Augusto do Anjos – Poeta

Augusto de Carvalho Rodrigues dos AnjosRetrato do poeta Augusto do Anjos

* Espírito Santo, PB. – 20 de Abril 1894
+ Leopoldina, MG. – 12 de Novembro 1914

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d’Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884.
Aprendeu com seu pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. De uma família de proprietários de engenhos, assiste, nos primeiros anos do século XX, à decadência da antiga estrutura latifundiária, substituída pelas grandes usinas.

Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907. Em 1910 casa-se com Ester Fialho. Seu contato com a leitura, influenciaria muito na construção de sua dialética poética e visão de mundo.

Ali teve contato com o trabalho “A Poesia Científica”, do professor Martins Junior. Formado em direito, não advogou; vivia de ensinar português. Casou-se, em 04 de julho de 1910, com Ester Fialho. Nesse ano, em conseqüência de desentendimento com o governador, é afastado do cargo de professor do Liceu Paraibano. Muda-se para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério. Lecionou geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional, depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor. Em 1911, morre prematuramente seu primeiro filho.

Em fins de 1913 mudou-se para Leopoldina MG, onde assumiu a direção do grupo escolar e continuou a dar aulas particulares. Seu único livro, “Eu”, foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor.

Com a obra de Herbert Spencer, teria aprendido a incapacidade de se conhecer a essência das coisas e compreendido a evolução da natureza e da humanidade. De Ernst Haeckel, teria absorvido o conceito da monera como princípio da vida, e de que a morte e a vida são um puro fato químico. Arthur Schopenhauer o teria inspirado a perceber que o aniquilamento da vontade própria seria a única saída para o ser humano. E da Bíblia ao qual, também, não contestava sua essência espiritualística, usando-a para contrapor, de forma poeticamente agressiva, os pensamentos remanescentes, em principal os ideais iluministas/materialistas que, endeusando-se, se emergiam na sua época.

Essa filosofia, fora do contexto europeu em que nascera, para Augusto dos Anjos seria a demonstração da realidade que via ao seu redor, com a crise de um modo de produção pré-materialista, proprietários falindo e ex-escravos na miséria. O mundo seria representado por ele, então, como repleto dessa tragédia, cada ser vivenciando-a no nascimento e na morte. Augusto nega a religião como algo que possa explicar o mundo, sua poesia é composta por muitas ironias contra o cristianismo e a religião de uma forma geral, embora em sua cidade natal, Engenho do Pau D’Arco, o escritor conduzia reuniões mediúnicas e psicografava.

Dedicou-se ao magistério, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino. Faleceu em 12 de novembro de 1914, às 4 horas da madrugada, aos 30 anos, em Leopoldina, Minas Gerais, onde era diretor de um grupo escolar. A causa de sua morte foi a pneumonia. Na casa em que residiu durante seus últimos meses de vida funciona hoje o Museu Espaço dos Anjos.

Durante sua vida, publicou vários poemas em periódicos, o primeiro, Saudade, em 1900. Em 1912, publicou seu livro único de poemas, Eu. Após sua morte, seu amigo Órris Soares organizaria uma edição chamada Eu e Outras Poesias, incluindo poemas até então não publicados pelo autor.

Cético em relação às possibilidades do amor (“Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me”), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio “eu” o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético (“Ai! Um urubu pousou na minha sorte”). A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo (“Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa”).

Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma (“Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais”).

A métrica rígida, a cadência musical, as aliterações e rimas preciosas dos versos fundiram-se ao esdrúxulo vocabulário extraído da área científica para fazer do “Eu” – desde 1919 constantemente reeditado como “Eu e outras poesias” – um livro que sobrevive, antes de tudo, pelo rigor da forma. Com o tempo, Augusto dos Anjos tornou-se um dos poetas mais lidos do país, sobrevivendo às mutações da cultura e a seus diversos modismos como um fenômeno incomum de aceitação popular. Vitimado pela pneumonia aos trinta anos de idade, morreu em Leopoldina em 12 de novembro de 1914.

