Epicuro – Filósofo

Epicuro de Samos
* Atenas/Samos, Grécia – 341 a.C
+ 270 a.C

Falar mal de alguém, já é condenável. Agora, se esse alguém já morreu a dois mil anos e não se conhece o que ele escreveu, então, é imperdoável. Assim ocorre com relação ao filósofo grego Epicuro, cuja obra, poucos leram. Muitos hoje criticam sua filosofia que incentivava à busca do prazer, mas geralmente o fazem sem ler nada que ele escreveu, somente repassando adiante o que ouviram falar. A confusão reside no que Epicuro considerava como verdadeiro prazer:

“A doutrina de Epicuro entende que o sumo bem reside no prazer e, por isso, foi uma doutrina muitas vezes confundida com o hedonismo. O prazer de que fala Epicuro é o prazer do sábio, entendido como quietude da mente e o domínio sobre as emoções e, portanto, sobre si mesmo. É a própria Natureza que nos informa que o prazer é um bem. Este prazer, no entanto, apenas satisfaz uma necessidade ou aquieta a dor. A Natureza conduz-nos a uma vida simples. O único prazer é o prazer do corpo e o que se chama de prazer do espírito é apenas lembrança dos prazeres do corpo. O mais alto prazer reside no que chamamos de saúde. A função principal da filosofia é libertar o homem.”

Epicuro de Samos foi um filósofo grego do período helenístico. Seu pensamento foi muito difundido e, numerosos centros epicuristas se desenvolveram na Jônia, no Egito e, a partir do século I, em Roma, onde Lucrécio foi seu maior divulgador.
Epicuro, fundador da escola que tomou o seu nome, nasceu em Atenas, provavelmente, em 341 a.C., do ateniense Néocles, e foi criado em Samos. A mãe praticava a magia. Quando criança estudou com o platonista Panfilo por quatro anos e era considerado um dos melhores alunos. Ainda muito jovem partiu para Téos, na costa da Ásia Menor. Cedo dedicou-se à filosofia, sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. Com Nausífanes de Téos, discípulo de Demócrito de Abdera, Epicuro teria entrado em contato com a teoria atomista – da qual reformulou alguns pontos.

Certa vez ao ouvir a frase de Hesíodo, “todas as coisas vieram do caos”, ele perguntou: e o caos veio de que? Retornou para a terra natal em 323 a.C.. Sofria de cálculo renal, o que contribuiu para que tivesse uma vida marcada pela dor.

Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas, nos jardins da sua vila, que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores, discípulos e amigos. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos, pela maior parte perdidos. Faleceu em 270 a.C. com setenta anos de idade. O epicurismo teve, desde logo, rápida e vasta difusão no mundo romano, onde encontramos, sobretudo, Tito Lucrécio Caro – I século a.C. – o poeta entusiasta, autor de De rerum natura, que venerava Epicuro como uma divindade. A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista. A escola epicurista durou até o IV século d.C., mas teve escasso desenvolvimento, conforme o desejo do mestre, que queria os discípulos fiéis até a letra do sistema. A originalidade deveria manifestar-se na vida.

Epicuro foi pessoa fidalga e refinada, o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida, e fruir dessa formosura na própria existência pessoal. E foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática, feita de nobreza de sentimentos, senso refinado, gosto para a formosura, para a cultura superior. Em seus jardins, num sereno lazer, semelhante ao dos deuses, deu vida a uma sociedade genial, em que dominava o vínculo da amizade. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos.

A associação espalhou-se depois, mas conservou-se fortemente organizada, mediante uma estável constituição, ajudas materiais, cartas, missões. O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor; a sua filosofia foi considerada como uma religião, a sua doutrina, resumida em catecismos, a sua imagem, gravada nas jóias, em sua honra celebravam-se festas comemorativas, mensais e anuais. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois, houve, todavia, em todos os tempos e lugares, homens famosos, pertencentes a classes sociais elevadas, os quais aplicaram a sua doutrina à vida e dela fizeram a substância de sua arte.

Epicuro ensinou filosofia em Lâmpsaco, Mitilene e Cólofon até que em 306 a.C. fundou sua própria escola filosófica, chamada O Jardim. Lecionou em sua escola até a morte, em 271 a.C., cercado de amigos e discípulos. Tendo sua vida marcada pelo ascetismo, serenidade e doçura.

Filósofos Influenciados por Epicuro
Hermarchus, Lucretius, Thomas Hobbes, Jeremy Bentham, J. S. Mill, Thomas Jefferson, Friedrich Nietzsche, Karl Marx, Michel Onfray, Hadrian, Metrodorus of Lampsacus (the younger), Philodemus, Amafinius, Catius.

Dos seus escritos que chegaram até os nossos dias, existem três cartas: Carta a Heródoto, sobre física atômica; Carta a Pítocles, sobre os fenômenos celestes; e Carta a Meneceu (mais conhecida como Carta sobre a Felicidade), sobre a felicidade.


Vídeo – Para entender Epicuro

Filosofia e obra
O propósito da filosofia para Epicuro era conseguir a alegria, uma vida tranqüila caracterizada pela aponia, a ausência de dor e medo, e vivendo cercado de amigos. Ele pensava que a dor e o prazer eram a melhor maneira de medir o que era bom ou ruim, a morte era o fim do corpo e da alma e, portanto não devíamos temer os deuses. Das numerosas obras escritas pelo filósofo, só restaram três cartas que versam sobre a natureza, sobre os meteoros e sobre a moral, e uma coleção de pensamentos. Estas cartas, com os fragmentos, foram coligidas por Hermann Usener sob o título de Epicurea, em 1887. Por suas proposições filosóficas Epicuro é considerado um dos precursores do pensamento anarquista no período clássico.

A certeza
Segundo Epicuro, para atingir a certeza é necessário confiar naquilo que foi recebido passivamente na sensação pura e, por conseqüência, nas idéias gerais que se formam no espírito (como resultado dos dados sensíveis recebidos pela faculdade sensitiva).

