesias “À memória do presidente-rei Sidônio Pais” (1940) e “Quinto Império”, as “Quadras ao gosto popular”, os poemas ingleses e franceses, os que foram coligidos posteriormente e as traduções, entre as quais “O corvo” e mais dois poemas de Poe. Muitos dos poemas em inglês de Pessoa receberam grande atenção de pesquisadores, sobretudo por explorarem uma tendência que sô em Álvaro de Campos se mostra, e sem continuidade: o erotismo hedonista e arrebatado, característico sobretudo de Epithalamium e English Poems III (1921).

Em Mensagem, de nacionalismo místico e simbólico, a essencialidade semântica e as imagens vivamente definidoras fazem do texto um épico de miniaturas, flagrantes surpreendidos na história. Muitos de seus versos já se vulgarizaram, como “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”.

No Cancioneiro, há desde poemas sensacionalistas como “Hora absurda” e sonetos ocultistas de desconcertante originalidade até pequenos registros líricos de primorosa sutileza psicológica: “O que és não vem à flor / Das frases e dos dias.”

Nas Poesias (1944) de Álvaro de Campos há muitas faces e perspectivas. Sô uma delas, a do cantor das técnicas industriais modernas e da vida urbana, tem a ver com Walt Whitman, a quem Campos presta homenagem num poema e que é poeta de vôos modestos se comparado com Campos. Além do exaltado libertário das odes, que publicou na revista Portugal Futurista (1917) o “Ultimatum”, agressivo manifesto literário, Campos se apresenta também como o avesso, o niilista radical e desesperançado que tritura todas as crenças, ilusões, propósitos e justificativas de sua vida e da vida humana em geral em “Lisbon Revisited” (1 e 2), “Tabacaria”, “Apostila”, “Adiamento”, “Aniversário”. Nesses poemas, como disse Adolfo Casais Monteiro, se revela a “própria encarnação da consciência infeliz do homem moderno”.

Nos Poemas (1946) de Alberto Caeiro, em versos amplos e de um tom de parábola, tudo se tece em torno da natureza contemplada. Aqui, ao contrário do que ocorre em Mensagem, o mito é reduzido a sua realidade mais contingente, como a pomba teológica que se empoleira nas cadeiras “e suja-as”. Bem diferente é o corte estilístico das Odes (1946) de Ricardo Reis, poeta clássico e pagão, horaciano, de métrica rigorosa e enunciados perfeitos: “Sê todo em cada coisa.” Esteta de um estoicismo profundo, escreve um português de beleza escultórica e intenção didática: “Ninguém te dá quem és.”
Fonte: br.geocities.com

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Rascunho de um poema do Livro O Guardador de Rebanhos

Sobre Fernando Pessoa, o poeta mexicano ganhador do Nobel de Literatura Octavio Paz diz que “os poetas não têm biografia. Sua obra é sua biografia” e que, no caso do poeta português, “nada em sua vida é surpreendente – nada, exceto seus poemas”. O crítico literário estadunidense Harold Bloom considerou-o, no seu livro The Western Canon (“O Cânone Ocidental”), o mais representativo poeta do século XX, ao lado do chileno Pablo Neruda.
Na comemoração do centenário do seu nascimento em 1988, seu corpo foi transladado para o Mosteiro dos Jerônimos, confirmando o reconhecimento que não teve em vida.

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Estátua do poeta em frente à loja A Brasileira
Rua Garrett, 120 – Bairro Alto em Lisboa

Pessoa e o ocultismo
Fernando Pessoa possuía ligações com o ocultismo e o misticismo, salientando-se a Maçonaria e a Rosa-Cruz (embora não se conheça qualquer filiação concreta em Loja ou Fraternidade destas escolas de pensamento), havendo inclusive defendido publicamente as organizações iniciáticas, no Diário de Lisboa, de 4 de fevereiro de 1935, contra ataques por parte da ditadura do Estado Novo. O seu poema hermético mais conhecido e apreciado entre os estudantes de esoterismo intitula-se “No Túmulo de Christian Rosenkreutz”. Tinha o hábito de fazer consultas astrológicas para si mesmo (de acordo com a sua certidão de nascimento, nasceu às 15h20; tinha ascendente Escorpião e o Sol em Gêmeos). Realizou mais de mil horóscopos.