Versos Íntimos

Augusto dos Anjos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

O poema acima foi incluído no livro “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século“, organizado por Ítalo Moriconi para a Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2001, pág. 61.

Um dos maiores biógrafos de Augusto dos Anjos é outro conterrâneo seu, o médico paraibano Humberto Nóbrega, trazendo à tona A poética carnavalizada de Augusto dos Anjos uma das críticas mais relevantes às contribuições à investigação científica sobre o EU por meio de sua obra de longo fôlego, publicada em 1962, pela editora da primeira Universidade Federal da Paraíba, na qual o biógrafo Humberto Nóbrega foi também Reitor.


Obra poética

A poesia brasileira estava dominada por simbolismo e parnasianismo, dos quais o poeta paraibano herdou algumas características formais, mas não de conteúdo. A incapacidade do homem de expressar sua essência através da “língua paralítica” (Anjos, p. 204) e a tentativa de usar o verso para expressar da forma mais crua a realidade seriam sua apropriação do trabalho exaustivo com o verso feito pelo poeta parnasiano. A erudição usada apenas para repetir o modelo formal clássico é rompida por Augusto dos Anjos, que se preocupa em utilizar a forma clássica com um conteúdo que a subverte, através de uma tensão que repudia e é atraída pela ciência.

A obra de Augusto dos Anjos pode ser dividida, não com rigor, em três fases, a primeira sendo muito influenciada pelo simbolismo e sem a originalidade que marcaria as posteriores. A essa fase pertencem Saudade e Versos Íntimos. A segunda possui o caráter de sua visão de mundo peculiar. Um exemplo dessa fase é o soneto Psicologia de um Vencido. A última corresponde à sua produção mais complexa e madura, que inclui Ao Luar.

Sua poesia chocou a muitos, principalmente aos poetas parnasianos, mas hoje é um dos poetas brasileiros que mais foram reeditados. Sua popularidade se deveu principalmente ao sucesso entre as camadas populares brasileiras e à divulgação feita pelos modernistas.

Hoje em dia diversas editoras brasileiras publicam edições de Eu e Outras Poesias.


Vandalismo. Análise Literária.
Por Dudu Oliveira

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Estado da Paraíba em mil oitocentos e oitenta e quatro e faleceu em mil novecentos e catorze aos vinte e nove anos. Publicou um único livro de poesias, intitulado “Eu”.
Sua obra reflete a superação das velhas concepções poéticas e a procura de um novo caminho. Utilizou em sua poesia, e sua temática mais comum sempre gira em torno da morte, da decomposição da matéria, dos vermes e de uma visão trágica sobre a existência.
A próxima análise contempla um conhecido soneto deste grande poeta:

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templo de priscas e longínquas datas.
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.Na ogiva fúlgida e nas colunatas,
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.Como os velhos Templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos…E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas,
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Vandalismo – Escansão e Esquema Rítmico.

Meu-co-ra-ção-tem-ca-te-drais-i-men-sas,
1       2  3   4    5     6   7  8       9 10        ER 4-8-10 S
Tem-plos-de-pris-cas-e-lon-gín-quas-da-tas.
1       2      3   4     5    6 7    8     9      10  ER 1-4-8-10 S
On-de um-nu-me-de a-mor,-em-se-re-na-tas,
1    2         3    4    5     6        7   8  9   10 ER 3-6-10 H
Can-ta a a-le-lu-ia-vir-gi-nal-das-cren-ças
1      2        3  4  5   6   7  8     9    10         ER 1-4-8-10 S