O atomismo
Epicuro defendia ardorosamente a liberdade humana e a tranqüilidade do espírito. O atomismo acreditava o filósofo, poderia garantir ambas as coisas desde que modificado. A representação vulgar do mundo, com seus deuses, o medo dos quais fez com que se cometessem os piores atos, é obstáculo à serenidade. Todas as doutrinas filosóficas, salvo o atomismo, participam dessas superstições.
No sistema epicurista, os átomos se encontram fortuitamente e esta é a grande modificação em relação ao atomismo de Demócrito (onde o encontro dos átomos é necessário). É este encontro fortuito que garante a liberdade (se assim não fosse, tudo estaria sob o jugo da Natureza) e garante a explicação dos fenômenos, sua elucidação, fazendo com que possam ser explicados racionalmente. Assim, ao compreender como opera a Natureza, o homem pode livrar-se do medo e das superstições que afligem o espírito.

O prazer
A doutrina de Epicuro entende que o sumo bem reside no prazer e, por isso, foi uma doutrina muitas vezes confundida com o hedonismo. O prazer de que fala Epicuro é o prazer do sábio, entendido como quietude da mente e o domínio sobre as emoções e, portanto, sobre si mesmo. É a própria Natureza que nos informa que o prazer é um bem. Este prazer, no entanto, apenas satisfaz uma necessidade ou aquieta a dor. A Natureza conduz-nos a uma vida simples. O único prazer é o prazer do corpo e o que se chama de prazer do espírito é apenas lembrança dos prazeres do corpo. O mais alto prazer reside no que chamamos de saúde. A função principal da filosofia é libertar o homem.

Classificação dos desejos segundo Epicuro

Desejos naturais

Desejos frívolos

Necessários

Simplesmente naturais

Artificiais

Irrealizáveis

Para a felicidade (ataraxia)

Para a tranqüilidade do corpo (proteção)

Para a vida (nutrição, sono)

Variações de prazeres, busca do agradável

Exemplo: riqueza, glória

Exemplo: imortalidade

O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica
Fonte: O mundo da Filosofia
Também o epicurismo – como o estoicismo – divide a filosofia em lógica, física e ética; também subordina a teoria a pratica, a ciência à moral, para garantir ao homem o bem supremo, a serenidade, a paz, a apatia. A filosofia é a arte da vida. Precisamente, é tarefa do conhecimento do mundo, da física – diz Epicuro – libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida, da morte, do além-túmulo, de Deus e fazer com que ele atue de conformidade. Portanto, recorre Epicuro à física atomista, mecanicista, democritiana, pela qual também os deuses vêm a ser compostos de átomos, e – habitadores felizes de intermundos – desinteressam-se por completo dos homens. Aliás, não é excluído o fato de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino. Igualmente, a alma – formada de átomos sutis, mas sempre materiais – perece com o corpo; daí, nenhuma preocupação com a morte, nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte, como com aquilo que precede o nascimento.

A gnosiologia (lógica, canônica) epicurista é rigorosamente sensista. Todo o nosso conhecimento deriva da sensação, é uma complicação de sensações. Estas nos dão o ser, indivíduo material, que constitui a realidade originária. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas, que seriam imagens em miniatura das coisas, arrancar-se-iam destas e chegariam até a alma imediatamente, ou mediatamente através dos sentidos. Dada tal gnosiologia coerentemente sensista, é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação, a percepção sensível, que é imediata, intuitiva, evidente.

Como a sensação, a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teorético, da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático.

Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista, a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer, resolve-se numa física. Epicuro, seguindo as pegadas de Demócrito, concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros, eternos, imutáveis, invisíveis, homogêneos, indivisíveis (átomos), iguais qualitativamente e diversos quantitativamente – no tamanho, na figura, no peso. Também segundo Epicuro, os átomos estão no espaço vazio, infinito, indispensável para que seja possível o movimento e, conseqüentemente, a origem e a variedade das coisas.

Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. Entretanto, no movimento uniforme retilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos, sem causa, espontâneos (clinamen); daí derivam encontros e choques de átomos e, por conseqüência, os vórtices e os mundos. Estes, de fato, não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e retilíneos para baixo – como pensava Demócrito. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio, que é uma simples combinação da contingência, do indeterminismo universal. O universo não é concebido como finito e uno, mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos, espalhado pelo espaço infindo, sujeitos ao nascimento e à morte. Nesse mundo o homem, sem providência divina, sem alma imortal, deve adaptar-se para viver como melhor puder. Nisto estão toda a sabedoria, a virtude, a moral epicuristas.

A Moral e a Religião
A moral epicurista é uma moral hedonista. O fim supremo da vida é o prazer sensível; critério único de moralidade é o sentimento. O único bem é o prazer, como o único mal é a dor; nenhum prazer deve ser recusado, a não ser por causa de conseqüências dolorosas, e nenhum sofrimento deve ser aceito, a não ser em vista de um prazer, ou de nenhum sofrimento menor. No epicurismo não se trata, portanto, do prazer imediato, como é desejado pelo homem vulgar; trata-se do prazer imediato, refletido, avaliado pela razão, escolhido prudentemente, sabiamente, filosoficamente. É mister dominar os prazeres, e não se deixar por eles dominar; ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar.

A filosofia toda está nesta função prática. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível, mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais, para os quais não há lugar no seu sistema, e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. O prazer espiritual diferenciar-se-ia do prazer sensível, porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo, que é unicamente presente. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais, como os mais altos prazeres. Aqui, porém, se ele faz uma afirmação profunda, está certamente em contradição com a sua metafísica materialista.

Em que consiste, afinal, esse prazer imediato, refletido, racionado? Na satisfação de uma necessidade, na remoção do sofrimento, que nasce de exigências não satisfeitas. O verdadeiro prazer não é positivo, mas negativo, consistindo na ausência do sofrimento, na quietude, na apatia, na insensibilidade, no sono, e na morte. Mas precisamente ainda, Epicuro divide os desejos em naturais e necessários – por exemplo, o instinto da reprodução; não naturais e não necessários – por exemplo, a ambição. O sábio satisfaz os primeiros, quando for preciso, os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito; renuncia os segundos, porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação, perturbam a serenidade e a paz; mas ainda renuncia os terceiros, pelos mesmos motivos.

