Catulo da Paixão Cearense – Poeta – Músico – Teatrólogo

Foto de Catulo da Paixão Cearense, poeta do Ceará

Catulo da Paixão Cearense
* São Luís, MA. – 08 de Outubro de 1863 d.C
+ Rio de Janeiro RJ. – 10 de Maio de 1946 d.C
Poeta – Compositor – Músico – Teatrólogo

Nasceu em São Luis do Maranhão e mudou-se para o Rio de Janeiro, com os pais, em 1888, ainda adolescente, onde trabalhou como joelheiro. Relacionou-se com músicos (“chorões”) da época, participando da vida boêmia da cidade. De suas composições, o “Luar de Sertão” (1908), com letra de sua autoria, é até hoje peça popular, considerada um verdadeiro hino do sertanejo.

Não há, ó gente, oh não
Luar como este do sertão…

Oh que saudade do luar da minha tema
Lá na serra branquejando
Folhas secas pelo chão
Esse luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade
Do luar lá do sertão

Se a lua nasce por delas da verde mata
Mais porem um sol de prata prateando a solidão
A gente pega na viola que ponteia
E a canção é a lua cheia
A nos nascer do coração

Se Deus me ouvisse
Com amor e caridade
Me faria essa vontade
O ideal do coração:
Era que a morte
A descontar me surpreendesse
E eu morresse numa noite
De luar do meu sertão

Trabalhou como relojoeiro. Conheceu vários chorões da época, como Anacleto de Medeiros e Viriato Figueira da Silva, quando se iniciou na música. Integrado nos meios boêmios da cidade, associou-se ao livreiro Pedro da Silva Quaresma, proprietário da Livraria do Povo, que passou a editar em folhetos de cordel o repertório de modinhas da época.

Se a paixão deu-te um desgosto,
tens uma cura ligeira:
procura, à tarde, ao sol posto,
a sombra da laranjeira.
Se n’alma sentes ciúmes,
com teus olhos rasos d’agua,
o aroma da tua magua
mistura com os seus perfumes.
Mas, se esse arbusto impiedoso
não te acolher complacente,
vai assentar-te, saudoso,
à beira de uma corrente.
Afina o teu instrumento,
serenamente sombrio,
canta e afoga o pensamento
nas águas fundas do rio.

Catulo da Paixão Cearense passou a organizar coletâneas, entre elas O cantor fluminense e O cancioneiro popular, além de obras próprias. Vivia despreocupado, pois era boêmio, e morreu na pobreza.

A FLOR DO MARACUJÁ
Encontrando-me com um sertanejo
Perto de um pé de maracujá
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo
Porque razão nasce roxa
A flor do maracujá?
Ah, pois então eu lhi conto
A estória que ouvi contá
A razão pro que nasci roxa
A flor do maracujá
Maracujá já foi branco
Eu posso inté lhe ajurá
Mais branco qui caridadi
Mais brando do que o luá
Quando a flor brotava nele
Lá pros cunfim do sertão
Maracujá parecia
Um ninho de argodão
Mais um dia, há muito tempo
Num meis que inté num mi alembro
Si foi maio, si foi junho
Si foi janero ou dezembro
Nosso sinhô Jesus Cristo
Foi condenado a morrer
Numa cruis crucificado
Longe daqui como o quê
Pregaro cristo a martelo
E ao vê tamanha crueza
A natureza inteirinha
Pois-se a chorá di tristeza
Chorava us campu
As foia, as ribera
Sabiá também chorava
Nos gaio a laranjera
E havia junto da cruis
Um pé de maracujá
Carregadinho de flor
Aos pé de nosso sinhô
I o sangue de Jesus Cristo
Sangui pisado de dô
Nus pé du maracujá
Tingia todas as flor
Eis aqui seu moço
A estoria que eu vi contá
A razão proque nasce roxa
A flor do maracujá.

Suas mais famosas composições são Luar do Sertão, de 1908, que na opinião de Pedro Lessa é o hino nacional do sertanejo brasileiro, e Flor amorosa (sem data). Também o responsável pela reabilitação do violão nos salões da alta sociedade carioca e pela reforma da “modinha”.

Flor amorosa, compassiva, sensitiva, vem porque
É uma rosa orgulhosa, presunçosa, tão vaidosa
Pois olha a rosa tem prazer em ser beijada, é flor, é flor
Oh, dei-te um beijo, mas perdoa, foi à toa, meu amor

Em uma taça perfumada de coral
Um beijo dar não vejo mal
É um sinal de que por ti me apaixonei
Talvez em sonhos foi que te beijei

Se tu pudesses extirpar dos lábios meus
Um beijo teu tira-o por Deus
Vê se me arrancas esse odor de resedá
Sangra-me a boca, é um favor, vem cá

Não deves mais fazer questão
Já perdi, queres mais, toma o coração
Ah, tem dó dos meus ais, perdão
Sim ou não, sim ou não

Olha que eu estou ajoelhado
A te beijar, a te oscular os pés
Sob os teus, sob os teus olhos tão cruéis
Se tu não me quiseres perdoar

Beijo algum em mais ninguém eu hei de dar
Se ontem beijavas um jasmim do teu jardim
A mim, a mim

Oh, por que juras mil torturas
Mil agruras, por que juras?

“…tudo o que se lê em “Meu Sertão”, é pura fantasia e, se não fosse fantasia, não era obra de arte. A alma de Catulo é que nos canta ali e é por isso que o admiramos a ele. As imagens são de invenção dele, mas sabemos que os caipiras são mui capazes de as ter assim belíssimas, por vezes maravilhosas. Ainda há pouco, ouvi das mais originais na boca de um carreiro analfabeto, o célebre Sabino Grajaú, de Alagoas.