Na o-gi-va-fúl-gi-da e-nas-co-lu-na-tas,
1       2  3   4    5   6     7     8  9  10           ER 2-4-10 S
Ver-tem-lus-trais-ir-ra-dia-ções-in-ten-sas,
1     2      3   4      5  6   7    8      9  10       ER 1-4-8-19 S
Cin-ti-la-ções-de-lâm-pa-das-sus-pen-sas
1     2 3   4     5   6     7    8    9     10         ER 4-6-10 H
E as- a-me-tis-tas-e os-flo-rões-e as-pra-tas.
1      2   3    4   5    6     7    8    9     10      ER 4-8-10 S

Co-mo os- ve-lhos- Tem-plá-rios-me-die-vais,
1     2           3   4       5       6    7      8    9   10 ER 1-3-6-10 H
En-trei-um-di-a-nes-sas-ca-te-drais
1    2     3    4  5 6    7     8  9   10                ER 2-4-6-10 H
E-nes-ses-tem-plos-cla-ros-e-ri-so-nhos…
1  2     3   4      5      6   7    8  9 10              ER 2-4-6-10 H

E er-guen-do os-glá-dios- e -bran-din-do as- has-tas,
1      2       3        4    5       6   7      8     9        10
(ER 2-4-8-10 S)
No-de-ses-pe-ro- dos- i-co-no-clas-tas,
1     2  3    4   5    6     7 8   9   10               ER 4-10 S
Que-brei-a i-ma-gem-dos-meus-pró-prios-so-nhos!
1      2      3    4     5      6      7        8      9  10
(ER 2-4-8-10 S)

As aliterações e assonâncias observadas estrofe a estrofe evidenciam a construção de uma sonoridade grave, devido a constante anotação de M, N,T e D; convém ressaltar a aliteração em S por todo poema,seja no pronome demonstrativo, ou mesmo nos plurais, dando um efeito sibilante na terminação de algumas palavras, conferindo a todo conjunto uma sonoridade particular.

Tomando como ponto de referência as assonâncias, nota-se a utilização da vogal /e/ marcando todo o ritmo e prevalecendo no conjunto de sílabas átonas, ou seja, como pre-tônica, sustentando o ritmo do poema.
As estrofes, quanto às rimas, obedecem a um esquema de emparelhamento interno nos quartetos com polarização para o primeiro e quarto versos; quanto aos tercetos uma parelha nos versos nove e dez e a repetição do esquema dos quartetos nos quatro versos seguintes.
Quanto ao metro, a arquitetura baseia-se no predomínio de decassílabos sáficos nos quartetos, com tensão rítmica no terceiro verso em decassílabo heróico, nos dois quartetos. Os versos dos tercetos são heróicos, integralmente, no primeiro e sáficos no segundo; com um sáfico impreciso no verso treze, que um acento secundário aponta para uma interessante variável, como veremos adiante.
Os aspectos gerais da construção do soneto registram uma apurada atenção na construção dos versos.
As estrofes seguem uma ordenação e tensão, que não se esgota, como é comum na segunda estrofe de sonetos compostos sem considerar o equilíbrio das estrofes, no seu curso rítmico e semântico.
O vocabulário utilizado, onde predominam paroxítonas, é eclético, atende as necessidades de superfície, forma, e as camadas semânticas, sem prejuízo ao nexo ou a fluência da leitura. O poema é expressivo e imagético, registrando a amplificação conotativo-denotativa proposta já no seu primeiro quarteto. Há êxito na construção de imagens e sensações provocando um aguçamento da atenção do leitor pela grande metáfora construída no poema.
A simetria dos dois quartetos com um heróico no terceiro verso irá trazer a tensão que sustentará a unidade das estrofes. As cesuras em quarta dos sáficos distendem-se em sexta nos heróicos dando um curso menos monótono e uma marcha mais elaborada para o poema.
Um exame mais atento mostrará, entretanto, maior complexidade na disposição de sáficos e heróicos; a simetria é apenas nas grandes unidades métricas, comparável à dos compassos musicais. A análise dos elementos componentes de cada verso mostrará a sua diversidade.
Marcando a predominância do ritmo sáfico em toda a composição, a quarta sílaba é tônica em três dos cinco heróicos, excetuam-se desta tonicidade o terceiro e o nono versos, acentuados em terceira, sexta e décima, “onde um nume de amor, em serenata,” e “Como os velhos Templários medievais”. Assim os demais heróicos mantêm em seus segmentos iniciais, ponto de contato com os sáficos, definindo-se, apenas, a contar da tônica em sexta.
No último terceto se estabelece a simetria – o primeiro e o terceiro versos acentuados em segunda, quarta, oitava e décima, separados por um sáfico impreciso – “no desespero dos iconoclastas” – em quarta e décima; o acento secundário reclamado pela extensão do segmento final, tanto pode recair em “dos”, o que o aproximaria do metro heróico, ou em “co” (de iconoclastas), o que o transformaria em sáfico típico. Na verdade, a indecisão rítmica permanece de vez que, por sua menor duração em relação ao primeiro, o acento secundário não tem caráter definitivo.
O poema é em si uma metáfora, onde o coração é o “querer” do poeta, como o amor espiritual, virtuoso e puro como foi expresso na primeira estrofe. A segunda estrofe reitera e detalha estas virtudes onde o “querer” é minuciosamente enunciado com a descrição de um templo grandioso, local de louvor e adoração.
O primeiro terceto representa a paixão como um Templário, uma autoridade dominadora que arrebata e toma a virtude. Os gládios e hastas simbolizam os ímpetos do desejo sobre o amor espiritual idealizado e na “chave de ouro”, prevalece o desejo que submete a paixão.
Vandalismo trata das rupturas internas, dos valores que uma vez idealizados, confrontam no íntimo e o arrebatamento, a paixão, nos leva a uma ruptura para sustentar uma nova ordem. O conflito entre o amor idealizado e o arrebatamento é a figura do Templário e seu poder confessional.
É uma representação profunda para o período que viveu o poeta, num ambiente de amenidades e manifestações idealizadas.