Por uma espécie de extremo niilismo existencial (expresso em versos como “Não: não quero nada”; “Nada me prende a nada”; “Não sou nada”; “Há metafísica bastante em não pensar em nada”), Pessoa sô acredita no que não existe (“O mito é o nada que é tudo”), faz-se ocultista, e joga com o irreal contra uma realidade em que não crê, ou considera penosa. É também o sentido do fingimento que atribui ao poeta.
Em 1916, são publicadas as suas traduções de obras de teosofia. Interessa-se igualmente pela astrologia e chega a pensar em fazer dela a sua profissão. Faz experiências de espiritismo. Parece experimentar realmente fenômenos de natureza mediúnica, do que deu testemunho na longa carta à Tia Anica, onde descrevia manifestações de telepatia.
Escreve as primeiras páginas de um livro que deveria chamar-se precisamente O Regresso dos Deuses, uma Introdução geral ao neopaganismo português, cuja autoria seria atribuída a outro “heterônimo”, Antônio Mora.

Eros e Psiquê
“Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem sô despertaria
Um infante, que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E ornar-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vem vencendo estrada e muro,
Chega onde sem sono ela mora,

E, indo tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.”


Vídeo – Eros e Psique – Voz de Maria Bethania

Certa vez, lendo uma publicação inglesa do famoso ocultista Aleister Crowley, Fernando encontrou erros no horóscopo e escreveu ao inglês para corrigi-lo, já que era um conhecedor e praticante da astrologia, conhecimentos estes que impressionaram Crowley e, como gostava de viagens, o fizeram ir até Portugal para conhecer o poeta. Junto com ele veio a maga alemã Miss Jaeger, que passou a escrever cartas a Fernando assinando com um pseudônimo ocultista. O encontro não foi muito amigável, dados os graves desequilíbrios psíquico e espiritual que Crowley sofria e – apesar disso, ainda ensinava. Pessoa e outros propuseram uma operação de desinformação na contra propaganda que se iniciava com a ascensão do nazismo na Europa, em que Crowley teria ajudado o MI6, serviço secreto britânico como agente especial.

Crowley junto com Louis de Wohl,nascido na Alemanha, um ocultista e supostamente como Pessoa um membro “Lanterna” do The Seven Circle.Pessoa se considerava um ocultista e astrólogo amador, e aparentemente, além de traduzir obras de Crowley para o português, como o Hino a Pan, foi de alguma forma envolvido também por Crowley,que como agente duplo se utilizava de um acrônimo conhecido por Maskmelin,um mágico e mestre secreto da “The Seven Circle”, codename Secret Agent 777, uma clara referência baseada na Qabalística escrita pelo próprio Aleister Crowley,da sua coleção, editada e introduzida pelo Dr. Israel Regardie.

Ao que parece,junto com outros ocultistas infiltrados pela “The Seven Circle” , alguns deles como Wohl,ajudaram ao serviço secreto inglês na criação do plano de ocultismo,desenvolvendo horóscopos e diversos documentos falsos para ludibriar os nazistas que começavam a se infiltrar por toda Europa.

“Nota biográfica escrita por Fernando Pessoa em 30 de Março de 1935 e publicada, em parte, como introdução ao poema editado pela Editorial Império em 1940 e intitulado: “À memória do Presidente-Rei Sidônio Pais”

Nome completo: Fernando Antônio Nogueira Pessoa.

Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Diretório) em 13 de Junho de 1888.

Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim Antônio de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís Antônio Nogueira, jurisconsulto e que foi Diretor-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.

Estado: Solteiro.

Profissão: A designação mais própria será “tradutor”, a mais exata a de “correspondente estrangeiro em casas comerciais”. O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal – Caixa Postal 147, Lisboa).