Assim, a vida ideal do sábio, do filósofo, que aspira a liberdade e à paz como bens supremos, consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis, aos prazeres positivos, físicos e espirituais; e, por conseguinte, em vigiar-se, no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento, da emoção, da paixão. Não sofrer no corpo, satisfazendo suas necessidades essenciais, para estar tranqüilo; não ser perturbado no espírito, renunciando a todos os desejos possíveis, visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade, que é precisamente liberdade e paz.

Em realidade, Epicuro, se ensina a renúncia, não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais, estéticos e intelectuais, a amizade genial, que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical, bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral, que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. O mundo e a vida são um espetáculo: melhor é ser espectadores e atores, melhor é conhecer do que agir. No entanto, o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. a virtude dianoética de Aristóteles), mas também na ação (cfr. a virtude ética de Aristóteles), e precisamente em uma vida curta e refinada, esteticamente, a maneira grega, no isolamento do mundo, do vulgo, na unidade da amizade, na conversa arguta e delicada: numa palavra, vivendo ocultamente.

É de fato, nos jardins de Epicuro, a vida se nos inspirava mais requintados costumes, preenchida com as mais nobres ocupações – como na Academia e no Liceu. Almejava, no entanto, dar uma unidade estética e racional à vida, mais do que ao mundo. O epicurismo, portanto, considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade, representa, inversamente, uma norma de vida ordinária e espiritual, até um verdadeiro pessimismo e ascetismo, praticamente ateu.

A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte, pois todo mal e todo bem se acham na sensação, e a morte é a ausência de sensibilidade, portanto, de sofrimento. Nunca nos encontraremos com a morte, porque quando nós somos ela não é, quando ela é nós não somos mais, Epicuro, porém, não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos.
Dado este conceito da vida concebida como liberdade, paz e contemplação, é natural que Epicuro seja hostil ao matrimônio e à família, aliás, geralmente desvalorizado no mundo grego. Epicuro é também hostil à atividade pública, à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia.

Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático, Epicuro admite a divindade transcendente, diversamente do imanentismo estóico. A prova da existência da divindade estaria no fato de que temos na mente humana a sua idéia, que não pode ser senão cópia de realidade. Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses – como os fantasmas de todas as outras coisas – desceriam até nós dos intermundos, especialmente durante o sono.

Os deuses de Epicuro são muitos, constituídos de átomos etéreos, sutis e luzentes, dotados de corpos luminosos, tendo forma humana belíssima, imortais – diversamente dos deuses estóicos – beatos, contemplados – segundo ideal grego da vida – sempre acordados e sentados em jovial convívio, sorvendo ambrósia, conversando em grego! Mas – como as idéias transcendentes de Platão e ato puro de Aristóteles – não atuam sobre o mundo e a humanidade, para não serem contaminados, perturbados. Vivem, portanto, fora do mundo e dos mundos, nos espaços entre mundo e mundo, na beata solidão dos intermundos, escapando destarte a fatal destruição dos mundos. É uma teologia refinada de ateniense e de artista, que vive no mundo de estátuas divinas, encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida.

Epicuro venera os deuses, não para receber auxílio, mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida, ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helênico. Então, se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática, proporcionam-lhe, contudo o bem da elevação, que importa na contemplação do ideal. É preciso venerá-los para imitá-los. Deste modo, Epicuro, proclamado ateu, teria praticado – entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento – o mal da religião, uma religião desinteressada, uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos.

Ceticismo e Ecletismo
O ceticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes, especialmente do que o estoicismo, com os fins práticos de uma filosofia da renúncia, da indiferença, do sossego. É o ceticismo a última palavra da sabedoria antiga, desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva, embora imperfeita, incoerente. O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa, negando todo absoluto e transcendente. O ceticismo visa sempre um fim último ético-ascético, sem qualquer metafísica, mesmo negativa.

Através da mais absoluta indiferença, prática e teorética, procura-se realizar finalmente tão almejada paz. A felicidade não é mais uma coisa positiva, nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber, mas pode ser alcançada unicamente negando o saber. Chega-se, destarte, à destruição de todos os valores. Substancialmente, a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado, mas não é atacada pelo ceticismo. Persiste nos céticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objetividade da ciência: o ser, o objeto, existem, mas não se podem conhecer por falta de meios.

Diz Argesilau: “Deus unicamente conhece a verdade, que é inacessível ao homem”.

O ceticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a.C., mais ou menos), cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon. Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades. E, enfim, surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico, em princípios da era vulgar. O ceticismo critica o conhecimento sensível, bem como o intelectual, e também a opinião. A primeira escola cética serve-se, geralmente, do relativismo sofista; a segunda afirma-se de modo original graças a Carnéades; a terceira, de tendência pirroniana, faz uso da dialética eleática, da tese e da antítese.

O ecletismo apresenta-se como um sistema afim, embora imensamente inferior ao ceticismo. Também o ecletismo, como o ceticismo, substitui ao critério da verdade o da verossimilhança, embora acriticamente. O nem – nem dos céticos é mudado em ele pelos ecléticos; se nada é verdadeiro, tudo vale igualmente. E isto basta aos fins ético-empíricos dos ecléticos, semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins ético-ascéticos dos céticos. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes, não filosóficos, que concebem a filosofia popularmente, moralisticamente, ou não têm a força da crítica, nem a da afirmação, que implica sempre numa crítica, pois a filosofia é escolha, construção, sistema, organismo especulativo, e não justaposição mecânica de peças sem vida.

O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência, no período helenista e depois ainda, de várias escolas filosóficas, que surgiram em tempos diferentes, e por demais despersonalizadas, esvaziadas do seu conteúdo original, característico – como acontece nos períodos de decadência especulativa – de sorte que se torna fácil a síntese eclética, feita de abstratas generalidades ou de particularidades secundárias.