“Meu Sertão” não é o sertanejo fotografado; é o sertão no que tem de poético, simples e selvagem, compreendido, sentido, evocado pela alma de seu filho, que se educou no Rio. É uma saudade posta em verso; saudade que se deleita em ir pintando as cenas mortas, refazendo gentes, vistas, costumes interessantes, usanças particulares, pondo em tudo certa nostalgia bem real, muito emotiva.

É a missão do poeta. O poeta não decalca, não trasfolha, não cobre riscos; debuxa apenas os contornos, calca os tragos de reforço, faz sombras, combina cores, que sejam transuntos de sua alma, pedaços de suas emoções.”

José Oiticica

O POETA ÚNICO DO BRASIL

EMBORA nessa época as suas canções já andassem por aí de boca em boca, quem primeiro falou, lá em casa, em Catulo da Paixão Cearense foi um compadre de meu Pai, por nome Luiz Goulart — que nós chamávamos (não sei porque) Garrafa de Leite… E foi esse homem banal, gordinho, baixinho, que passava a semana a vender milho no Centro de Cereais, mas que morava na estação da Piedade e era vizinho do Bardo, quem no-lo trouxe à nossa casa na rua do Riaehuelo, ele, com o seu violão…

Nesse tempo, Catulo era tão somente o que entre nós se qualifica, com tão injustificado pouco apreço, “um fazedor e cantador de modinhas”. Os seus livros, editados em papel de embrulho, tinham títulos popularmente modestos: Cancioneiro Popular, Choros ao violão…. Mas, se a sua poesia ainda se não impusera à admiração das nossas altas esferas sociais, já conquistara a popularidade das massas e empolgara o coração dos simples.

Papai, que era, sobretudo, um emotivo, tocado na sua sensibilidade, desde logo adorou-o. E houve uma festa, lá em casa, para “produzi-lo” aos poetas, aos literatos, aos músicos, aos artistas que, até então, ainda nos freqüentavam …

Nesse tempo, com raríssimas exceções, a nossa poesia continuava a ser, mais do que nunca, um decalque mais ou menos hábil do estro estrangeiro. O próprio Cruz e Souza, que morrera de miséria, abraçado ao madeiro do seu orgulho e do seu gênio — embora tendo trazido à lingua um novo rítmo e uma excepcional audácia de expressão — fora (como muito bem disse, creio que o sr. Victor Orban) uma mentalidade germânica enxertada num negro pelo ensino miraculoso do sábio Fritz Muller…

As tentativas de “índianismo” de Gonçalves Dias tinham-se tornado obsoletas. O vulcão que Victor Hugo descobrira no cérebro de Castro Alves extinguira-se.

A maviosa ingenuidade de Casemiro de Abreu esvaíra-se, “na flor dos anos”, como um canto de “sabiá na laranjeira, à tarde…”

Desde o hugoano Pedro Luis Pereira de Souza — quase sempre tão injustamente esquecido entre os grandes nomes da nossa poesia — a inspiração e as idéas e os assuntos tratados pelos nossos poetas chegavam empacotados do exterior. E, naquele momento — em que, aliás, vivia e rimava o surpreendente B. Lopes — os nossos grandes poetas, entre outros de incontestável valor, como Luiz Murat e Mucio Teixeira, eram, como Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Emílio de Menezes, reflexos de Heredias e Lecontes, ou, como Raimundo Corrêa, reminiscentes de Heines e de Stechettis…

Brasileiro, positiva, sinceramente brasileiro — nada. Os “simbolistas”, mesmo quando eram o inesquecível Mario Pederneiras, na Agonia, ou nas Sondas Noturnas, nada tinham de nacional. Os “místicos”, como esse imortal Alfonsus de Guimarães, podiam ter escrito em latim a Câmara Ardente, ou o Septenário das Dores de Nossa Senhora… Só Mello Morais Filho, timidamente, apagadamente, escrevia, no intervalo de duas receitas (porque era médico), coisas assim:

À sombra de enorme e frondosa mangueira,

Coberta de flores, da tarde ao cair…”

Foi quando Catulo da Paixão Cearense apareceu.

***

E aquela noite, na rua do Riachuelo, foi um triunfo como devia ser. A poesia de Catulo da Paixão Cearense, apesar de ainda toda confinada nas palpitações do coração e dedicada a glórias ou martírios de amor, era uma coisa completamente nova, estranha, surprendente e, sobretudo, brasileira!

Tínhamos, enfim, diante de nós, um poeta!

E o que principalmente se requer do poeta é que ele seja um evocador. “Cada um de nós tem em si um exemplar de cada poeta que lhe agrada — exemplar que ninguém mais conhece e que conosco perecerá com todas as suas variantes, quando nada mais sentirmos …” — diz Anatole .

Um belo verso é um arco que tange as nossas fibras sonoras. Não são os seus, são os nossos pensamentos que o poeta desperta, e revive em nós. Quando nos fala da mulher que ele ama, são os nossos amores que ele canta e deliciosamente focaliza em nossa alma…”

Ora, o poeta que de fato nos produz tal emoção, não é o parnasiano, nem o simbolista, nem o penumbrista, nem nenhum dos outros desnaturadamente envenenados de literatura. É aquele em que as grandes emoções singelas do homem se concretizam nessa ingente aspiração de harmonia, que já entre os trogloditas desabrochara nos primeiros rítmos guerreiros ou religiosos, a princípio apenas emulativos das caminhadas nômades da tribo, e, por fim, sensual, voluptuoso, dolente, nas fases perturbadoras e sentimentais do cio… É o Trovador.

Mas um Trovador é fruta rara — sobretudo no nosso ambiente de dilettanti, em que as manifestações de Arte raramente explodem de um instinto inato e irreprimível, e são quase sempre uma manifestação de esnobismo, ou um meio de aparecer, com o fim de alcançar renome e conquistar posições.