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.

Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: “35 Sonnets” (em inglês), 1918; “English Poems I-II” e “English Poems III” (em inglês também), 1922, e o livro “Mensagem”, 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria “Poema”. O folheto “O Interregno”, publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prêmio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.

Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reacionário.

Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

Posição iniciática: Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.

Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: “Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação”.

Posição social: Anti comunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

A última fotografia tirada do poeta – Lisboa

¹Ophélia – O mistério duma pessoa – por Maria da Graça Queiroz

Não existe só em cartas mas não gosta de aparecer nem de falar da sua relação com ele, com aquele correspondente comercial que conheceu nos anos vinte.

Não é fácil escrever sobre uma pessoa quando se lhe está ligado por qualquer forte sentimento, porque há com certeza o perigo natural de a vestir com os mais bonitos vestidos ou pintá-la com as mais belas cores. Assim, quando me pedem que fale de uma Ophelia-Mulher, a minha primeira idéia é saltar para cima de um escadote e espreitá-la lá de cima, na esperança de a ver só por fora e poder dizer, sem sombra de sentimento: ela é baixa, magra, cabelo e olhos castanhos; nasceu em Lisboa, na Rua das Trinas, no dia 14 de Junho no ano de 1900.

Falar, é sempre mais fácil, pois há sempre aqueles gestos que substituem palavras, trejeitos que falam por emoções, ou um faiscar de olhos que substitui vírgulas e pontos nos ii. Agora, escrever, mais a mais quando se não é escritor, o que não é preciso de arte para descrever um suspiro, um grito, ou um arrepio (de que a vida dela está cheia), que ficam assim perdidos para sempre nas entrelinhas da sensibilidade de quem lê!

Mas não posso deixar de falar sobre Ela como me pedem. Devo-lhes, a Ela e a Ele Fernando, o retrato, o mais perfeito e parecido possível de quem foi e é, para além da sua relação com o Poeta, uma Mulher verdadeiramente Mulher.

Assim, puxo de uma cadeira mental, chego-me para junto d’Ela, olho-a bem de frente e pergunto: – Quem és tu Ophelia?

- Como eu já contei no relato da minha relação com o Fernando no livro «Cartas de Amor», sou a mais nova de oito irmãos, quatro rapazes e quatro raparigas e chamo-me Ophelia, porque minha irmã Joaquina, mais velha que eu 20 anos e que foi um pouco minha segunda mãe, estava a ler “Hamlet”, na altura em que eu nasci.

Os meus pais eram ambos do Algarve, de Lagos. O meu pai tinha um escritório de exportação de produtos algarvios. E quando os meus irmãos chegaram à idade de estudar, vieram viver para Lisboa.

Éramos uma família muito alegre e aberta. Lia-se e conversava-se muito. O meu pai tinha muitos amigos e embora muito divertido era muito exigente connosco. Lembro-me que um dos meus irmãos tinha muito jeito para o teatro, foi até convidado por Eduardo Brazão para ir trabalhar com ele para o Teatro Nacional mas o meu pai não deixou.

Estudei Português em casa com uma professora e Inglês, com uma senhora inglesa, a casa de quem ia dar as lições. Francês, estudei com «mademoiselle» Déchant, uma senhora muito culta com quem fiz o 5.º ano singular e fui uma aluna brilhante no meu 1.º grau. Depois não estudei mais, a não ser Francês e Inglês para me manter actualizada.

- E o que gostaria de ter sido se tivesse estudado?

- Uma coisa que ninguém imagina! Gostaria de ter tirado o curso de matemáticas e ser professora. Tinha muito jeito para números. Em cálculo mental era óptima aluna e os próprios professores se admiravam com a minha rapidez de raciocínio. Chegavam a dizer por brincadeira que eu não sabia, adivinhava o que eles iam perguntar.

1920. Ophelia conhece Fernando, e aqui a sua vida poderá ler-se, através não só do relato que faço em “O Fernando e Eu”, mas mais concretamente ainda, nas cartas do Fernando para Ela, que então, juntamente com David-Mourão Ferreira, fiz publicar na íntegra.