O pragmatismo eclético foi, enfim, favorecido pelo contato do pensamento grego com a romanidade dominante, inteiramente voltada para a prática e para a ação, cuja grande obra, portanto será não a filosofia, e sim o jus.
O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou, melhor ainda, como uma suma de elementos estóicos, acadêmicos e também Peri patéticos. Contém muito menos elementos céticos e epicuristas, dada a natureza crítica do ceticismo, e a coerência materialista do epicurismo. Temos precisamente, em ordem cronológica, um ecletismo estóico, depois acadêmico e, enfim, Peri patético, segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo.

Frasário

  • A justiça é a vingança do homem em sociedade, como a vingança é a justiça do homem em estado selvagem.
  • Nenhum prazer é em si um mal, porém certas coisas capazes de engendrar prazeres trazem consigo maior número de males que de prazeres.
  • Os prazeres do amor jamais nos serviram. Devemos nos considerar felizes se não nos aborrecerem.
  • Tu, que não és senhor do teu amanhã, não adies o momento de gozar o prazer possível! Consumimos nossa vida a esperar e morremos empenhados nessa espera do prazer.
  • Aquele que melhor goza a riqueza é aquele que menos necessidade dela tem.
  • O prazer de fazer o bem é maior do que recebê-lo.
  • A necessidade é um mal, mas não há necessidade de viver nela.
  • Se queres a verdadeira liberdade, deves fazer-te servo da filosofia.
  • Nada é bastante ao homem para quem tudo é demasiado pouco.
  • O desejo é a causa de todos os males.
  • O prazer não é um mal em si; mas certos prazeres trazem mais dor do que felicidade.
  • Não temos tanta necessidade da ajuda dos amigos quanto da certeza da sua ajuda.
  • Só há um caminho para a felicidade. Não nos preocuparmos com coisas que ultrapassam o poder da nossa vontade.
  • O homem sereno procura serenidade para si e para os outros.
  • Entre os homens, na maioria dos casos, a inatividade significa torpor, e a atividade, loucura.
  • A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais.
  • Queres ser rico? Pois não te preocupes em aumentar os teus bens, mas sim em diminuir a tua cobiça.
  • Cada um deixa a vida como se tivesse acabado de começá-la.
  • As pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o presente e encaram o futuro sem medo.
  • O justo é tranquilíssimo, o injusto é sempre muito solícito.
  • A amizade e a lealdade residem numa identidade de almas raramente encontrada.
  • É estupidez pedir aos deuses aquilo que se pode conseguir sozinho.
  • É tolo pedir aos deuses o que se pode conseguir sozinho.
  • A liberdade é o maior fruto da auto-suficiência
  • Não se pode não ter medo quando se inspira o medo.
  • Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades.
  • Todo o desejo incômodo e inquieto se dissolve no amor da verdadeira filosofia.
  • Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma.
  • E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou, assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou à hora de ser feliz.
  • Assim como realmente a medicina em nada beneficia se não liberta dos males do corpo, assim também sucede com a filosofia se não liberta das paixões da alma.
  • Não pode afastar o temor que importa para aquilo a que damos importância quem não saiba qual é a natureza do universo e tenha a preocupação das fábulas míticas. Por isso não se podem gozar prazeres puros sem a ciência da natureza.
  • Os átomos encontram-se eternamente em movimento contínuo, e uns se afastam entre si uma grande distância, outros detêm o seu impulso, quando ao se desviarem se entrelaçam com outros ou se encontram envolvidos por átomos enlaçados ao seu redor. Isto o produz a natureza do vazio, que separa cada um deles dos outros, por não ter capacidade de oferecer resistência. Então a solidez própria dos átomos, por causa do choque, lança-os para trás, até que o entrelaçamento não anule os efeitos do choque. E este processo não tem princípio, pois que são eternos os átomos e o vazio.
  • A serenidade espiritual é o fruto máximo da justiça.
  • Toda a amizade é desejável por si própria, mas inicia-se pela necessidade do que é útil.
  • Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto nem sequer é Deus. Se pode e quer, que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então existência dos males? Por que razão é que não os impede?
  • Se queres enriquecer Pítocles, não lhe acrescentes riquezas: diminui-lhe os desejos.
  • Nossa alma é composta de átomos, por isso é mortal como nosso corpo, nos é dado viver uma só vez. As multidões se consolam com a esperança de outra vida melhor.
  • A morte é meramente a separação dos átomos que nos compõe. Não anuncia, portanto nem castigos nem recompensas para os homens. Não devemos temer nem a morte e menos ainda, as punições infernais inventadas pela ignorância e pela superstição.
  • Aquele que inspira medo aos outros não está, ele próprio, livre desse medo.
  • Qualquer argumentação filosófica que não tenha como preocupação principal abordar terapeuticamente o sofrimento humano é inútil.
  • Somente o justo desfruta de paz de espírito.
  • Faz tudo como se alguém te contemplasse.
  • O essencial para a nossa felicidade é a nossa condição íntima, e desta somos nós os senhores.
  • Um homem é rico em proporção às coisas que pode dispensar.
  • O sentido de um ser e sentir prazer seja ele qual for ao lazer no paladar e no amor desde que se esse realize com prazer. Os prazeres do amor jamais nos serviram. Devemos nos considerar felizes se não nos aborrecem.

A Carta a Meneceu
Carta sobre a felicidade

1. Sempre é tempo de filosofar, sejamos velhos ou jovens
Epicuro saúda Meneceu.
Quem é jovem não espere para fazer filosofia; quem é velho não se canse disso. Com efeito, ninguém é imaturo ou superado em relação à saúde da alma. Quem diz que ainda não é hora de fazer filosofia, ou que à hora já passou, parece-se com quem diz, em relação à felicidade, que ainda não é o momento dela, ou que ele já passou. Por isso, tanto o jovem como o velho devem fazer filosofia; um para que, embora envelhecendo, permaneça sempre jovem de bens por causa do passado, o outro para que se sinta jovem e velho ao mesmo tempo, para que não tema o futuro. É preciso, portanto, ocupar-se de tudo o que leva à felicidade, se é fato que quando ela está conosco, possuímos tudo, e que, quando não está conosco, fazemos de tudo para obtê-la.