Crítica literária

Que ninguém doma um coração de poeta! é um ensaio sobre o soneto “Vencedor” e o EU que constata um Augusto dos Anjos convicto em instaurar uma nova civilização brasileira que assombrará o mundo por meio de um novo estatuto à palavra feia e fedorenta arrombando as portas à nova poética do Cosmos. Assim Augusto dos Anjos reivindica um novo Cosmos a Deus, pois está inconformado e quer salvar a humanidade, encarnando também um novo Cristo por acreditar piamente que ele não morreu, pois em carne, osso e sangue vive na Serra da Borborema, lá na Velha Paraíba onde nasceu.

A poética EU de Augusto dos Anjos, assentada em bases sólidas do verossímil e da unidade clássica do filósofo Aristóteles, necessita de risco, fazer o que tem de ser feito, no seu projeto fracassado dum novo Cosmos que ressuscita à vida duma nova Roma instaurada noutra nova civilização brasileira frente ao velho mundo.

Trata-se duma poética da transgressão que se dá à janela livre da globalização ao unir os povos numa só nação chamada Brasil, por estar à frente de seu tempo e na vanguarda cultural da unidade das nações também à luz da pluralidade , de Paul Feyerabend.

Nem é à toa que no livro A poética carnavalizada de augusto dos anjos o crítico constate como em todo o EU e no soneto “Vencedor” há um poeta atormentado em instaurar uma nova civilização brasileira que assombrará o mundo por meio de seu novo estatuto dado à palavra feia e fedorenta como a cloaca que alimenta à hiena, animal desvairado que ainda assim sorrir. Palavra esdrúxula e excêntrica essa que arromba as portas da unidade clássica à literatura universal por meio de sua poética da pluralidade, da transgressão, ordinária e inclassificável.