É claro que, falta uma metade deste relato, pois, infelizmente, não tive nunca acesso às cartas d’Ela para Ele mas que sei que existem no espólio do Poeta e algumas até já foram publicadas contra vontade d’Ela, devo dizer. Como sabem, Ophelia nunca quis falar de Fernando em vida d’Ela, nem aparecer publicamente. Disse sempre: «Faz de conta que morri também.» Só em 1978, a meu pedido, Ela consente que se publiquem as cartas, mas na condição de se manter “ausente” embora tenha acompanhado, com a maior das emoções, todo o trabalho.

Aproveitarei aqui para explicar as razões pelas quais achei que era chegado o momento de trazer a lume este bocadinho da vida de um Homem, de um Poeta, de um Gênio, que se mantinha oculta. E penso, que não será assim um bocadinho tão bocadinho. Não será antes um bocadão imenso, saber-se que este Homem amou de verdade, que teve as sensações naturais de um homem apaixonado, dêem-lhe os nomes que derem, traduzam, pesquisem, miuçalhem, intelectualizem este sentimento tão simples mas tão complicado, chamado Amor?

É evidente que um homem – homens, como Ele, com a natureza d’Ele, não nos esqueçamos com Ele amou Ophelia, pelos menos como Fernando Pessoa e como Álvaro de Campos, não poderia agir como um homem banal. Ele não era banal. Assim como em Ophelia também nada era banal, a começar pelo nome.

Tudo o que lhe acontece na vida é realmente um acontecimento. Não sei se por eles em si, ou se porque Ela assim os apresenta e vive: É a mais nova de oito irmãos. Provoca as maiores paixões. Tem as piores doenças. É tratada pelos melhores médicos. Namora o mais genial dos Poetas. Espera por Ele os mais longos nove anos. Casa com o melhor dos homens. Sofre os maiores desgostos. Tem a maior das fés. Quando fala, fala com o corpo todo. Quando diz: Dei uma corrida…. corre-nos imediatamente a imaginação atrás d’Ela. Senti um cansaço… e imediatamente se fica ofegante. Isto são imagens que me vêm de pequena, desculpem, esqueci-me de correr a cortina sentimental. Mas lembro-me como se fosse hoje, do acontecimento em que se transformava sempre, uma visita sua lá a casa.

- Quando Ela vinha, nunca vinha só. Primeiro porque vinha carregada de histórias e depois, eram todos os preparativos para a sua chegada. A espera ansiosa à janela e a corrida pela escada abaixo, para ir ajudar a trazer os embrulhos que eram sempre muitos e pesados. A subida até lá acima era sempre demorada com paragens em cada patamar para respirar um pouco «e descansar o coração». Houve um dia que até se levou uma cadeirinha para Ela descansar a meio do caminho! E depois era a chegada propriamente dita. Os ais muito lá do fundo do coração cansado e feliz, o tirar cuidadoso do alfinete do chapéu e finalmente o lançar-se para cima da cadeira que a esperava, logo à entrada da porta da rua. As pernas não chegavam bem ao chão e os ais, os uis, os suspiros e principalmente a certeza da sensação causada, a mão no peito, os olhos semifechados e uma voz fraca: – Não posso falar, não posso falar por enquanto, deixem-me descansar um pouco… Tudo em volta à espera em transe.