Catullo, porém, era um Trovador. Por isso mesmo, o que primeiro sentiu, o que primeiro realizou foi a modinha — “a modinha, que, como disse o nosso João do Rio (coitado!…), na Alma Encantadora das Ruas, é o nosso instinto bárbaro de independência e de maravilha no homem — que louva os deuses, incita à guerra, canta a mesa, chora desejos da carne…”

A modinha de Catulo tinha tudo isso, e tinha mais — para nós, brasileiros, tinha a evocação das selvas, dos eitos, das lavouras ancestrais, da nossa bucólica, do nosso sentimentalismo ingênuo e rude. Ah! que emoção, quando ouvimos o Sertanejo Enamorado, esses versos virgilianos que todo o Brasil cantou e canta!

Na minha choça
Teu escravo sou até…
Tenho uma roça
E uma casa de sapé…
Foi para dar-te
Que a fiz.
Aqui vivo por amar-te,
Feliz…
Nela contigo serei
Mais que um rei!
Ai! mais que um rei!

E, logo em seguida, numa só estrofe, dois sentimentos tão nossos, bem nossos — a confiança na vida que nos dão os dons da nossa natureza exuberante; o abatimento em que caímos, se nos fere a flecha sentimental da saudade:

Como eu sou rico,
Se floresce o cafezal,
Nem sei…
Ah! como eu fico,
Se me cresce o milharal,
Sou rei…
Mas fico mudo
Sem ti…
Chora tudo, tudo, tudo,
d’aqui!…

E a Martha, evocando todo o drama sombrio das senzalas da escravidão, e todos os outros temas imprevistos, singelos, verdadeiros, dos poemas que ele pautava dentro da nossa música, que Bilac, numa das suas raras expressões felizes, disse ser “lasciva dor, beijo de três saudades, flor amorosa de três raças tristes…”

Sim, Catulo era uma poesia inteiramente nova, e inteiramente brasileira, empolgante, espontânea, verídica, expressando-se, enfim, na nossa língua, sem temer grafar os brasileirismos da sintaxe que estamos criando, sentindo, exprimindo, incarnando a nossa verdadeira alma, indolente, combativa, rude, sentimental, impulsiva, obstinada, que se está filtrando num tipo definitivo, lá, muito longe do litoral cosmopolita, no caldeamento da nossa mestiçagem. E, por isso mesmo, destinado a empolgar, como empolgou, a comover, como comove, a vencer, como venceu.

É possível, entretanto, que, em toda a sua obra, as modinhas de Catulo me impressionem tanto, até hoje, porque as ouvi, um pouco depois daquela noite, durante dois anos, à cabeceira da cama em que Papai agonizou.

Catulo foi o sabiá desse ocaso. Quase todas as noites batia à porta do casebre em que — vanitas vanitatum — o “Herói da Abolição” ia morrendo aos poucos, esquecido, apagado, sozinho… Acolitavam-no mais dois ou três boêmios, “irmãos da opa”, corações de ouro, como ele, artistas: o Irineu, ofeclide, um mulato gordo, que quando tocava, fechava os olhos empapuçados, de que lhe escorriam lágrimas de emoção; o Luiz de Souza, piston, que do agudo instrumento tirava sons de flauta e de violino, e o famoso Mario Cavaquinho… E Catulo cantava!

Catulo cantava… Era uma cigarra, embalando outra cigarra “na tormentosa estação”…

Passa o vento do outono,
Uma prece a gemer!….

Ah! essa modinha de que ele já não se lembra, e do que tantas vezes lhe tenho falado! Como ela me ficou gravada no coração!…

As folhas que o sol do estio amarelecera e crestara jaziam caídas sob a ramaria da floresta. Vinha o outono. O vento erguia-se e soprava. E as pobres folhas murchas valsavam, tresmalhadas, desorientadas, perdidas, ao léu…

Assim como ides, folhas
Irão os sonhos meus…

A noite passava, Papai ouvia com os olhos rasos de água. Eles iam-se embora, continuando a cantar e a tocar na rua deserta…

Sois a imagem da vida,
Pobres folhas, adeus!…

***

Depois que Papai morreu, longos anos Catulo e eu andámos separados. Ele, irradiando e crescendo para a Perfeição e para a Glória. Eu debatendo-me na rude e obscura labuta de escrevinhar para as gazetas o corriqueiro “dia a dia”. Ele, cada vez mais irmanado e identificado com a beleza e a grandeza do Brasil. Eu, vagabundo, por terras alheias, freqüentemente em contato com as alheias misérias, com os hospitais, com a cadeia… Ele, erguendo-se cada vez mais, ao sol dos trópicos, como a palmeira, cujo caule, ereto e nu é um círio votivo, emergindo do seio da nossa terra ante a Divina Onipotência, e cujas folhas jaldes da sua fronde são a chama verde da nossa esperança. Eu, como a folha amarela, caída sob a ramada triste, que o vento do outono enxota e leva por aí…

Verde… amarelo…

De entre todos os plumitivos brasileiros, sou, por conseqüência o menos autorizado para interpretar e dizer sobre a obra, já tão vasta e sempre maior, de Catulo da Paixão Cearense, mormente quando já a consagraram nomes como os de Rui Barbosa, de Pedro Lessa, que a citou numa sessão do Supremo Tribunal, como a do Padre João Gualberto, que a interpretou numa das conferências na Catedral do Rio — como nos diz, prefaciando O Evangelho das Aves, Mario José de Almeida, espírito de fulgor e de eleição, que todo ele se retrai e recolhe em si mesmo, como a sensitiva, no temor do contato amesquinhante da literatice nacional…

Catulo quis, entretanto, que algumas linhas do meu punho precedessem os poemas deste livro, que intitulou Meu Brasil. E, se falece toda autoridade ao prefaciador dos presentes versos do grande Bardo, ninguém mais do que ele tem direito de dar a um livro o título que a este deu.