A poética carnavalizada de Augusto dos Anjos é a festa da carne, o carnaval, apresentando-se com a mesma sinonímia triádica da sátira menipeia, que Bakhtin, em seu livro Problemas da poética de Dostoiévski, resgata lá nas manifestações carnavalescas da antiguidade grega por meio de Menipo de Gadare, seu criador que lhe dá nome.

Nem é à toa também que o poeta de EU, Augusto dos Anjos, explore em sua poética expressões tétricas como “Evangelho da podridão”, “verme”, “matéria em decomposição”, “cloaca”, “escarro”, “miséria”, “grito”, “horrenda”, “alegre” e “sangue”. Todavia tudo junto e misturado às palavras alegres da literatura carnavalizada, que vai abrindo a cena inaugural da miséria nacional por meio dum estranho circo de horrores. É como se criasse assim nessa poética uma metalinguagem cinematográfica sobre o corpo devorado por seus próprios vermes. E o faz por meio duma escritura em plena festa da carne, o carnaval.

Enfim, a sátira menipeia manifesta-se pois também nessa poética aristotélica de EU. Mas ao mesmo tempo é uma poética da transgressão, uma autêntica e original “coroação destronamento”. Trata-se de polifonia, dialogismo e discurso social confluindo na categoria explorada por Bakhtin em sua tríade filológica: “primeira peculiaridade”, “segunda peculiaridade” e “terceira peculiaridade”, equidistantes à tríade semiótica de Peirce: primeiridade, secundidade, terceiridade, que se vão corresponder também com a tríade de Lacan: real, simbólico, imaginário.

A poética EU do maior poeta paraibano do século XX, Augusto dos Anjos, é o grito desesperado para salvar a humanidade por meio de seu projeto fracassado, na promessa de ressurreição tal como sucedeu com Jesus Cristo, vencendo a morte da estética e a instaurando numa cena inaugural doutra nova e gigantesca civilização brasileira que assombrará o mundo.


O legado do poeta para a literatura brasileira é inestimável: sem se dizer membro de qualquer corrente literária, o escritor usava versos coloquiais e escrevia sobre temas polêmicos típicos do naturalismo. Era dessa forma que ele criava poemas inovadores que provocavam espanto e admiração nos leitores.

1) Eterna Mágoa

O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

2) Psicologia de um Vencido 

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

3) Versos Íntimos 

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

4) O Morcego

Meia-noite, ao meu quarto me recolho.
Meu Deus ! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho

” Vou mandar levantar outra parede …”
– Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre minha rede

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A consciência humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto.

5) Agonia de um Filósofo

Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo…
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

Assisto agora à morte de um inseto…!
Ah!todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areópago* heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!…

Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!

6) Idealização da Humanidade

Futura Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
— Homens que a herança de ímpetos impuros
Tornara etnicamente irracionais!–

Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam!No húmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!

Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão…

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação

7) O Deus-Verme

Fator universal do transformismo,
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme — é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…

Ah!Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

8) Vozes De Um Túmulo

Morri!E a Terra — a mãe comum — o brilho
Destes meus olhos apagou!… Assim
Tântalo, aos reais convivas, num festim,
Serviu as carnes do seu próprio filho!

Por que para este cemitério vim?!
Por quê?!Antes da vida o angusto trilho
Palmilhasse, do que este que palmilho
E que me assombra, porque não tem fim!

No ardor do sonho que o fronema exalta
Construí de orgulho ênea pirâmide alta…
Hoje, porém, que se desmoronou

A pirâmide real do meu orgulho,
Hoje que apenas sou matéria e entulho
Tenho consciência de que nada sou!

9) A Nau

Sôfrega, alçando o hirto esporão guerreiro,
Zarpa. A íngreme cordoalha úmida fica…
Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica
E ébrios tritões, babando, haurem-lhe o cheiro!

Na glauca artéria equórea ou no estaleiro
Ergue a alta mastreação, que o Éter indica,
E estende os braços de madeira rica
Para as populações do muno inteiro!

Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda,
Pára e, a amarra agarrada à âncora, sonha!
Mágoas, se as Tem, subjugue-as ou difarce-as…

E não haver uma alma que lhe entenda
A angústia transoceânica medonha
No rangido de todas as enxárcias!

10) Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor!Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaira,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
— Alavanca desviada do seu fulcro —

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!


Se o artista na pintura do quadro Banho Turco faz a reprodução da carne, o poeta Augusto dos Anjos propaga sua apologia da carne, a partir de EU e do soneto “Vencedor”, conforme constata o ensaio crítico Que ninguém doma um coração de poeta! Augusto dos Anjos, na sua poética da transgressão, instaura a festa da carne, a subversão, a constatação da miséria da natureza humana: espírito e corpo, da matéria; as virtudes sociais humanas, a moral cristã, a política, a cultura, a economia, a saúde, a sociologia, a antropologia e a ética, são questionadas, à luz das teorias científicas vigentes na época desse poeta à frente de seu tempo. É como se Augusto dos Anjos abrisse a cena inaugural de sua poética do Cosmos por meio de estranha epifania, com o propósito imperioso de salvar a humanidade numa nova Roma instaurada noutra civilização brasileira que assombrará o mundo.

Sua linguagem orgânica, muitas vezes cientificista e agressivamente crua, mas sempre com ritmados jogos de palavras, ideias, e rimas geniais, causava repulsa na crítica e no grande público da época. Ele somente apresentou grande vendagem anos após a sua morte.

Muitas divergências há entre os críticos de Augusto dos Anjos quanto à apreciação de sua obra e suas posições são geralmente extremas. De qualquer forma, seja por ácidas críticas destrutivas, seja através de entusiasmos exaltados de sua obra poética, Augusto dos Anjos está longe de se passar despercebido na literatura brasileira.

Abordagem biográfica

O aspecto melancólico da sua poesia, que a marca profundamente, é interpretado de diversas maneiras. Uma vertente de críticos, na qual se inclui Ferreira Gullar, fundamenta a melancolia da obra na biografia do homem Augusto dos Anjos. Para Gullar, as condições de nossa cultura dependente dificultam uma expressão literária como a de Augusto dos Anjos, em que se rompe com a imitação extemporânea da literatura europeia. Essa ruptura de Augusto dos Anjos ter-se-ia dado menos por uma crítica à literatura do que por uma visão existencial, fruto de sua experiência pessoal e temperamento, que tentou expressar na forma de poesia. A poesia de Augusto dos Anjos é caracterizada por Gullar como apresentando aspectos da poesia moderna: vocabulário prosaico misturado a termos poéticos e científicos; demonstração dos sentimentos e dos fenômenos não através de signos abstratos, mas de objetos e ações cotidianas; a adjetivação e situações inusitadas, que transmitem uma sensação de perplexidade. Ele compara a miscigenação de vocabulário popular com termos eruditos do poeta ao mesmo uso que faz Graciliano Ramos. Descreve ainda os recursos estilísticos pelos quais Augusto dos Anjos tematiza a morte, que é personagem central de sua poesia, e o compara a João Cabral de Melo Neto, para quem a morte é apresentada de forma crua e natural.


Túmulo de Augusto dos Anjos,Leopoldina,Minas Gerais


Por Natania Nogueira.

Afirmar que todos conhecem a obra do poeta Augusto dos Anjos seria exagerado.  Apesar de ser considerado um dos grandes poetas brasileiros, o paraibano não é necessariamente uma figura que percorre os livros de história e de literatura, pelo menos na maior parte do país. Mas é um personagem singular cuja memória é constantemente revivida em dois estados brasileiros: Paraíba e Minas Gerais.
Augusto do Anjos – Poeta

O primeiro é seu berço, lugar de seu nascimento, onde passou a infância e a juventude. Na cidade de Sapé, um memorial homenageia o poeta. As escolas públicas estão promovendo concursos e homenagens em toda a Paraíba, afinal, 2014 marca o centenário da morte de Augusto dos Anjos. Ironicamente, o poeta deixou a Paraíba por questões políticas, jurando não mais voltar, e acabou tornando-se um dos seus filhos mais ilustres.