O espectáculo tinha começado. Era então a alegria dos beijos e exclamações numa mímica redobrada: «dá cá os embrulhos… onde estão os meus sacos?… a minha carteira?… – Estão aqui tia, estão aqui». E começava a distribuição. Mas não era propriamente a distribuição das coisas que nos emocionava. Era a vida, os gestos das mãos pequenas e roliças que davam e falavam. A vivacidade do olhar que ria e chorava, e o tom da voz, principalmente o tom da voz, as nuances da voz, ora alegre de alegria, ora triste de fazer chorar, zangada, alterada, meiga, a voz do homem do táxi, a resposta do polícia em voz de polícia, e depois eu respondi, e vai ela e diz assim… A família inteira de volta e em silêncio, olha-a, escuta-a, segura-lhe os gestos. – Isto é para o lanche, uns bolinhos de chocolate muito frescos ali da Riviera. Isto é para ti, o presente de anos que ainda não te tinha dado. E continuava a distribuição onde não faltava nada nem ninguém, seguida do cerimonial do dobrar dos papéis de embrulho que ninguém rasgava e do desembaraçar dos cordéis que às vezes durava a tarde inteira, mas que acabava sempre num rolinho muito bem feitinho para fazer «pegas». Depois eram as histórias, seguidas, ora antigas, ora recentes, onde cada protagonista tinha a sua própria voz; as crianças fala de criança, os polícias voz de polícia, os cães ladravam de verdade e os cavalos cavalgavam de certeza absoluta porque ela batia com os dois pés no chão e dizia: – cataplam, cataplam, cataplam…

É nesta casa, no Largo D. João da Câmara, ao Rossio, que Ela vive grande parte da sua vida. Primeiro, ainda em vida dos pais, passava lá grandes temporadas, ou a pedido da irmã que adorava a sua companhia, só tinha um filho, ou porque Ela própria gostava muito mais de lá estar do que em casa, onde não a deixavam fazer nada.

Adorava o sobrinho, Poeta Carlos Queiroz, com quem mantém uma relação de amizade verdadeiramente extraordinária e rara. Tia, mais velha que ele sete anos, são contudo, mais que irmãos. Amigos, e há entre eles uma intimidade tão natural e pura, uma unidade mental tão completa como uma conversa a dois que se prolonga pela vida fora.

- Diga-me Ophelia, e como viveu a sua vida nesse intervalo de 1920 a 1929?

- Depois de deixar o último emprego onde estive, Casa C. Dupin na Rua Morais Soares, não voltei a trabalhar. Fiquei então a viver definitivamente em casa de minha irmã e com minha mãe, pois meu pai tinha morrido então.

- E durante estes nove anos? Nunca namorou ninguém?

- Não. No fundo nunca mais gostei de ninguém. E olhe que tive muitos e muitos apaixonados. Eu era muito viva, muito brincalhona mas sabia muito bem o que queria. Tenho um caso engraçado, que acabou por não ter graça nenhuma. Dois irmãos, ambos estudantes das Belas-Artes, um em Pintura outro em Escultura, apaixonaram-se por mim e andavam a namoriscar-me. Por brincadeira comecei a dar mais atenção a um deles, chamava-se Eduardo Cunha, mas o outro nunca perdoou e acabaram por se odiar. O Eduardo fez até o meu retrato, a óleo, muito bonito por sinal. Tenho pena de não ter ficado com ele. Hoje, estará por aí, pendurado nalguma parede, sem sentido. E tive muitas mais paixões. Em Coimbra o próprio Menano me fez uma serenata a pedido de um apaixonado.

- E o que fazia? Com que se entretinha?

- Ah! Tinha uma vida muito cheia. Ajudava a minha irmã na orientação da casa, saía muito, lia muito, íamos muito ao teatro e depois tinha a companhia do meu sobrinho, que era já um homem nessa altura e tinha sempre a casa cheia de amigos; todos artistas como é natural. Carlos Botelho, o Olavo, Mário Eloy, Bernardo Marques, Vitorino Nemésio, Almada Negreiros, António Navarro, Teixeira de Pascoaes que ainda lá foi muitas vezes, José Régio, que me ofereceu um dia um livro seu de poemas, com a dedicatória: «À menina Ophelia, de um Poeta poucas mulheres lêem.» Ele admirava-se de eu o ler. Mas eu lia tudo o que o Carlos tinha e trocávamos impressões sobre tudo. Era muito divertido. Eu era a «tia de todos» como me chamavam.

- E do Fernando nunca mais soube nada?

- Soube, sabia sempre pelo meu sobrinho que nessa altura já era seu amigo e davam-se até muito bem.