A obra de Catulo da Paixão Cearense são as canções de gesta do Brasil contemporâneo. Nos seus versos imperecíveis ele tornou a descobrir a Pátria, e começou a ensinar-nos a amá-la. Até que ele aparecesse (e mesmo depois…), quase todos pensávamos sobre nós mesmos o que esse fulgurante e cruel espírito, que é Monteiro Lobato, disse de Jeca Tatu…

Mas Catulo vem-nos dizer a pujança e a energia da raça, cantando a arrancada dos vaqueiros; o orgulho generoso do nosso sertanejo, que manda bater na “estrela da testa” do cavalo encantado que lhe tinham roubado, para que os matungos não desonrem o seu velho companheiro, capturando-o cavalgado pelo ladrão; a pureza dos seus sentimentos, quando, tendo à sua mercê, na choça solitária, a cabocla adorada, e sentindo ferver as tentações da carne, põe entre o seu e o corpo dela, estirado na mesma enxerga, o velho crucifixo familiar.

E é a Terra Caída, com a sua estupenda beleza descritiva; e é o Marroeiro e o Velho Marroeiro, com uma profunda filosofia, revestindo-se de admiráveis imagens, como a da lagoa e o coração da mulher — varium et mutabile semper, como concorda Virgílio… É, finalmente, esse litúrgico Evangelho das Aves, uma lenda do sertão, transformada em apólogo bíblico, e tratada em versos de inexcedível fluência, de insuperável espontaneidade musical — como, aliás, são todos os versos de Catulo.

Mas para que citar ainda? De resto, fora preciso citar cada poema, cada verso, talvez, da sua obra imperecível!

E que dizer mais também? Que toda essa literatura regionalista desabrochada nestes últimos lustros é um reflexo do estro de Catulo? Que o encanto e a atração dos seus poemas têm sido um auxiliar incontestável e eficaz de emulação do nosso patriotismo e de difusão de cultura nas massas nacionais?…

Mas, senhores, Catulo da Paixão Cearense é um fenômeno tão excepcional nas letras nacionais, que a sua obra foi até hoje a única que, no idioma original, vadeou as nossas fronteiras e se tornou, de fato, conhecida, senão popular, em toda a América Latina e em Portugal — que até então só tinha lido, do que é nosso, o sr. Coelho Netto…

Não nos enganemos, pois: Catulo da Paixão Cearense é um dos maiores poetas nascidos no Continente Sul-Americano. Na literatura brasileira só lhe são comparáveis Gonçalves Dias, Castro Alves, José de Alencar — os grandes Bardos em verso e em prosa da Nacionalidade. É o nosso pequeno Homero, que estará vivo, juvenil e pujante, quando de há muito já se tiver perdido a memória dos pigmeus, que por aí rimam consoantes e alinham períodos.

Enfim, leitor amigo, perdoa-me, a mim, escriba obscuro e tão desautorizado, ter-te privado tão longamente de leres os primorosos poemas que este livro enfeixa. Aliás, se foste prudente, terás saltado, sem as ler, as páginas em que se alinha a minha prosa chilra…

Um prefácio a um livro de Catulo? Para que? Dizer, no Brasil, quem é Catulo da Paixão Cearense? Para que?…

Só se o Brasil nem sequer tem consciência do que em si é belo e grandioso…

Bois de Villemoisson (Seine-et-Oise), maio de 1928.

JOSÉ DO PATROCÍNIO, FILHO.

A CATULLO CEARENSE

(Espírito e Coração da Natureza Brasileira)

A TUA musa, já não mais só tua,
por ser lírica irmã da água da fonte,
que, de muito correr para o horizonte,
rola, por fim, no mar que a perpetua,

tanto apura a beleza, quando estua
nas vertigens de luz da tua fronte,
que a terra do Brasil faz que desponte
na glória virgem da beleza nua.

Primeiro trovador entre os primeiros,
o sol e a lua são teus dois tinteiros
de tintas velhas de esplendor tão novo!

Por isso, eternos, o teu estro encerra
o espírito de sol da nossa terra
e o coração de luar do nosso povo.

Rio, 8-10-1918.

LUIS CARLOS. (Da Academia de Letras)

UM GRANDE POETA

… a poesia vem do amor.

CATULLO CEARENSE.

NADA mais vulgar no Brasil do que um poeta; entretanto, é aqui bem rara a verdadeira poesia. Então poesia brasileira, “nossa”, sentida, vivida, extremamente difícil de se achar no milheiro de livros de versos que se publicam anualmente.

É a poesia o gênio da juventude. Adolescência de homens ou de povos, tudo é um, será a causa da abundância. Como a idade da razão custa a chegar, te-los-emos, felizmente, os poetas, por muito tempo, se não sempre. Quase nos podemos dispensar de fazer outra coisa. Neste ponto nos parecemos com a Grécia antiga, que fez tudo em versos, anais militares, narrações de viagens, religião, até política … Também dela se disse que era a infância do mundo.

O que parecerá menos justificável é que os nossos sejam poetas estrangeiros. Foi Gonçalves Dias o nosso grande poeta lusitano. Anglo-saxônio era Álvares de Azevedo, até no “humour”.

Os que chamamos românticos e parnasianos são franceses, propriamente de Paris. Alguns se presumem de atenienses; Camilo já arrolou assim o nosso Gonçalves Crespo.

Foi e é a Europa a nossa aia, mestra, e por vezes e ainda senhora, tanto que não admira sejamos todos europeus, peregrinos aqui nessa terra em que vivemos. A vida brasileira é fictícia. Sobre um tronco indígena enxertaram planta exótica, que dá flores e frutos de outros céus.