2. Os deuses existem e são imortais e felizes
Pratica e medita aquilo que te ensinei continuamente, convicto de que se trata do abecê para uma vida feliz. Em primeiro lugar, considera que a divindade é um vivente incorruptível e feliz, como a noção comum do divino costuma aceitar, e não lhe atribuas qualquer coisa estranha à imortalidade ou de pouca consonância com a felicidade. Em relação à divindade, pensa tudo o que serve para preservar sua felicidade unida com a imortalidade. Os deuses existem de fato e o conhecimento que deles se tem é evidente. Eles, porém, não são como a maioria os crê, pois não continuam coerentemente a considerá-los como os concebem. Ímpio não é quem nega os deuses como a maioria os quer, e sim aquele que atribui aos deuses às opiniões que deles tem a maioria. Com efeito, as opiniões da maioria sobre os deuses não são prolepses, mas enganosas hipolepses (Conceito inadequado, fundado sobre a opinião corrente). Daqui se segue que dos deuses se fazem derivar para os homens as razões de todo maior dano e de todo bem; os deuses, com efeito, entregues continuamente às suas virtudes, são queridos por todos os seus semelhantes, mas rejeitam como estranho tudo o que não é semelhante a eles

3. O que é a morte para o homem
Habituados a considerar que a morte é nada para nós, do momento que todo bem e todo mal reside na sensação, e a morte é privação de sensação. Por isso, a noção correta de que a morte é nada para nós, torna alegre o fato de que a vida seja concluída com a morte, não lhe concedendo um tempo infinito, e sim lhe subtraindo o desejo da imortalidade. Não há nada de terrível na vida para quem tenha compreendido bem que não há nada de terrível no fato de não viver mais. Por isso, é tolo quem diz temer a morte, não porque trará dor ao momento em que ela se apresentar a nós, mas porque nos faz sofrer na sua espera; com efeito, tolamente pode causar sofrimento na espera, ao mesmo tempo em que não faz sofrer com sua presença.

Portanto, o mal que nos faz ter arrepios, ou seja, a morte é nada para nós, a partir do momento que, quando vivemos, a morte não existe, e quando, ao contrário, existe a morte, nós não existimos mais. A morte, portanto, não se refere a nós, nem quando estamos vivos, nem quando estamos mortos, porque para os vivos ela não existe, e os mortos, ao contrário, não existem mais. Os outros, por sua vez, fogem por vezes da morte como do pior dos males, outras vezes a [procuram] como alívio [das desgraças] da vida. [O sábio, ao invés, nem rejeita a vida], nem teme o não viver mais; com efeito, a vida não lhe é molesta, e ele também não crê que a morte seja um mal. Assim como para o alimento, ele não se serve dele em abundância, mas escolhe o melhor; também não procura gozar o tempo mais longo, mas o melhor.

4. Indicações sobre o modo de entender a vida e o futuro
E quem exorta o jovem a viver bem, e o velho a concluir bem a sua vicissitude mortal é um tolo, não só por tudo o que é digno de aceitar da vida, mas também porque uma só é a reta preparação para bem viver e para bem morrer. Ainda pior é o que diz: “[...] não nascer é ótimo, mas, se nascidos, passar o mais depressa possível pelas portas do Hades”. (Teognides (séc. VI a.C.))
Se tal pessoa está mesmo convencida do que diz, por que não morre imediatamente? É seu legítimo direito fazê-lo, se de fato está convicto disto; ao contrário, se quer brincar, age como tolo em coisas que não comportam brincadeira. É preciso lembrar que o futuro não é inteiramente [nosso], nem inteiramente não nosso, para não esperar que absolutamente tenha de se realizar, nem desesperar, como se absolutamente não tenha de se realizar.

5. Como é preciso julgar os prazeres e as dores
É necessário depois pensar por analogia que alguns desejos são naturais, outros vãos; entre os naturais, alguns são necessários, outros são simplesmente naturais. Depois, dos necessários alguns são tais em relação à felicidade, outros são assim em relação ao bem-estar físico, outros ainda em relação à própria vida. Com efeito, uma sólida noção de desejo sabe guiar cada escolha e cada rejeição para a saúde do corpo e para a ataraxia da alma, uma vez que justamente este é o fim da vida feliz. Com efeito, justamente com este escopo fazemos de tudo, a fim de não experimentar nem sofrimento nem perturbação. Uma vez que isto se verifique em nós, toda tempestade da alma se aplaca, porque o ser humano não sabe que outra coisa desejar que lhe falte, nem que outra coisa pedir para tornar pleno o bem da alma e do corpo. Sentimos necessidade do prazer, quando sofremos pela sua falta, [quando, ao contrário, não sofremos], então não temos nenhuma necessidade do prazer.

Por estes motivos, dizemos que o prazer é princípio e termo último de uma vida feliz. Com efeito, sabemos que o prazer é o bem primeiro e conatural a nós, a partir do prazer permitimos toda escolha e toda rejeição, e ao prazer nos reportamos para avaliar todo bem com a sensação assumida como norma. E, a partir do momento que este é o bem primeiro e conatural a nós, justamente por isto não aceitamos todo prazer, mas acontece o caso de que descuramos muitos deles, quando disso provier um incômodo maior; e assim consideramos que muitas dores são preferíveis aos prazeres, no caso que um prazer maior nos toque depois deter resistido longamente ao sofrimento. Todos os prazeres, portanto, porque têm uma natureza congênita a nós, são um bem, todavia, porém, nem todos devem ser aceitos. Da mesma forma, toda dor é um mal, todavia, porém, nem todas são de tal gênero que delas devêssemos fugir sempre. É preciso julgar tudo isso em base ao cálculo e a uma visão geral da utilidade e do dano. Com efeito, podemos experimentar que o bem, por certo tempo, é mal, e, vice-versa, que o mal pode ser um bem.

6. A independência em relação aos desejos
Também consideramos um grande bem a independência em relação aos desejos, não com o escopo de gozar apenas um pouco, mas porque se não temos o muito, nos possa bastar o pouco, corretamente convictos de que melhor goza da abundância quem menos sente a sua necessidade, que tudo o que é requerido por natureza é facilmente obtenível, e tudo o que, ao contrário, é vão, dificilmente se adquires, que os alimentos frugais produzem um prazer idêntico ao de uma farta mesa, quando eliminarmos a dor da necessidade, e que pão e água oferecem o máximo dos prazeres, quando deles se serve quem deles tem necessidade.