- E como recomeçaram em 1929?

- Em 1929, e conforme já contei, recomeçámos através de um retrato que o meu sobrinho levou para casa. Era Ele a beber, no Abel Pereira da Fonseca. Eu achei muito engraçado e disse ao Carlos que também gostava de ter um. Alguns dias depois recebi realmente o retrato com a dedicatória: “Fernando Pessoa em flagrante delitro”. Agradeci-lhe numa carta, ele respondeu-me e recomeçámos assim o «namoro». Esta segunda fase, vem também relatada, no livro Cartas de Amor e conforme contei, o F. Estava muito diferente. Muito mais velho, nervoso, bebia muito. Vivia para a sua obra e eu sentia-o. Deixámos de nos escrever e depois de nos ver. Estávamos em 1930.

- E depois?

- Depois, talvez tenha vivido sempre um pouco com a esperança que ele voltasse. Por que é preciso ver, que eu nunca senti que Ele tivesse deixado de gostar de mim. Antes pelo contrário. Eu, no fundo, sabia também que a sua vida já não lhe pertencia, estava entregue a outros Mestres, como Ele próprio o disse. E assim deixei correr o tempo sem nunca responder à sua última carta.

1935. Ophelia está em casa com a irmã. Toca o telefone. A irmã atende. Quem era? pergunta. – Era o Carlos a dizer que o Fernando Pessoa morreu. Levei a mão à cabeça, dei um grito. Chorei muito, por muito tempo. Não fui ao enterro, não quis aparecer mas se tivesse sabido que ele estava no hospital doente, tenho a certeza absoluta de que o tinha ido visitar.

Sensível, um coração enorme embora prática, dócil mas firme, caprichosa mas humilde, é inigualável confidente. É uma mulher apaixonada pela Vida, pelas Pessoas, pelas Coisas. Está aberta a tudo. Gosta da Novidade. Olha, vê, aceita. É uma resignada, contudo não se esconde atrás da vida, põe-se à frente dela e vive-a. Doentíssima uma vida inteira, parece que vende saúde. Tão depressa está à morte como anda por aí, por essas ruas de Lisboa que Ela adora, faz compras, toma chá, vai à missa e reza e se os olhos deixassem não perdia, com certeza, um filme bom.

Pergunto-lhe: – E os seus gostos Ophelia? Quais são os seus gostos? Olha-me, sorri e com um mar muito doce e antigo diz-me: – Vou responder-lhe com uns versos que fiz há muitos anos que podem falar-lhe melhor do que eu. São uns versos de pé quebrado, não têm valor nenhum, mas ouça:

Gosto de ver as estrelas / Gosto de ver o luar / Gosto das coisas belas / Gosto das ondas do mar. / Gosto de ver os montes / Gosto de ver as serras / Gosto da água das fontes / Espalhadas pela terra. / Gosto de ver os moinhos / do tempo dos meus avós / também gosto dos bombeiros / que dão a vida por nós / Gosto muito de crianças / Gosto de as ver brincar / Gosto das suas danças / Gosto de as ouvir falar Gosto dos passarinhos / Gosto dos animais / Gosto muito dos burrinhos / e de muitas coisas mais.

Estávamos em 1936. Um dia o meu sobrinho chegou a casa e contou que tinha arranjado um emprego, no SNI, para um amigo. Por brincadeira disse-lhe:

- Também podias arranjar um para mim.

- Estás a brincar ou a falar a sério? perguntou ele.

- Olha, estava a brincar mas agora estou a sério.

E assim foi. Arranjou-me um lugar no SNI, onde ele estava também.

Fui trabalhar para as filmagens do “28 de Maio”, do António Lopes Ribeiro. Era um serviço que hoje chamariam de secretariado. Fazia de tudo. Lá, fui encontrar o Olavo d’Eça Leal de quem era amiga. Ele era na altura assistente do Lopes Ribeiro. Estive então um ano a trabalhar na Tobis durante as filmagens e foi lá que conheci Augusto Soares, um homem de Teatro, com quem casei dois anos depois, 1938.