Deles é a língua, são deles as imagens e as idéas. Nem nos preocupa traduzi-las: vão, como nos vêm. Há certo livro de ciência, de doutô e mestre, que começa: “O Brasil é um país da América Meridional”… Queria dizer, “do Sul”. Meridional, de meio dia, só é sul em França: o midi seria, aqui, lá para o norte; América Meridional é a do Centro. “Carvalhos” e “loureiros”, “rouxinóis” e “cotovias“ concorrem nas nossas comparações, em prejuízo de bichos e plantas natais. Nossas praças e jardins estão adornados de estátuas forasteiras: no Pharoux treme um velho sob a neve, no Campo de Sant’Anna está uma bela mulher nua, cercada de pámpanos e parras, que pretendem ser inverno e outono no Brasil. Somos tão adventícios aqui, já reparou o nosso João Ribeiro, que indo ao outro lado do oceano, não “vamos” à Europa, “voltamos” à Europa.

Não o digo por censura, nem com pena. Assim é e deve ser. Apenas essa cultura estranha não se afez bem à terra e isso tira à gente como que a naturalidade, nessa roupa de empréstimo, sem nossa medida, com resguardos incômodos, fora do nosso gosto, na qual não nos sentimos a jeito. E sem espontaneidade, graça, naturalidade, não há arte. Dela a condição é a sinceridade.

Como nos sobram estímulos de vaidade, o gênio verbal da raça supre-a na eloqüência, a imitação contorna atitudes e expressões e nós conseguimos versos ricos, trabalhados, difíceis, de rítmos magníficos e rimas preciosas, talvez perfeitos versos, mas versos estrangeiros… em nossa língua que atormentamos por eles, para nossa gente que não divertimos com eles… Muitas vezes, versos sem poesia. Quase sempre sem poesia “nossa”, emoção sentida e vivida, no Brasil, por coração brasileiro, que se communique por íntimas afinidades com a sua terra e nos traduza “seus” sentimentos e “suas” idéias.

Ora, este poeta que ides ler, que de nome conheceis, poeta cujos versos andaram na boca do povo antes da letra de fôrma desta edição, como a Homero precederam os rapsodos, Catulo da Paixão Cearense, esse é um poeta, que tem poesia, e poesia brasileira, nesses versos que escreveu, depois de os sentir e de os dizer. Não faço comparações. Digo apenas: Catulo Cearense é um grande poeta; é um grande poeta “brasileiro”. Seus versos têm poesia, tanto que alguns dos seus poemas valem por livros inteiros.

Há quem dilua a gota de essência, imagem feliz ou comoção sincera, num oceano de palavras, escolhidas e preciosas, mas escusadas.

Catulo é perdulário e generoso, como a natureza; concentra n’uma quadrinha, em dois ou três versos simples da “medida velha”, tão idiomática, tão nossa, todo um jardim ou uma várzea inteiras com o seu deslumbramento, de frescura, de luz, de aroma e de melodia, para essa comunhão que tem o homem, distraído pelas coisas, com o seio materno de sua terra, consciência de amor que só lhe pode dar, tão sentida e vivida, a grande obra de arte.

Porque a arte é isto mesmo. É a “realidade”, que a beleza nos tornou “sensível”.

Junto a minha casinha de Petrópolis há um canto do Piabanha que eu nunca soubera “ver”; admiro-o agora que o “vi”, reproduzido numa deliciosa paisagem de Baptista da Costa. Sertanejo exilado que sou na cidade, os versos e novelas que me falam do meu sertão enternecem-me até as lágrimas, mas de lembrança do que sentí, sem dar por isso, e me repassam agora na memória do coração. A vida não é isso mesmo, gozar ou sofrer, no desejo ou na saudade, sem jamais a consciência do presente, atônita e efêmera realidade? O artista é assim um vidente; a arte, uma “profecia”, porque virá a ser, para os que a contemplem e gozem, uma “realização”. A de Catulo é magnífica; ele sentiu tão bem que o “seu” sertão é o “meu”, é o “nosso” sertão. Idealizado? Que importa! É o dom da arte, só ela é capaz do milagre da transfiguração.

As imagens lhe borbotam frescas e novas, límpidas e aljofradas, como a veia dos olhos dágua dos nossos córregos, que vão saltando e correndo e sofrendo, e cantando através dos seus leitos de pedra e de esmeril, pelo estirado das rechans, pelo declive das ribanceiras.. . como as lágrimas, tristes ou felizes, da terra.

Os quadros da natureza, manhãs, crepúsculos, noites, luares e madrugadas, em nenhum poeta são mais profusos e tão “nossos’, pela linguagem, pelas comparações, pelas evocações, tanto, que constituem o mais formoso e mais parecido retrato do Brasil. Os enfeites da terra são as dela, flores do campo, frutas bravas, paus do mato, e o homem, se não é mais o bronco aborígene, não é também o adventício imigrante, mas o sertanejo, esse mixto que nos formaram as raças colonizadoras, amassado com o barro, cozido ao sol, naturalizado por quatro séculos de provações e de esperanças e para quem ela, a sua terra, é o seu único amor e a sua certeira perdição. Ela é também, essa terra brasileira, o “meu sertão”, a namorada de Catulo.

Mas não só o amor canta o poeta, canta toda a vida: a vida rude, sofredora, de labuta, e de decepção, e de confiança; vaquejando, passando gado, fazendo votos, nas “premessas”; com o sentido na honra, até a do seu cavalo, antes que da ambição de ganho ou satisfação do rude amor próprio; cangaceiro, capaz de topar a tropa de linha, para vencê-la e que se vence, com ajuda de um santo lenho, para respeitar a honra da mulher amada que se lhe confia: coração terno e macio, que se rende e se deixa estrepar dos olhos de uma cabocla, para o engano terno do amor, “terra caída”, que na indiferença, na traição, no esquecimento, desmancha, apaga, e troca, e substitui, no logro da vida, como essas do rio inconstante, que esborôa aqui, no cotovelo de uma volta e restitui adiante, na praia de uma coroa… Que importa um coração enganado, se haverá outro contente? Que chore e cante!