O segundo estado, Minas Gerais, é o lugar do seu repouso, onde o poeta da morte encontrou seu leito definitivo de descanso, mais especificamente na cidade de Leopoldina. Para lá ele se mudou com a família para assumir o cargo de diretor do grupo escolar. Morou em Leopoldina apenas por poucos meses. Morreu ainda bem jovem,aos 30 anos de idade, vitimado por uma pneumonia que adquiriu ao tomar uma forte chuva, após comparecer a um enterro no cemitério local.

Tendo sua obra reconhecida e exaltada após sua morte, Augusto dos Anjos torna-se um objeto de desejo, literalmente, de duas cidades, de dois estados. Seu corpo, sepultado em Leopoldina, foi disputado pela Paraíba. A cidade mineira ficou com o poeta, que não retornou para seu Estado de origem nem depois de morto. Ele passou a ser incorporado pelo imaginário local. O poeta exilado na pequena cidade do interior é assimilado pela memória histórica. Seu nome está em escolas, em ruas e em eventos culturais que são periodicamente realizados.

Memorial Augusto dos Anjos,Parque Sólon de Lucena
João Pessoa, Paraíba

Essa construção da memória a partir de um mito, porque Augusto dos Anjos se tornou um mito, acabou por servir de referencial para várias gerações. Sua poesia, sua história de vida, foram apropriados pela cultura local. Em torno dele se criou um discurso, “uma fala escolhida pela história”, se quisermos usar uma citação de Roland Barthes. Constrói-se assim o mito de Augusto dos Anjos, do poeta talentoso que elege a pequena cidade do interior para viver seus últimos dias, dando a ela uma importância nacional.

Temos, em torno de Augusto dos Anjos, duas memórias que se alternam. Uma memória infeliz, que fala do sofrimento, do abandono da terra natal, da busca pela vocação (o magistério). A outra é uma memória feliz, marcada pela realização profissional quando conquista o posto de diretor de uma escola. Poucos meses de suposta felicidade são exaltados como se representassem a culminância de toda uma existência.

A construção da memória não é necessariamente comprometida com os fatos, que podem ser interpretados ou reinterpretados de acordo com os interesses individuas ou coletivos. Em seu livro “A memória, a história e o esquecimento”, Paul Ricoeur afirma que: “A fidelidade ao passado não é um dado, mas um voto. Como todos os votos pode ser frustrado e até mesmo traído. A originalidade desse voto é que ele consiste não numa ação, mas numa representação retomada numa sequência de atos constitutivos da dimensão declarativa da memória.”

A memória possui um elemento subjetivo. Não é difícil perceber essa subjetividade no caso da memória histórica construída a partir de Augusto dos Anjos. Ligado ao discurso que exalta o poeta está um elemento afetivo que o vincula à cidade. Sua memória, assimilada pela memória local, é uma memória positiva. Ele vivou na cidade por pouco tempo, mas por um tempo feliz. Valoriza-se o local não apenas por seus aspectos físicos, mas afetivos, também.  O poeta amou a cidade. Ele desenvolveu nela um sentimento de pertencimento.

A memória pode ser um elemento estimulante. A comemoração do centenário do poeta na pequena cidade de Leopoldina, por exemplo, tem agitado o cenários cultural e educacional por meio de eventos direcionados aos mais variados públicos. Na Paraíba, das universidades às escolas públicas leituras, concursos, debates e uma série de outras atividades vem promovendo uma revisitação à história e à memória locais.

É uma característica do fazer humano a necessidade de criar referências que orientem um grupo, uma comunidade, que ajudem a compor uma identidade local.  E é importante estar sempre estimulando a reflexão acerca disso. Não um simples culto ao herói, mas o uso, a apropriação da memória de modo a reforçar a identidade e a cultura locais.