Era um homem encantador e foi um marido exemplar. Da minha parte não posso dizer que tenha sido uma paixão, mas através das suas enormes qualidades, nasceu uma admiração e uma amizade que durou inalterável até à sua morte. Tentei dar-lhe sempre a felicidade que ele merecia. Fiz de todos os meus dias uma festa. Passeámos muito, conversámos, ríamos por tudo. Ele era alegre, comunicativo, bom.

Quando acabaram as filmagens, voltei efectiva ao SNI, onde trabalhei com o Francisco Avilez e com o dr. José Alvelos. Exerci várias funções lá dentro até que, por excesso de trabalho (eu era fraca), adoeci e fui para casa. Estávamos em 1955, ano em que o meu marido vem a morrer.

- Diga-me Ophelia, e em relação Fernando, o seu marido nunca se pronunciou?

- O meu marido era um homem muito inteligente e culto e acima de tudo punha a sua admiração por mim. Ele sabia perfeitamente quem era Fernando e admirava-o. Sempre que se falava d’Ele na telefonia ou aparecia qualquer artigo nos jornais, ele era o primeiro a chamar-me a atenção. Penso até que teria uma ponta de orgulho em mim!

- E como conservou as cartas uma vida inteira?

- O mesmo tenho perguntado a mim mesma muitas vezes. Rasguei tanta coisa quando casei! Tanta recordação! Mas penso que para mim elas eram mais do que uma recordação. Quando casei, por uma questão de sensibilidade, não quis levá-las para minha casa e dei-as ao meu sobrinho Carlos Queiroz. É nas mãos de uma sua filha, Maria da Graça, que elas vivem ainda hoje.

In JL, Lisboa, 12-18 de Novembro de 1985
Fonte:
Instituto Camões

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração, Tecnologia da Informação e bacharelando em Direito. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, USA. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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11 comments on “Fernando Pessoa – Poeta
  1. Rita de Sá disse:

    F PESSOA
    ALBERTO CAEIRO….

    Eles são um só…incomparáveis!

  2. dayanne fernades de silva disse:

    nossa os poemas que fernado pessoa fez são ótimos comecei a ler e não consegui para de ler ja estou no segundo livro des de março os livros são incomparaveis é por isso que indico para todos
    leião todos e se deliciem
    beijos dayanne fernnades da silva

  3. pamela rocha correa disse:

    essa biografia ta dahora so que os erros de portugues ta de mais em!!!!1

  4. valeria disse:

    amei!
    mais tem muito erros.
    vou fusar mais um pouquinho que eu vou fazer o meu trabalho de português

  5. gostei muito dos poemas de Fernando Pessoa, na medida do possivel gostaria de pedir para enviarem para o meu e-mail outros e tantos poemas dele que falam de amor e sua aventura como poeta. muito obrigado, melhores cumprimentos.

  6. Giovana disse:

    deviam fazermais resumido
    a letra tem qeu ser maior
    e a página esta mal formatada

  7. PRA QUE TANTO ORGULHO?

    A nossa vida é como sopro,
    Pode demorar muito tempo
    E também pode durar pouco
    Como uma vela no vento.

    A nossa vida é passageira,
    Quanta gente eu vi desaparecer
    Do Distrito de Bananeiras
    Que nunca mais pude rever!

    Quanta gente tão poderosa
    Que não resistiu a Morte!
    Quanta gente famosa
    Que tinha talento e dote

    E já não existe mais!
    Pra que tanto orgulho
    Que essa gente traz,
    E se acaba nos entulhos!

    Não pense que há algo novo,
    Tudo já existiu no passado,
    Quando existia um povo
    Que não deixou registrado.

    Como não sabemos disso,
    No futuro seremos esquecidos
    Dum povo que está previsto
    Para um tempo mais evoluído.

    Um dia nós seremos apagados
    Da memória deste mundo,
    Nunca mais seremos lembrados
    Se não tivermos amor profundo.