É o que faz Catulo Cearense. Por isso, muitos dos seus poemas são obras primas. Mais: enlevam, entusiasmam, enternecem e fazem chorar. E isto é que é poesia.

AFRANIO PEIXOTO. (Da Academia de Letras)

CATULLO CEARENSE

RESIDO há quatro anos no Brasil e só agora me foi dado conhecer o mais inspirado e representativo menestrel do seu sertão — Catulo da Paixão Cearense, poeta bravio, poeta cujos versos não foi preciso semear e ainda menos cultivar, poeta igualmente entendido e apreciado pelos sábios e pelos ignorantes, poeta do povo e da raça, poeta e só poeta, que só pôde dar poesia, como as abelhas só podem dar mel…

Não posso deixar de ralhar docemente aos meus amigos brasileiros, que assim tardaram em me pôr em contato com um tão direto e exato intérprete da alma nacional. Mas se eles, ao ouvir os versos de Catulo, com razão se eletrizam e vibram perante o que neles encontram de essencial e intimamente brasileiro — eu, por meu lado, apurando ainda melhor o ouvido, todo me enterneço e desvaneço de nesses versos sentir ao longe, intata, imortal, inconfundível, a velha alma portuguesa.

Sem dúvida, outras almas de outras raças colaboraram na formação do lirismo brasileiro e contribuíram para lhe dar a fisionomia original que lhe não nego. Mas quem poderá também negar, sem negar a evidência, que nessa melodia nova e bela, se há vozes diversas formando o coro ou o acompanhamento, é sempre a voz de Portugal, a antiga voz, jamais enrouquecida, da antiga Lusitânia, que dirige o canto e nele sobresai e predomina? E que outros ouvidos no mundo, além dos brasileiros e portugueses, serão capazes de ir atrás dos poemas de Catulo com o alvoroço e a comocão que eu experimentei agora, e que experimentariam todos os meus patrícios, se o poeta sertanejo fosse recitar e cantar a Lisboa os seus versos?

Catulo Cearense fala, chora e ri em verso portuguesíssimo — a redondilha maior, que é a forma métrica instintiva e inconsciente da nossa linguagem comum. Catulo conversa com a Natureza, e a Natureza conversa com Catulo, (assim diria Eça de Queiroz), por meio de diálogos a que poderá oferecer a réplica justa o grande poeta português Antônio Correia d’Oliveira, mestre da redondilha também ele, e também ele língua ou turgimão fidelíssimo das vozes, dos gestos, dos sentimentos, dos risos e lágrimas das Coisas, essas aparentes surdo-mudas — mas tão falantes a quem sabe entendê-las. Catulo traduz o canto dos pássaros, e decifra o cachoeirar das águas, e o murmúrio das florestas, e o fulgor dos luares, por maneira para mim tão inteligível e penetrando-me tão dentro da alma, que parei a perguntar-me se, além da mentalidade, da sensibilidade, da gente, de alguma fauna e de alguma flora, em boa hora transplantadas de Portugal, ou por Portugueses, para o Brasil, também foram os nossos comuns Avós que para cá trouxeram as cataratas dos rios, as árvores das matas-virgens e as estrelas e aves do céu! Enfim Catulo entende o amor à nossa moda, e bastava esse traço das suas feições, para lhe descobrir o parentesco e me permitir sentenciar: dize-me como amas e eu te direi a que raça pertences… E, todavia, Catulo Cearense encarna a alma brasileira com fidelidade e eu poderia agora, voltando a compará-la com a nossa, apontar as suas diferenças, tão facilmente, como já assinalei as suas semelhanças. Lembrarei apenas o sabor regional (mas por vezes também arcaico) do seu vocabulário; o nacionalíssimo entrecho e cenário dos seus poemas; a originalidade das figuras, das paisagens, dos costumes, superstições e lendas, que deles se destacam. É que o Brasil não é uma imitação: é um prolongamento e um crescimento. O Brasil não é um eco ou um reflexo: tem voz e luz próprias — e ainda bem que as tem, para nosso maior orgulho e admiração. Mas cego será quem imaginar que o transforma melhor e mais depressa, ou de qualquer modo o engrandece, consagrando-se a destruir as raízes majestosas que tão profundamente o entroncam num tão belo e fecundante passado. Aliás essas raízes só Deus poderia destrui-las, e Deus não quer… Elas erguem-se vigorosas de todos os lados, inacessíveis à aberração humana. Ainda há dias, folheando um dicionário corográfico do Brasil, descobri com surpresa que há neste país vinte e três lugares, a que a palavra saudade serviu de batismo: 10 no Estado do Rio, 9 em Minas, 2 em S. Paulo, 1 na Bahia e 1 em Pernambuco. Dezenove desses lugares chamam-se Saudade, a dois deu-se o nome ainda mais bonito de Saudades, e aos dois restantes chama-se pitorescamente, a um Saudades de Cima, e ao outro Saudades de Baixo. Ora, eu já escrevi uma vez, e aqui confirmo, que as sete letras da palavra saudade são o brasão da nossa Raça, tão legitimamente como os cinco sinais das Quinas o são da minha Pátria. E muito antes de mim, e bem melhor que eu, escrevera o grande Joaquim Nabuco que essa palavra é a mais bela da nossa fala; a gema da linguagem humana; a alma, a essência da raça, que nos lábios a traz constantemente…

Os poemas de Catulo são, como disse o grande educador Fernando de Azevedo, de uma voluptuosidade ingênua.

Saudemos, pois, em Catulo da Paixão Cearense um descendente e um continuador dos nossos trovadores populares da Idade-Média, que dos seus cangaceiros fez, com certo engenho, os novos csvaleiros-andantes do Sertão. E indiquemos ao futuro os solaus e xacaras desse poeta do Povo, como o início de um Romanceiro novo em que vai reproduzir-se e desdobrar-se, sob céus mais luminosos, em terras mais vastas e mais ricas, e porventura com maior exuberância e esplendor, a alma eternamente lírica da Lusitânia — de aquém e de além-mar!