Imagino como o poeta teria reagido ao impacto que sua obra, concentrada em um único livro, trouxe para o cenário cultural nacional. De como ele se sentiria ao saber que seu nome serviria como um ponto de referência para uma cidadezinha onde viveu por apenas poucos meses. Imagino, porque, afinal, a memória é, também, um exercício de criatividade.


Abordagem psicanalítica

Outros, Como Chico Viana, procuram explicar a melancolia através dos conceitos psicanalíticos. Para Sigmund Freud, a melancolia é um sentimento parecido com o luto, mas se caracteriza pelo desconhecimento do melancólico a respeito do objeto perdido. A origem da melancolia da poesia de Augusto dos Anjos estaria, para alguns críticos, em reflexões de influências política com os problemas de sua família, e num conflito edipiano de sua infância.

Abordagem bloomiana

Há ainda aqueles que tentam analisar a poesia de Augusto dos Anjos baseada em sua criatividade como artista, de acordo com o conceito da melancolia da criatividade do crítico literário norte-americano Harold Bloom. O artista seria plenamente consciente de sua capacidade como poeta e de seu potencial para realizar uma grande obra, manifestando, assim, o fenômeno da “maldição do tardio”. Sua melancolia viria da dificuldade de superar os “mestres” e realizar algo novo. Sandra Erickson publicou um livro sobre a melancolia da criatividade na obra de Augusto dos Anjos, no qual chama especial atenção para a natureza sublime da poética do poeta e sua genial apropriação da tradição ocidental. Segundo a autora, o soneto é a égide do poeta e, munido dele, Augusto dos Anjos consegue se inserir entre os grandes da tradição ocidental.

Unanimidades

De forma geral, no entanto, sua poesia é reconhecidamente original. Para Álvaro Lins e para Carlos Burlamaqui Kopke, sua singularidade está ligada à solidão, que também caracteriza sua angústia. Eudes Barros, em seu livro A Poesia de Augusto dos Anjos: uma Análise de Psicologia e Estilo, nota o uso inusitado dos adjetivos por Augusto dos Anjos, e qualifica seus substantivos como extremamente sinestésicos, criando dimensões desconhecidas para a adjetivação convencional. Manuel Bandeira destaca o uso das sinéreses como forma de representar a impossibilidade da língua, ou da matéria, para expressar os ideais do espírito. Portanto, os recursos estilísticos de Augusto dos Anjos se reconhecem como geniais.

Monumento a Augusto dos Anjos,Parque Sólon de Lucena
João Pessoa, Paraíba

As imagens da obra poética de Augusto dos Anjos se caracterizam pela teratologia exacerbada, por imagens de dor, horror e morte. O uso da racionalidade, e assim da ciência, seria uma forma de superar a angústia da materialidade e dos sentimentos. Mas a Ciência, que marca fortemente sua poesia, seja como valorizada ou através de termos e conceitos científicos, também lhe traz sofrimento, como nota Kopke. É marcante também a repetição de temas nessa poesia, e um sentimento de solidariedade universal, ligado à desumanização da natureza e até do próprio humano, o que reduziria todos os seres a uma só condição.

Os contrastes peculiarizam seus temas. Idealismo e materialismo, dualismo e monismo, heterogeneidade e homogeneidade, amor e dor, morte e vida, “Tudo convém para o homem ser completo”, como diz o próprio poeta em Contrastes.

Academias de Letras

É patrono da cadeira número 1 da Academia Paraibana de Letras, que teve como fundador o jurista e ensaísta José Flósculo da Nóbrega e como primeiro ocupante o seu biógrafo Humberto Nóbrega, sendo ocupada, atualmente, por José Neumanne Pinto.

Augusto dos Anjos também é o patrono da Academia Leopoldinense de Letras e Artes.

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