7. Como devemos entender o prazer e a sua ligação com a virtude
Portanto, o hábito de um alimento simples e de modo nenhum refinado, de um lado confere saúde, do outro torna o homem alegre nas ocupações necessárias da vida, e se nós nos aproximamos de vem em quando, a um teor de vida suntuoso, nos dispomos melhor em relação a ele, e ficamos sem medo do destino. Por conseguinte, quando dizemos que o prazer é o fim último, não pretendemos falar dos prazeres dos dissolutos e nem dos que consistem na crápula, como afirmam aqueles que não conhecem, não partilham ou mal entendem nossos princípios, e sim, ao contrário, pretendemos falar da falta de dor no corpo e da falta de perturbação na alma. Com efeito, não são os simpósios ou os banquetes contínuos, o aproveitar de jovenzinhos e mulheres, ou o peixe e tudo o que pode oferecer uma rica mesa que levam a uma existência feliz, e sim uma límpida capacidade de raciocínio que esteja consciente de cada aceitação e de cada rejeição, e elimine a vacuidade das opiniões, pelas quais a pior das perturbações surpreende a alma.

De tudo isso, o princípio e o bem supremo é a prudência que, justamente por isso, constitui algo de ainda maior valor da filosofia. Dela se originam todas as outras virtudes, e ela ensina como não é possível uma vida feliz sem que seja sábia, bela e justa, [e também que seja sábia, bela e justa] sem que seja feliz. As virtudes, com efeito, são conaturais à vida feliz, que, por sua vez, não é separável das virtudes.

8. A causa do bem e do mal está no próprio homem
Por outro lado, a quem consideras melhor do que aquele que tem idéias santas sobre os deuses, que não tem medo algum da morte, que conhece a fundo o fim natural, que tenha firme consciência que é fácil realizar e prático alcançar o limite extremo do bem, enquanto o limite extremo do mal tem tempo e penas breves? Ou de quem proclama que [o destino], por alguns considerado senhor absoluto de tudo [...]? [...] em parte acontecem por necessidade [… [, em parte, ao contrário, pelo capricho da sorte, outros ainda estão em nosso poder, porque se constata que a necessidade é irresponsável, a sorte é instável, ao passo que aquilo que está em nós é livre e, por isso, ligado a zombaria e a elogio. Na realidade, era melhor ater-se ao mito que circunda os deuses, em vez de servir o destino dos físicos. Com efeito, o primeiro subentende a esperança de aplacar os deuses, honrando-os; o segundo, ao contrário, conserva toda a implacabilidade do necessário.

[O sábio] não crê que a sorte seja um deus, como pensam os demais (com efeito, nada é realizado desordenadamente pela divindade), e nem que ela seja uma causa vaga; com efeito, o sábio [não] pensa que bem e mal, no que se refere à vida, sejam concedidos aos homens pela fortuna, e que, todavia o início dos grandes bens e dos grandes males se encontre sob a influência dela. Ele pensa finalmente que é melhor ser desafortunados com um pouco de sabedoria, ao invés de afortunados sem qualquer sabedoria, porque nas coisas humanas é melhor que uma reta decisão [não] seja coroada pela fortuna, em vez de [uma decisão errada] o ser.

Rumina contigo mesmo, dia e noite, estas argumentações e outras ainda semelhantes a elas, discute também com quem está próximo de tuas posições.
Epicuro, Cartas e máximas.

Carta a Heródoto

Dr. Joaquim José de Moraes Neto
Nota introdutória: para a tradução desta Antologia, servimo-nos do texto grego CARTA A HERÓDOTO da Loeb Classical Library, confrontado com o texto recente da editora Rizzoli em suas respectivas traduções, bem como nas de Maurice Solovine e de Margherita Innardi Parente. Essas obras estão elencadas na Bibliografia.

Por onde começar a filosofar
Como são muitos, caro Heródoto, os que não estão em condições de estudar com atenção tudo que escrevi sobre a natureza, nem de examinar atentamente meus escritos mais extensos, compus um resumo de – toda minha filosofia, para que guardem bem na memória as doutrinas principais e possam, na medida em que se consagrarem ao estudo da natureza, recorrer a ela em seus pontos mais importantes. Até aqueles que estão suficientemente avançados na investigação do Universo devem manter na memória o esquema fundamental de toda a doutrina.
Pois, da visão de conjunto, sempre teremos necessidade, mas não ocorre o mesmo com os pormenores. Por conseguinte, é preciso, de um lado, progredir continuamente na investigação do Universo e, de outro, fixar na memória aquilo que é necessário para se ter uma visão das coisas principais.

Obter-se-á assim, uma vez que as características principais terão sido bem compreendidas e memorizadas, um conhecimento completo dos pormenores. Pois mesmo aquele que é perfeitamente instruído tirará do conhecimento completo e preciso esta vantagem capital de manejar as noções com penetração, exprimindo todas as coisas em elementos simples e em fórmulas. Não se pode conhecer a massa acumulada pelo estudo perseverante do Universo sem ser capaz, ao mesmo tempo, de abraçar pelo espírito, por meio de fórmulas breves, os detalhes explorados cuidadosamente.

Dado pois que tal método é útil a todos os que se consagram às pesquisas físicas [...], compus para ti esse resumo e exposição elementar de minhas doutrinas. Em primeiro lugar, caro Heródoto, é preciso esclarecer o que está no fundo das palavras, para que possamos nelas nos apoiar para formular um juízo sobre as opiniões, as questões em exame ou que levaram a um impasse, de modo a que todas as coisas não permaneçam incertas para nós e nos obriguem a discuti-las indefinidamente. Senão, só possuiríamos palavras vazias. É, com efeito, necessário que o significado primitivo de cada palavra seja posto em evidência e não necessite mais de provas, se queremos possuir algo ao qual possamos relacionar o objeto em discussão ou o assunto de dúvida ou a opinião. Ademais, é preciso observar de uma maneira completa as sensações e as noções reais, sejam do espírito ou de outro critério, e mesmo as afeições dominantes, a fim de poder, com sua ajuda, dar indicações sobre o que está em suspenso e sobre o invisível.