    Então vale a pena viver
    Fazendo sempre o bem,
    Para quando a gente morrer
    Ser lembrado por alguém.

    Se nada de bom a gente fizer
    Será tudo riscado do livro,
    E quando Jesus de Nazaré
    Já tiver tudo concluído,

    Vai chamar pelo próprio nome,
    Todos vão se comparecer,
    Criança, jovem, mulher e homem
    E seu nome deve então aparecer.

    Por isso não se iluda
    Com esta vida material,
    Se há dificuldade peça ajuda
    Para não entrar no mal.

    Se já vivemos no sofrimento
    Praticando o bem,
    Imagina um vil pensamento
    Que não considera ninguém!

    Achamos a vida complexa,
    Por isso é maravilhosa assim.
    Quando fazemos as coisas certas
    Claro, vivemos sem pensar no fim.

    Mário Querino – Poeta de Deus

  8. Naeno Rocha disse:

    DECLARO AMAR-TE

    Por mim tudo permanecerá assim
    Até que se torne alguma coisa
    Que ninguém reconheça
    O meu amor sentido por ti.
    Porque tudo o que te dou é sempre isto
    Incansáveis e abusivas declarações de amor.
    Vejo na tua ausência
    A distância do sol
    Te amo porque tu em mim
    Responde por ti.
    Na minha calada tortura
    Que a ti provoco
    Torno-me incansável
    Feito um cantador.
    Feito o mundo
    Que não mais nos surpreende
    Qua traz o vento cheio de orações
    De arrependimento,
    De necessidade, prantos
    Das calamidades do amor assim.
    Porque encostei minha boca na boca da noite
    Horas em que estais esquecida
    E assim meu amor inoportuno
    Silente, só o coração a ouvir
    E minhas entranhas a se contraírem
    Quando não sou misterioso.
    E termino por falar que mais te amo
    Repetidas vezes ao dia.

    Naeno Rocha

  9. Naeno Rocha disse:

    MILAGRE

    Se da simplicidade de uma rosa
    Choram olhos, surgem amores,
    Homens desmsoronam-se, diante da formosa,
    E se iluminam olhos em cores,
    Multi pretos, castanhos, verdes, azuis e amarelos
    O que não poderíamos virmos a ser
    Se todos os corações
    Fossem de enxertados jarros de doces sementes delas
    E víssemos brotarem flores o tempo inteiro.
    Ninguém poderia queixar-se
    A nada ter para ofertarem,
    Pois por um gesto simples apenas
    Como meter a mão sob a camisa
    E retirr do seu jardim secreto
    Uma Bromélia, uma Paroara ainda orvalhadas.
    E nas convenções de guerra
    Os gestos que se praticassem
    Fosse uma mão pegar do peito
    Puxar do ápice do galho refeito, a flor,
    Espargindo aroma por toda a ONU,
    Entre os Árabes já convencidos
    De que o amor é bem mais simples
    Que os alardes da discórdia
    Tudo, pela rosa do arado do coração.

    Naeno Rocha

  10. Naeno Rocha disse:

    OS MEUS PROVEITOS

    Eu amo tudo o que fiz
    Porque me apontam agora
    E sabem do meu nome
    E se compõem de um tanto de mim.

    Eu amo o que não fiz
    Porque me apontam o jeito da feitura
    E minha cabeça racha-se em pensar
    Será mais bonito, terei mais sabido.

    E tudo o que eu fiz
    Para me felicitar ainda mais
    Se deram às pessoas do mundo
    E muitos delas falam de mim
    E sabem do meu nome.

    Tudo o que eu ainda não fiz
    Agora está pra ser feito
    E eu já tenho os modelos
    Um depósito cheio de manequins provadores
    E o que eu vou fazendo
    Vou sabendo em que cabeça caberá
    Como uma coroa encomendada.

    Naeno Rocha

  11. Roger disse:

    Gostaria de uma bibliografia critica dos poemas (liberdade e Arvore verde) de fernando pessoa Urgentee (trabalho de portugues)

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