ALBERTO D’OLIVEIRA (Da Academia de Ciências de Lisboa)

“Eis os três mestres da nossa vida: — Alencar, a alvorada; Euclides, o meio dia e Catulo, a noite com os seus mistérios.” SAUL DE NAVARRO.

HOMENAGEM A CATULLO CEARENSE

No dia 12 de Setembro de 1918, realizou-se no Theatro S. Pedro, hoje Theatro João Caetano, no Rio de Janeiro, uma festa em honra do poeta Catulo Cearense, promovida pelos senhores: Ministros Guimarães Natal, Muniz Barreto, Pedro Lessa (do Supremo Tribunal) e Alberto d’0liveira (Plenipotenciário de Portugal); Drs. Miguel Calmon, Pandiá Calogeras, Afranio de Mello Franco, Eloy de Souza, Augusto de Lima e Juvenal Lamartine (homens d’Estado); Cons. Nuno de Andrade; Ministro Ataulfo de Paiva (da Corte Suprema); Professores Afranio Peixoto, Fernando de Magalhães, Pacheco Leão, Miguel Couto e Dias de Sarros (da Fac. de Medicina); Roquette Pinto (do Museu Nacional), e Assis Chateaubríand (da Fac. de Direito do Recife); Alberto de Oliveira, Mario de Alencar, Coelho Netto, e Paulo Barreto (da Academia Brasileira); Drs. Pires Brandão, James Daroy, Francisco Solano Carneiro da Cunha, Primitivo Moacyr, Baul Caracas, Alfredo Pinto (advogados); Drs. Paulo ãa Silva Araújo, Murtinho Nobre, David Sanson, Edmundo de Oliveira, Antônio Austregesilo, Abel Porto, Agenor Porto, Carlos Silva Araújo (médicos); Drs. Luie Carlos, Humberto de Campos, José Maria Belo, Humberto Gotuzsto, Pereira da Silva, Antônio das Neves, Carlos Costa (publicistas e homens de letras), e Manoel Vieira Martins, (capitalista em S. Paulo), que decidiram publicar a primeira edição deste livro.

Com o concurso gracioso da exma. sra. Da. Angela Vargas Barbosa Vianna, e dos senhores Mario Pinheiro, Frederico Rocha e o ator Alberto Pires foram ditas e cantadas várias produções do poeta. Em cena aberta os Srs. Humberto ãe Campos, poeta e jornalista, e Roquette Pinto, sábio e literato, pronunciaram os seguintes discursos:

“Entre os nossos contos populares de origem européia, colecionados por Silvio Romero, eu coloco em primeiro lugar, pela delicadeza e ornamentação verdadeiramente oriental, a linda história do “Papagaio do Limo Verde”. Certa moça, muito bonita, moradora nas vizinhanças de uma grande cidade, capital de um grande reino, vivia em tal opulência, cercada de tanta pedraria, aue não se via outra tão rica entre todas as princesas do mundo. Estranhando o exagero dessa magnificência misteriosa, as vizinhas ficaram de aleatéa, até que descobriram a maravilha daquele segredo. À noite, quando todos dormiam, a moça abria a janela do palácio, e por ela penetrava um papagaio muito verde, que entrava reclamando água. A moça corria a trazer-lhe uma bacia de ouro ondulante da linfa mais límpida, dentro da qual o papagaio se atirava sofregamente, ruflando as grandes asas insofridas. E cada pingo d’água que voava da bacia, transformava-se em um diamante que a rapariga ia apanhando, ficando, assim, dia a dia, mais rica. Ao fim do banho, o papagaio estava transformado em um formoso mancebo, como outro mais formoso não havia na terra. Era o Príncipe do Limo Verde.

Eu não posso ler ou ouvir os versos sertanejos de Catulo da Paixão Cearense, — esses mesmos versos que ele vos oferece nesta festa, sem que me assalte à imaginação a faiscante história desse encantado príncipe perdulário. O ourives que trabalhou no ouro virgem da linguagem popular as jóias rústicas e maravilhosas que por aí andam, é necessariamente um grande e lídimo artista, um fidalgo poeta, que se disfarça em ave cantadeira, para melhor espalhar, a mancheias, como o Príncipe do Limo Verde, a rutilante pedraria do seu erário. Catulo é realmente um misto de singeleza e de opulência, um ponto em que se misturam, formando o mais pitoresco dos riachos, os veios que passam pelos campos cultivados e as fontes que descem, gementes e ligeiras, do largo seio das matas indomesticadas. A sua poesia simples, doce e ingênua, mas em versos de métrica perfeita, é uma resina do sertão a arder, cheirosa, num turíbulo de prata ou de ouro. Evolam-se das suas rimas os mais inocentes perfumes da terra: cheiro de baunilha, de leite, de folha machucada, de gado sadio, de benjoim, do rola virgem, de campina desabrochada: cheiro, enfim, do sertão do Norte, em Maio, pelos fins d’água…

Passados esses versos para a linguagem correntia, não teríamos nós, entre os dos nossos melhores líricos, outros que se lhes avantajassem em meiguice. Catulo não quer, porém, que os seus frutos nasçam no jardim ou brilhem em vasos de porcelana: quer conservá-los no mato, envoltos nas folhas. A seiva para o fruto quem a dá é Deus. À árvore compete, apenas, dar fôrma ao pomo. Catulo tem toda a inspiração dos grandes e verdadeiros poetas; e como é sertanejo, vasa essa forte seiva nos rústicos moldes que ihe fornece o sertão. Dos seus versos ele poderia dizer, como o velho poeta espanhol:

— “Yo los escribo: dictalos Apolo!”

HUMBERTO DE CAMPOS.