O fundamento invisível: átomos e vazio
Estabelecidos esses pontos, convém agora fixar a atenção nas coisas invisíveis. Em primeiro lugar, nada nasce do nada; de outra forma, tudo poderia nascer de tudo sem necessidade de nenhuma semente. E se aquilo que desaparece tivesse sido reduzido ao não-ser, todas as coisas teriam perecido, dado que aquelas em que teriam se dissolvido não seriam nada. O Universo sempre foi o mesmo que é agora e será o mesmo por toda eternidade. Com efeito, não há nada em que ele possa transformar-se, pois não existe nada fora do Universo que possa nele penetrar e provocar uma mudança.

O Universo está constituído de corpos e de vazio. Que os corpos existem, a sensação o atesta em toda ocasião, e é necessariamente em conformidade com ela que fazemos, pelo raciocínio, conjecturas sobre o invisível… Se, por outro lado, não houvesse o que chamamos de vazio, espaço ou natureza impalpável, os corpos não teriam onde se localizar nem onde se mover; é porém evidente que se movem. Nada se pode conceber, além dessas coisas, nem pelo conceito ou de forma análoga, que possa ser tomado por substâncias perfeitas e não pelo que chamo de atributos ou acidentes destas últimas.

Entre os corpos, há os que são compostos e outros dos quais os compostos são constituídos. Estes últimos são indivisíveis e imutáveis, se não quisermos que todas as coisas sejam reduzidas ao não-ser, mas que permaneçam, após a dissolução dos compostos, elementos resistentes de uma natureza compacta e que não possam, de nenhuma maneira, ser dissolvidos. Portanto, os princípios indivisíveis são necessariamente as substâncias dos corpos.

O Universo é infinito.
Com efeito, o que acaba tem uma extremidade, mas esta é determinada em relação a algo que lhe é externo. De modo que, se ele não tem extremidade, não tem fim, e se ele não tem fim, não é finito, e sim infinito. O Universo &ainda infinito quanto à quantidade de corpos e à extensão do vazio. Pois, caso o vazio fosse infinito e o número de corpos finito, estes não permaneceriam em lugar algum, mas seriam transportados e dispersados pela imensidão infinita do vazio, já que, sem se entrechocarem, careceriam de pontos de apoio e não seriam rebatidos. Se, por outro lado, o vazio fosse limitado, não haveria lugar para conter os corpos em número infinito. Ademais, os corpos indivisíveis e compactos, dos quais os compostos são formados e aos quais se reduzem, são de uma variedade indeterminável de formas.
Com efeito, não poderiam resultar tantas variedades de formas em número limitado.

Cada forma é representada por um número infinito de átomos; quanto à diversidade das formas, seu número não é absolutamente infinito, mas somente indefinido, a menos que se pretenda considerar igualmente o número de átomos como podendo estender-se ao infinito. Os átomos movem-se continuamente desde sempre: uns (ao entrechocar-se) afastam-se para longe dos outros; outros, ao contrário, entram em vibração tão logo aconteça de estarem ligados por entrelaça mento ou quando estão envoltos por átomos próprios a entrelaçar-se. Está na natureza do vazio separar os átomos uns dos outros, já que não pode fornecer-lhes um suporte e a dureza inerente aos átomos os faz rebaterem-se com o choque, à medida que o entrelaçamento lhes permite retornar, após o choque, ao estado anterior. Não há começo para esse processo, dado que os átomos e o vazio existem pela eternidade. A breve exposição de todos esses fatos, dignos de serem guardados na memória, oferece um plano suficiente para a reflexão sobre a natureza das coisas.

Da mesma forma, os mundos são em número infinito, tanto os que se parecem com o nosso quanto os que dele diferem. Com efeito, os átomos, sendo em número infinito, como acabou de ser demonstrado, são também levados para extremamente longe. Pois esses átomos que dão origem a um mundo ou que o constituem não se esgotam na formação de um só mundo ou de um em número finito de mundos, sejam eles semelhantes ou diferentes do nosso. Nada, por conseguinte, opõe-se à existência de uma infinidade de mundos.

Os simulacros
Há também imagens com a mesma forma dos corpos sólidos, que se distinguem dos fenômenos por sua extrema finura. De nenhuma forma é impossível que tais emanações se produzam na atmosfera, nem que haja condições favoráveis para a produção de formas ocas ou tênues, nem ainda que os eflúvios mantenham a posição relativa e a ordem que tinham nos objetos reais. Chamamos essas imagens de simulacros. Em seu movimento através do vazio, eles percorrem, se nenhum obstáculo devido à colisão de átomos intervier, qualquer distância imaginável num tempo imperceptível. Pois a resistência nos aparece como lentidão e a não resistência como velocidade. Ademais, é preciso acrescentar que a gênese dos simulacros ocorre com a rapidez do pensamento e que a emanação da superfície dos corpos é contínua, sem que nenhuma diminuição seja visível porque a perda é recuperada.

Os simulacros conservam por muito tempo a ordem e a posição dos átomos no objeto do qual emanam, se bem que possam, por vezes, embaralhar-se e, como não é necessário que formem uma representação compacta, agrupam-se rapidamente na área circundante. Fenômenos desse gênero podem também se produzir de muitas outras maneiras. Nada disso está em contradição com o testemunho dos sentidos se, com a devida atenção, consideramos o modo como os estímulos sensórios nos fazem receber a imagem dos objetos externos. Convém ainda notar que vemos as formas e pensamos porque algo dos objetos exteriores penetra em nós. Pois as coisas não poderiam, por intermédio do ar que se encontra entre nós e elas, nem por meio de raios luminosos ou de quaisquer outras emanações que iriam de nós até elas, imprimir-nos suas cores e suas formas tão bem quanto através de certas cópias que delas se destacam e se assemelham pela cor e pela forma e que, segundo seu tamanho apropriado, penetram em nossos olhos ou em nosso espírito.

Elas se movem muito rapidamente e, por essa razão, reproduzem a imagem de um todo coerente, mantendo com ele a relação natural graças à pressão uniforme que advém da vibração dos átomos no interior do corpo sólido. E qualquer que seja a imagem que recebemos imediatamente pelo espírito ou pelos sentidos, de uma forma ou de atributos, é a forma do objeto real produzida pela freqüência sucessiva ou a lembrança de um simulacro. Mas o falso julgamento e o erro residem sempre naquilo que é acrescentado pela opinião.

As imagens que vemos, por exemplo, num espelho, as que aparecem durante o sono, as que estão contidas em certas noções do entendimento ou em outros critérios, não teriam semelhança com os objetos chamados reais se estes não as emitissem. E o erro não existiria se não experimentássemos, em nosso interior, um certo movimento que está, decerto, ligado à faculdade imaginativa, mas que, entretanto, apresenta uma particularidade distintiva. Se esta não for confirmada ou infirmada, estamos cometendo erro; mas se esta for confirmada ou não for infirmada, estamos certos. Importa muito reter esse princípio para que os critérios evidentes não sejam destruídos e que o erro, sendo reafirmado como uma verdade, não ponha tudo em desordem.

Também a audição tem por causa uma corrente que parte do objeto que produz um fenômeno, um som, um barulho ou uma afecção auditiva qualquer. Essa corrente se propaga por partes semelhantes que guardam entre si uma certa relação e uma unidade característica, que se prende ao objeto emissor e produz, o mais freqüentemente, a sensação que lhe corresponde ou torna simplesmente manifesta a existência do objeto externo. Pois, sem uma certa relação com este, uma sensação desse tipo não poderia nascer.

Posições relativas no espaço absoluto
Não se pode, ademais, atribuir ao infinito o alto ou o baixo no sentido do alto absoluto ou do baixo absoluto. Pois, por mais alto que nos elevemos a partir do lugar em que estamos colocados, acima da cabeça até o infinito, nunca nos aparecerá o ponto extremo. Aquilo que, de outra parte, estende-se ao infinito acima desse lugar imaginado não pode estar, ao mesmo tempo, em cima e em baixo em relação ao mesmo ponto; isso é completamente inconcebível.

É preciso, assim, considerar distintamente o movimento que se efetua no infinito para cima e aquele que se efetua no infinito para baixo, mesmo se o móvel que se dirige para cima toca mil e mil vezes os pés dos que habitam acima de nós, ou que aquele que se dirige para baixo toque mil e mil vezes a cabeça dos que se encontram abaixo de nós. O movimento em seu conjunto não é menos concebido como efetuando-se em sentidos opostos um ao outro no infinito.

Os átomos têm necessariamente a mesma velocidade quando, ao se deslocar através do vazio, não encontram nenhum obstáculo. Pois os átomos pesados não se movem mais depressa que aqueles que são pequenos e leves, a partir do momento que nada lhes resiste. Os átomos pequenos, por sua vez, não se movem mais rapidamente que os grandes, dado que encontram todos uma passagem fácil quando não enfrentam obstáculos. Não há diferença de velocidade entre o movimento para o alto e o movimento oblíquo, determinado pelos choques, e aquele que se efetua para baixo em virtude do peso próprio dos átomos. Enquanto o átomo conservar um ou outro desses movimentos, ele se deslocará com a rapidez do pensamento até o momento em que, por uma causa exterior ou por seu peso próprio, for levado a reagir contra um impulso recebido.

Composição da alma
Após isto, é preciso reconhecer, ao se referir às sensações e aos sentimentos – pois, ao assim proceder, chegar-se-á à certeza inabalável -, que a alma é um corpo composto de partículas sutis, que se encontra disseminada em todo o agregado que constitui nosso corpo e que, além disso, se parece com um sopro misturado com calor, aproximando-se em parte de um e em parte de outro. Mas uma certa parte da alma distingue-se notadamente destas últimas propriedades por ser extremamente tênue e estar assim mais intimamente associada a nosso corpo. É o que põem em evidência as forças da alma, seus afetos, a facilidade de seus movimentos, seus pensamentos e tudo cuja privação acarreta nossa morte.

Também é preciso lembrar que a alma é a causa principal da sensibilidade. Mas não poderia sê-lo se não estivesse, de alguma forma, abrigada pelo organismo. Este, ao permitir que a alma produza a sensibilidade, participa, por sua vez, das faculdades da alma. Por isso perde a sensibilidade quando a alma se retira.

O corpo não adquiriu, por si mesmo, esta faculdade (de sentir), mas é a alma, nascida com ele, que a proporciona. É por isso que, enquanto a alma permanece no agregado corpóreo, ela não pára de sentir, mesmo se ele perdeu alguma de suas partes; e qualquer parte da alma que pereça porque o envoltório corpóreo que a abriga se destrói, total ou parcialmente, desde que ela própria subsista, conservará a faculdade de sentir. Ao contrário, o organismo que permanece, inteira ou parcialmente, não possuirá mais sensibilidade se a quantidade de átomos constitutiva da natureza da alma desapareceu.

Mas quando o organismo inteiro se dissolve, a alma se dispersa, não possui mais as mesmas faculdades, não é mais excitada e é, assim, privada de sensibilidade. Pois não se pode conceber que a alma que não se encontra mais no organismo possa, apesar de tudo, quando seu invólucro protetor não é mais aquele em que se encontra atualmente, sentir as mesmas excitações que neste último.

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração, Tecnologia da Informação e bacharelando em Direito. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, USA. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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Posted in Filósofos
3 comments on “Epicuro – Filósofo
  1. MisavOx disse:

    nãO é o que eOO querO

  2. é um ótimo texto para um trabalho de filosofia sobre OBRA, VIDA E PRINCIPAIS IDÉIAS de Epicuro..curti aí galera isso é FILOSOFIA

  3. cristiano disse:

    muito legal a vida de Epicuro muito interessante gostei bastante principalmente da parte em qui fala de ausência de dor e medo lol

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  1. [...] senhores.” Epicuro de Samos * Samos, Grécia – 270 a.C + Atenas Grécia – 341 a.C >> biografia [...]

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