(Da Academia de Letras)

***

“A poesia popular do Brasil, orfã, anônima, mal acolhida nas páginas de alguns notáveis estudiosos do “folk-lore”, andava por aí representada nas estrofes choramingas das modinhas, em quadras de crítica faceta, ou nas lendas ingênuas do sertão boiadeiro, como as do “Espaço” e do “Riachão”.

O poeta, que nossa elite social hoje aplaude, realizou o milagre de compor, na linguagem de sua gente, poemas do largo fôlego, onde se descobrem duas características bem marcadas. Primeiro, aparece nos versos de Catulo Cearense a nota profundamente humana; todos os seus personagens são reais, vivos e agitados por sentimentos da espécie. Depois, surgem daquelas frases, que parecem informes, o perfume, a luz, a cor, o doce e o amargo da nossa natureza integral. Há, espalhados pela sua obra, fascículos de um tratado de história natural; fenômenos geológicos, feições da flora, hábitos da fauna, etnografia, tudo ali conspira, dando o verdadeiro feitio do habitat brasileiro. Não é o “poeta do Sertão” apenas; quem escreve a “Terra caída” — é poeta da Amazônia; quem escreve o “Lenha-dor” — é do Brasil inteiro, que se alcantila de matas…

Os nossos poetas que entoavam hinos ao torrão natal, até agora, pertenciam a duas categorias: uns falavam como a plebe, e não sabiam escrever; outros, sabiam escrever… e traçavam seus versos na língua dos nossos maiores, bem diferente da que vive na boca do nosso rude povo.

Mas, quem poderá exprimir, no formoso, clássico e polido idioma, a bruteza de recantos travados: o ímpeto primitivo de afeições desabridas, que estalam no coração dos que mourejam nos seringais? Que imagem, nascida na Ibéria, pôde servir ao paroára, quando deseja pintar a ruína global de sua existência, a perda completa de seus devaneios e de seus haveres, senão a figura da derrocada subitânea de um trecho de margem, onde plantou o rancho, a roça e armou a rede para sonhar com a doçura de um primeiro beijo, ali, no canto do mato limpo pelo seu carinho e adornado pelo seu amor? E o fato geológico, brutal, como um terremoto que se não esquece, inspira o poeta; a saudade, então, deixa de ser o “delicioso pungir de acerbo espinho”, que magoava docemente os avoengos… No Brasil, é “a terra caída de um coração que sonhou”…

Este cantor não se utiliza dos mirtos, das verbenas nem dos jacintos que nunca viu; suas flores são colhidas no ipê e no imbirussú. Não se aproveita das águias, nem dos condores, nem dos rouxinóis, que já tem visto… engaiolados; mas compara os gritos lancinantes de sua dor ao metálico explodir da voz de uma araponga. O sabiá é a sua “viola de penas”; o curiango, a jaçanã, o urutau, tipos das ornis do Brasil, esvoaçam nas suas produções.

Dele, nunca, ninguém dirá que é um poeta português, escrevendo no Brasil.

Seja qual for o juízo que se forme do idioma semi-bárbaro de que se ele serve, é preciso reconhecer que tal língua não morrerá. Há de ser polida, modificada pelas influèncias extranhas, que o progresso do país fará avultar; mas há de viver.

Quem escreve para o público, no Brasil, tem o dever de zelar pelas vozes clássicas, sem exageros anacrônicos, para cumprir uma missão frenadora, servir de elemento conservador, moderando a velocidade da vaga popular, conservando tradições. Mas não deve combater, senão aprimorar o formoso dialeto, áspero, como a maior parte da terra em que nasceu.

Ninguém, no Brasil, escreve como ele a língua da gente inculta, que é a maioria da nação; ninguém, como ele, sabe cantar ingenuamente a pátria, nos sons que por ela circulam.

Simples naturalista, estou aqui a falar do poeta, porque a poesia é como a luz. Uma desce do céu azul e penetra nos palácios e nas choupanas; lava os mares e as terras; espalha-se por sobre florestas e se derrama nos campos. A outra sobe da natureza inteira, e se exalça para ganhar o infinito. Rompe do solo, nos acidentes do terreno, que é vário, como a alma dos homens; nasce na existência diária de todos os seres vivos; sublima-se no sentimento do “grande escravo”, que se não move senão à custa de cega obediência a leis fatais. Ela entra na arte, para vivificá-la; na indústria, para dar-lhe brilho; e, na ciência, prestígio.

Esta poesia semi-bárbara me fascina, porque sinto, nela, as louçanias e as imperfeições da minha terra.

Este poeta foi o escolhido da sorte, para arquivar, no coro dos povos que cantam, a voz do seu próprio povo. Seus poemas estão escritos no lenho das grandes árvores, gravados nos penhascos da pátria; foram compostos com as harmonias reais deste meio natural dominador.

ROQUETTE PINTO.

(Da Academia de Letras)

Crônica do “Mercure de France”

CATULLO Cearense est unique en son genre et il nous a donné le frisson nouveau. La matière de sés poèmes est simple, vaste et riche.

Elle est la contemplation du monde et contemporaine de tous les âges. Ele a l’image forte, profonde, cosmique. Sou âme est au centre de la forêt, comme un écho sonore, tele l’âme de Victor Hugo au centre de tout, selon le vers célèbre. Il a une façon aisée et sure d’entrer en matière, une famíliarité jamais vulgaire, qui me fait penser à l’incomparable Lafontaine. Catulo ne dit point ses vers ni les declame. Il les vit. La voix, le geste, la masque et les mouvements, tout a cette verité, cette force spontanée et juste d’un art qui rejoint la vie. Il est simples, naturel et exact, comme un chant d’oiseau.

(Mercure de France, Paris, 1 de Maio de 1919).

Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em administração, Tecnologia da Informação e bacharelando em Direito. Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. É diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo do Aero Clube do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association, USA. É membro honorário da Academia Fortalezense de Letras.

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